WHY DETROIT MATTERS

[texto original]

por Sueli Andrade

A alteridade é a experiência comum pela qual todos nós passamos, não importa a medida da mudança, deslocamento. Acompanha todos os seres humanos desde a sua primeira interação com o mundo, fora do útero materno. Do unheimlich freudiano (1919) às esferas de Sloterdijk (1998,1999 e 2003), a alteridade tem sido debatida nas suas diversas camadas de experimentação. Estranhamento consigo próprio, com a casa, a família e com a sociedade num crescente incremental das nossas interações com o mundo.

Essa breve introdução é para nos dar conta da importância do encontro com o outro e principalmente para o desenvolvimento intelectual-cognitivo e maturação do sujeito enquanto ser social. Dito isso, a oportunidade de poder estudar fora do Brasil, amplia-se muito além da experiência acadêmica-intelectual e justifica plenamente a importância de termos um programa público de financiamento para pós-graduação sanduiche. Outra língua, outros costumes, outros climas, outras roupas, outros sabores, outras pessoas. Tudo é da ordem do outro. E o outro é vital à existência do ser.

Meu destino, de intercâmbio e de desejo, foi Detroit. Interessada no tema do pós-humano, suspeitava que a cidade seria um recorte precioso do imaginário sobre a questão, a partir de um ponto de vista distópico. Minha expectativa imaginária transformou-se em um real sem mediação simbólica.

Na década de 1930, a cidade chegou a ser responsável por 40% da produção automobilística mundial, tempos áureos. Digite hoje na rede “Detroit” e encontrará principalmente informações sobre a(s) crise(s) ao longo das últimas décadas que derrubaram a economia local, culminando em grandes e constantes levas migratórias para os subúrbios nas últimas décadas e que, por si só, proporcionaram um vazio urbano-existencial em cerca de 2/3 do território habitável. Por conta disso, 100 mil lotes e cerca de 40 mil imóveis residenciais, comerciais e fábricas foram abandonados configurando visualmente a chamada “ruin porn”.

Pois bem, ocorre que muito da expectativa de quem opta por fazer um intercambio é se deparar com uma cultura e estrutura exemplares, nas quais possa coletar exemplos, incrementar o repertório pessoal e intelectual com todas as benesses do primeiro mundo em particular. Importante ressaltar que, independente de como se configuram essas expectativas, ninguém escapa à experiência da alteridade, quando se depara com o outro.

Mas onde se dá o encontro particular entre alteridade e Detroit que se pretende discutir brevemente neste artigo? Dá-se no não-encontro como se dão todos os verdadeiros encontros, aceitando-se a não-relação entre dois. Imagine por um instante vivenciar esta experiência em um lugar que é corpo-estranho de si próprio, no qual a falta aparece em toda esquina e a ausência é a grande presença na cidade. Como lidar com o vazio, aquele que insistimos em deixar quieto, justamente para não nos aborrecermos com as agruras pessoais e do mundo?

Digo que a experiência de alteridade neste caso é um pouco mais traumática. E traumas podem inaugurar sentidos nunca antes experimentados pelo sujeito, o que pode abrir de fato para uma transformação verdadeira. Em um sentido mais amplo, levando em conta o cenário exposto, a pergunta vira: a crise é minha ou é do lugar no qual hoje existo? Como se resolve um impasse desses? Aproprio-me de Sloterdijk : “se não puder mudar o mundo, mude a si mesmo”. Em seu livro Du musst dein Leben ändern (Você precisa mudar sua vida), o filosofo alemão defende que, a partir da Revolução Francesa e Russa, a Modernidade trouxe maior repressão e um sofrimento impossível de mensurar ao invés de trazer as mudanças ligadas ao ideal de liberdade. Leio este recorte como uma atualização do mal-estar freudiano.

Mudar a si mesmo é questão de sobrevivência em contexto de crise. Mas como evitar a radicalidade da mudança através do outro a ponto de deixar de ser o que lhe define enquanto tal? Enquanto sujeito, a quais semblants pode-se agarrar em território desconhecido para não ser extirpado da sua sustentação neurótica?

