CAMPOS E EXCECOES

[texto original]

Pela vista aérea, Zaatari parece uma cidade. Mas é, na verdade, o terceiro maior campo de refugiados no Oriente Médio.

Muitos daqueles forçados a deixar suas casas durante o conflito sírio se refugiaram em países vizinhos, e 80 mil deles estão vivendo agora em uma parte do deserto jordaniano.

Desse total, mais de metade são crianças.

O rei jordaniano Abdullah diz que seu país está em “ponto de ebulição” devido ao fluxo de refugiados.

O monarca disse à BBC que há uma enorme pressão sobre os serviços sociais, infraestrutura e economia da Jordânia.

“Cedo ou tarde, acho que a barragem vai estourar”, alertou, ao mesmo tempo em que pediu mais ajuda internacional para os refugiados em seu país.

A Jordânia acolhe cerca de 1,5 milhão de refugiados, mais que o continente europeu inteiro.

Por isso, a ONU pede quantia de US$ 7,7 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) para financiar as operações de ajuda a 22,5 milhões de pessoas na Síria e em países vizinhos em 2016.

No entanto, em 2015, apenas 43% dos US$ 2,9 bilhões (aproximadamente R$ 12 bilhões) solicitados foram financiados.

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Crianças são as maiores vítimas da guerra civil na Síria27 fotos

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Em 21 de agosto de 2013, um ataque químico na Síria deixou 1.429 mortos, incluindo 426 crianças. A ONU confirmou a presença de gás sarin, mas não pode informar se rebeldes ou forças do governo foram responsáveis pelo ataque. A ofensiva foi considerada pela organização o uso mais significativo de armas químicas contra civis desde que Saddam Hussein usou em Halabja em 1988 VEJA MAIS > Imagem: Bassam Khabieh/Reuters
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HISTORIAS

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O diabo que fez isso

Maria do Carmo

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Vai ficar na memória o que a gente tinha

José do Nascimento

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Uma vida não tem preço

Geraldo da Silva

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O lugar não dá mais nada

José Pascoal

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Isso aqui vai virar uma poeira só

Edinaldo da Silva

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A nossa história não pode acabar no dia cinco

Paula Geralda Alves

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Aqui em Mariana os meninos ficam presos

Nívea da Silva

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Quando vi todo mundo quietinho, disse: Corre, gente!

Mírian Carvalho

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Puxava minha mãe, que puxava meu primo

Marcos Júnio de Souza

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Demorei anos para fazer minha casinha

Marinalva Salgado

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As pessoas estavam estarrecidas

Leonard Farah

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Só não perdi minha família e a fé em Deus

Leontina Marcelino

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Eu salvaria meu cachorro, porque ele é vida

Onézio Souza

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O pessoal tinha esse pesadelo

Sandra Quintão

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A última coisa que tive da minha filha foi um beijo, um abraço e nada mais

Pamela Rayane

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Na hora, eu perguntava: Vocês viram minha mãe?

Marcelo José Felício

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HQ (KHALID E A TORTURA)

[texto original]

Um hobby o levou à sala mais cruel da Síria

A crise migratória tem milhões de rostos. Um deles é o de Khalid, primeiro personagem da trilogia em HQ publicada pelo TAB. São histórias reais sobre três sírios que fugiram da Guerra Civil, mas foram seguidos pelo sofrimento.

O centro de refugiados

Meu nome é Khalid. Tenho 24 anos. Eu escapei da Síria e estou neste centro para refugiados na Noruega há três meses.

Os dias passam lentamente.

Eu aguardo a tramitação do meu requerimento de asilo.

Fico observando as crianças pedalando em círculos lá fora.

A vida antes da Guerra Civil Síria

Tínhamos que nos fazer de surdos, mudos e cegos diante dos desaparecimentos, assassinatos e tortura…

A Guerra Civil Síria

Eu me juntei aos protestos, mas mantive isso em segredo da minha família.

Minha mãe teria me trancado no meu quarto para me proteger.

Nós marchamos em gloriosa unidade.

Quando as forças de segurança atiraram em nós, isso endureceu nosso desafio…

Detenção e tortura

Eles colocaram meus pés em uma bacia com água – então eletrocutaram com cabos elétricos

Eles o eletrocutaram e o espancaram diante de mim.

Resgate e recuperação

Reflexão

Certo dia minha mãe ligou, com tremor na voz.

Homens mascarados tinham vindo até nossa casa e revirado o lugar à minha procura.

Se tivessem me encontrado, certamente estaria morto, e agora minha família também está em perigo.

Khalid finalmente recebeu asilo na Noruega. Agora, ele pode dar início ao processo de cicatrização do seu sofrimento.

MILITARIZACAO COMO SOLUCAO

[texto original]

A militarização é a solução para a crise de refugiados na Europa –abrir fronteiras vai apenas fortalecer a direita xenófoba populista. A declaração é do filósofo esloveno e ícone pop Slavoj Zizek.

Aos 66 anos, Zizek não tem medo de chocar, seja ao escrever para o catálogo de roupas de jovens da Abercrombie & Fitch, confessar que guarda suas meias nos armários da cozinha ou pregar a violência revolucionária.

E não se furta a criticar a visão “humanitária” da esquerda liberal europeia, que estaria santificando os refugiados. “A fórmula liberal pura diz que devemos tolerar o estilo de vida de qualquer grupo étnico, mas isso não funciona; foi muito embaraçoso para meus amigos de esquerda ver que grupos muçulmanos na Alemanha, Suécia, Dinamarca e Holanda estavam atacando gays, uma vez que homossexualidade é inaceitável para eles.”

Abaixo, trechos da entrevista concedida à Folha por Zizek, que lança o “O Absoluto Frágil – ou Por Que Vale a Pena Lutar pelo Legado Cristão?”, pela editora Boitempo, nesta semana.

João Wainer-5.dez.2003/Folhapress
Filosofo eslovaco Slavoj Zizek durante visita à Folha em 2003

*

Folha – Recentemente, o senhor publicou um artigo sobre a crise de refugiados na Europa. O senhor afirma que abrir as fronteiras não é uma solução realista. Então o que deveria ser feito?

Slavoj Zizek – Abrir as fronteiras é a solução errada. Pode ser chocante para você, mas a única solução realista a longo prazo é mudar a política do Ocidente. Obviamente o Ocidente é corresponsável pelo fluxo de refugiados.

Está claro que os refugiados vêm de áreas colonizadas economicamente pelo Ocidente, em que as potências ocidentais destroem as comunidades locais, basta olhar para a África.

Além disso, a maior parte dos refugiados vêm de países no Oriente Médio que foram desestabilizados por intervenções militares ocidentais. Até Tony Blair (ex-primeiro ministro britânico que apoiou a invasão do Iraque em 2003) admitiu em entrevista recente que a ocupação ocidental no Iraque desestabilizou o país, deu origem ao Estado Islâmico e ao fluxo de refugiados. Com a Líbia foi igual, sob Muammar Gaddafi as coisas estavam sob controle, e hoje o país não existe mais como Estado.

Por outro lado, não podemos dizer ‘somos culpados, então simplesmente vamos permitir que venham os refugiados’. Se fizermos isso, haverá uma revolta populista de direita, anti-imigração, que já está ocorrendo. O principal efeito político da onda de refugiados é o fortalecimento dos políticos de direita, populistas e anti-imigração.

A única solução que enxergo, no curto prazo, é a militarização. Sim, você ouviu bem. O caos atual, com dezenas de milhares de pessoas andando pela Europa, sem saber onde vão ficar, é intolerável.

Só uma grande organização como as Forças Armadas podem fazer isso –primeiro, estabelecer centros de triagem onde a crise está: sul da Turquia, Líbano, Líbia. Nesses centros, os refugiados seriam registrados, e seria determinado quais estão realmente em perigo, e só esses seriam mandados para a Europa.

A Eslovênia, um país pequeno com 2 milhões de habitantes, está recebendo 10 mil refugiados por dia. A Croácia simplesmente os manda para cá e nós os colocamos em barracas. Essa desorganização não pode continuar, por isso é necessário ter uma militarização.