Do ponto de vista que se pretende para esta narrativa específica, dou como resposta a arte. Denominador comum a todas as culturas do planeta, mas com poder de afetação muito particular em cada um. Arte enquanto experimentação estética, possibilidade de provocar a ordem e despertar reflexões em nível social, econômico, político e singular.

mural rivera

No Detroit Institut of Arts, está a obra mais famosa de Diego Rivera: Detroit Industry(1932). A convite do empresário Edson Ford, o pintor mexicano passa uma temporada na cidade, acompanhado de sua esposa e brilhante artista Frida Kahlo, para produzir o mural e retratar dessa forma a pungência da indústria automobilística. Mas o contexto vivido e experimentado pelos artistas é do embate da luta de classes, com forte tensão social nas relações entre empresários e trabalhadores. E é esse disparate que fica evidenciado na obra final de Diego. Estar diante dessa pintura de arte revela o comum a toda sociedade contemporânea: a divergência das relações, a inviabilidade do encontro e o sim à violência. Triste constatação identificatória.

Já pela percepção mais singular, revela-se para a predominância de uma representação de universo maquínico ainda orgânico, dado o grande número de trabalhadores ilustrados, bem como pelas tonalidades mais pasteis na composição da obra e máquinas posicionadas como coadjuvantes em cena. Se fosse hoje, como Diego ou qualquer outro artista retrataria a indústria automobilística e mesmo a cidade de Detroit?

Proporia dois vieses diferentes. De um lado, plantas de produção de carros equipadas com altíssima tecnologia, pouca força humana trabalhadora, hipernível de organização e segmentação: a utopia do maquinário e proposta de modernidade para o século XXI. Do outro, a completa distopia nas milhares de casas abandonadas e no vazio urbano de uma cidade que abriga em torno de 1/3 da ocupação demográfica possível.

Aconteceu aqui, pode acontecer em qualquer grande metrópole capitalista e este é um dos motivos pelos quais olhar para a cidade é tão importante, por mais incômoda que seja a sensação de estranhamento. Mas não é só por isso que Detroit importa. O exemplo da cidade está nos rearranjos que a cidade tem feito para não se desmantelar, assim como faz o sujeito na sua experiência mais radical de alteridade para não se despedaçar.

Detroit articula novas redes, amarrações e sentidos nos quais destacaria a arte urbana e instalação de complexos artísticos em casarões abandonados. A arte tem se apropriado da cidade, território selvagem e em estado in natura para aqueles que pretendem livre exploração e experimentação no mundo. Um raro espaço no planeta, especialmente nos EUA onde tudo é altamente regulamentado.

O projeto de arte urbana com maior destaque é o já internacionalmente conhecidoHeidelberg Project (1986). Um artista local, chamado Tyree Guton, começou a intervir em um quarteirão abandonado, fazendo sua arte a partir de objetos encontrados em lixo reciclável e reconfigurando assim as casas abandonadas. O mais interessante é que uma das vertentes deste trabalho é discutir a relação do tempo e suas transformações. Há centenas de relógios, ao estilo Salvador Dali, desenhados e/ou esculpidos no quarteirão e pregados nas casas, árvores, postes. “A efemeridade, mas não imparcialidade do efeito do tempo na vida e seus efeitos”, segundo o próprio Tyree. O projeto hoje é uma instituição sem fins lucrativos, com sede própria e que apoia novos artistas made in Detroit, além de promover ações educativas junto a comunidade.

heidelberg

Ainda sobre as novas tramas que compõem o tecido atual da cidade, é impossível não mencionar a existência de diversas fazendas comunitárias urbanas, com produção de alimentos 100% orgânicos; organizações civis sem fins lucrativos que assumem responsabilidades públicas como manutenção de parques e até mesmo transporte público escolar. Mas e o poder público? A prefeitura decretou falência em 2013. Atualmente esta esfera de poder concentra-se nas políticas econômicas na medida em que facilita subsídios para empreendimentos imobiliários e grandes, médias e pequenas empresas. Ou seja, busca-se uma opção dentro do próprio sistema para sair da crise que o próprio sistema gerou. Discutir este não-encontro valeria um outro artigo.

Poder vivenciar alteridade neste contexto é um privilégio. Especialmente em um contexto de tendência normativa e pasteurizante-paralisante em um mundo no qual todos sabemos exatamente o que iremos encontrar around the world (mesmas lojas, mesmos estilos de arte, mesmas grandes redes, mesmos hipsters etc). Jim Jarmusch em “Only Lovers Left Alive” (2013) representa este sentimento ao fazer de Detroit a moradia de Adam, um charmoso vampiro-músico que se encontra deprimido e cansado por conta do rumo que a humanidade tomou nos últimos séculos.

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Temos ainda, a partir do título do filme, uma especulação naive, mas não menos possível sobre como ultrapassar a crise, seja ela de ordem singular, generalizada no mundo ou em Detroit: a saída pelo viés do amor. Este é o componente não citado até então, mas que precisa ser vivenciado principalmente na relação de respeito ao próximo, seja ele um igual ou representante de um outro.

No mais, acredito que uma experiência de alteridade que, de fato, produza sentidos muito além dos horizontes da ladainha neurótica de cada um, é uma possibilidade edificante de se transformar o mundo. Só assim exercitamos dois importantes preceitos psicanalíticos de forma socializante: a premissa da escuta e o olhar para o outro. E nesta fronteira do imaginário com o simbólico na qual se articula o desejo, passei a correr atrás de o “um” que me incite a ser menos eu, e mais o outro. Por finalmente me fazer compreender isto, digo: “obrigada Detroit: ain’t no mountain high enough, ain’t no valley low enough, ain’t no river wide enough to keep me from getting to you babe[1].

Referências bibliográficas

Freud, S. (1919/1996). O estranho. Obras completas, ESB, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago Editora.

SLOTERDIJK, Peter. 2003. Esferas I. Burbujas. Madrid: Siruela.

Referências da rede

http://www.dw.de/sloterdijk-sugere-mudança-individual-em-era-de-crise-global/a-4256196

http://www.nytimes.com/2014/05/28/us/detroit-task-force-says-blight-cleanup-will-cost-850-million.html?_r=0

Imagens

Mural Rivera: https://www.google.com/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0CAUQjhw&url=http%3A%2F%2Fobserver.com%2F2014%2F11%2Fdetroit-institute-of-arts-holdings-safe-as-judge-rules-in-favor-of-grand-bargain%2F&ei=nzM0VceCCcnNsAXP3oCgCw&bvm=bv.91071109,d.cGU&psig=AFQjCNEVzvTARsOaxS4BvILLRFY8Os_JAw&ust=1429570720955123

Heidelberg Project:

https://www.google.com/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0CAUQjhw&url=http%3A%2F%2Flittlemissdetroit.com%2F%3Fp%3D473&ei=NDk0VZLRDsTjsAWazYCICw&bvm=bv.91071109,d.cGU&psig=AFQjCNHzuYCi9L3DZeWGFBPgDnwkXBB_6A&ust=1429572270487046

Only Lovers Left Alive:

Shot screen de cena do filme

Videografia

Only Lovers Left Alive (2013)

Detropia (2012)

Searching for Sugar Man (2012)

[1] “Ain’t No Mountain High Enough” (1967) , Marvin Gaye e Tammy Terrel – hit mundial oriundo da Motown, a gravadora originária de Detroit.

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BRASILIA EM CONSTRUCAO

[texto original]

Brasília em Construção por Marcel Gautherot

Brasília, a capital federal do Brasil, foi projetada pelo arquiteto-urbanista Lúcio Costa – inicialmente – para 500 mil habitantes (atualmente possui mais de dois milhões). Sua construção iniciou-se em 1956 e contou com inúmeros edifícios desenhados pelo nosso arquiteto Oscar Niemeyer. Brasília é a única cidade do século XX declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

A seguir, apresentamos algumas fotografias do fotógrafo franco-brasileiro Marcel Gautherot durante sua construção. Nelas aparecem emblemáticos edifícios como o Palácio do Planalto, a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida e o Congresso Nacional, todos obras de Niemeyer.

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot

© Marcel Gautherot