Por que não fizeram essa organização antes, esse processamento nos locais de origem dos refugiados?

É um grande mistério. Eu não consigo entender a inércia da Europa. Há uma sentimentalização de toda a questão dos refugiados e precisaremos quebrar muitos tabus. Refugiados são gente como a gente –alguns são bons, outros são maus. Gente como a gente não significa que sejam todos bons, e isso não é argumento para racismo, pelo contrário, é uma abordagem realista.

Muita gente defende a integração dos refugiados nas nossas comunidades. A minha pergunta, que é praticamente proibida na Europa, é a seguinte: eles querem se integrar? Eles querem reter seu estilo de vida ao mesmo tempo em que se integram ao mercado de trabalho europeu. E isso causa problemas.

A fórmula liberal pura diz que devemos tolerar o estilo de vida de qualquer grupo étnico. Mas isso não funciona. Foi muito embaraçoso para meus amigos de esquerda ver que grupos muçulmanos na Alemanha, Suécia, Dinamarca e Holanda estavam atacando gays, uma vez que homossexualidade é inaceitável para eles.

Outro problema: foi realmente estúpido o governo francês proibir o uso de véu. Mas e se uma menina muçulmana se recusa a usar o véu e a família quer forçá-la? Não é um problema marginal, acontece frequentemente na Alemanha.

O Estado deve proteger a menina ou não? Se o Estado interferir, muçulmanos dirão que estamos arruinando seu modo de vida, porque a autoridade patriarcal é um ponto central. Então onde está o limite? Aceitamos a opressão como parte de um estilo de vida? É preciso ter regras claras.

Não sou um fanático de direita, sei que os refugiados estão em uma situação dramática. Mas nós, na Europa, agimos como se eles estivessem saindo de um buraco negro para a Grécia, estivessem partindo do nada.

O que está acontecendo do outro lado? Este fluxo de refugiados não tem geração espontânea, há uma enorme rede de coiotes. Os refugiados que chegam à Europa são os ricos, que têm dinheiro para pagar os coiotes. E o que estamos fazendo em relação aos coiotes?

Outra pergunta: a maioria dos refugiados são muçulmanos sunitas, mas países sunitas muito ricos, como Arábia Saudita, Qatar, Kuait e Emirados Árabes, não recebem praticamente nenhum refugiado. Depois de muita pressão, a Arábia Saudita concordou em receber 12 mil, mas disse que isso é tudo. Por que esses países sunitas ricos não acolhem mais refugiados?

Não podemos ter dezenas de milhares de pessoas andando sem rumo no meio da Europa densamente habitada. Isso é loucura. Já está levando a uma revolta da direita populista: na Suécia, o partido mais forte é o anti-imigração; na última eleição polonesa, a direita ganhou e na Hungria, os anti-imigração estão se fortalecendo.

Como o senhor encara a ascensão do Estado Islâmico, que está criando um “califado” dentro do Iraque e da Síria, propondo uma alternativa às democracias seculares e usando a violência como arma revolucionária, algo que o senhor aborda em seus textos?

Nesse caso, eu concordo com o termo islamofascismo. A ascensão do fundamentalismo islâmico é um efeito do desaparecimento da esquerda socialista secular em países muçulmanos. É uma tragédia. Olhe para o Iraque e a Síria. Ainda que sejamos contra Saddam Hussein e Bashar al-Assad, e certamente eles foram tiranos brutais, esses países eram oficialmente seculares e agora os estamos perdendo. É a tragédia das intervenções ocidentais.

O que o Ocidente deveria fazer para evitar que mais sangue seja derramado na Síria?

Idealmente, deveríamos intervir, mas não vejo nenhuma força que possa fazer essa intervenção. A única solução verdadeira é mudar o funcionamento do capitalismo global. Refugiados são parte do capitalismo global, e nós estamos à beira de um choque de civilizações –de um lado, refugiados furiosos, de outro, europeus apavorados.

Os governos bolivarianos e de esquerda na América Latina, que se propunham a ser uma alternativa ao modelo calcado no Consenso de Washington, enfrentam enormes desafios. A Venezuela de Maduro vive uma crise social e econômica, a Argentina kirchnerista acaba de sofrer um baque eleitoral e o Brasil deve encolher 3% este ano. Qual foi o erro da esquerda latino-americana?

Nem todos os países vão mal, a Bolívia, de Álvaro García Linera, vai muito bem…

Ok, com exceção da Bolívia…

Eu nunca confiei no kirchnerismo. O peronismo, no longo prazo, é uma catástrofe para a Argentina, uma falsa promessa. Mas eu não diria que a esquerda está em apuros, diria que uma esquerda latino-americana populista, específica, é que está com problemas.

Cinco anos atrás, muitos amigos meus da América Latina diziam que a esquerda europeia tinha acabado, que a esperança eram os governos da América Latina. Agora vemos a verdade. Não apenas esse populismo latino-americano de esquerda não pode ser exportado, como ele não funciona nem na América Latina. Não é a resposta para os problemas do capitalismo global.

Por que não?

Porque não é uma alternativa eficiente, só isso. Foi apenas um pouco de intervenção do Estado, um pouco de redistribuição, que abriu caminho para corrupção. Funcionou por algum tempo. Era uma esquerda reformista light, não revolucionária.

O senhor já afirmou que será necessária “violência extrema” para lidar com o capitalismo global e outras situações. O senhor endossa a violência?

Todo mundo concorda que, em certas situações, é preciso lutar. E não é que eu pregue a violência, eu só quero mostrar que já há muita violência hoje. Por que todo mundo se concentra na violência revolucionária? Olhe para o mundo, olhe quanta violência já existe. Dizer que sou a favor da paz não significa nada.

Por exemplo, os israelenses são a favor da paz. Por que? Porque é conveniente para eles, paz significa que eles vão manter o que têm hoje. Todos os que estão ocupando a terra dos outros são a favor da paz, porque eles já têm o que queriam. Não estou dizendo que apoio ataques terroristas dos palestinos, mas só alerto para a hipocrisia de ser a favor da paz.

Como o senhor se sente quando é chamado de “Elvis da filosofia”?

Eu odeio. É um jeito de me atacar. Basicamente significa que sou um cara divertido que não deve ser levado a sério. Existe uma indústria dedicada a me tornar popular como forma de me neutralizar. Você pode destruir uma pessoa ao elogiá-la. Eu publiquei um livro sobre Hegel, “Menos que Nada: Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético”, me diga, onde está o Elvis lá?

AL ZAATARI

[texto original]

O caminho até Al Zaatari, um dos maiores campos de refugiados do mundo, leva cerca de uma hora. Saindo de Amã, capital da Jordânia, o trajeto é feito em uma faixa de asfalto cercada de areia –a mesma estrada que era usada com frequência pelos jordanianos para fazer compras ou passear na Síria. O país vizinho era considerado uma das nações árabes mais abertas ao mundo ocidental e, portanto, com mais opções de lazer. Mas isso tudo foi antes da guerra civil começar.

O movimento agora é no sentido contrário da estrada. Os sírios deixam o país em massa: 4 milhões fugiram da guerra desde o início do conflito, em março de 2011, diz o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Nos primeiros anos do campo chegavam centenas num mesmo dia em busca de abrigo, fugindo dos bombardeios que destruíram as cidades sírias.

Ihab Muhtaseb, um jordaniano que viveu anos na Califórnia e hoje trabalha como fixer –espécie de guia que acompanha os jornalistas que desejam trabalhar nas zonas de conflito– vai com frequência a Al Zaatari desde o início.

“Um dia, cheguei aqui e tinha tanta gente amontoada, não dava tempo de montar as tendas. Famílias inteiras dormiam nas ruas”, conta.

Três anos depois, o campo é um arremedo de cidade: há comércio, escolas, mesquitas e até playgrounds para crianças, além de hospitais. A rua principal, que concentra as lojas da “cidade” dos refugiados, remete ao metro quadrado mais caro do planeta para aluguéis comerciais: chama-se avenida Champs Elysées, como em Paris. Era assim que um dos primeiros grupos de ajuda humanitária em atuação na construção do campo, formado por franceses, a chamava. O nome pegou. Hoje é a mais movimentada de Al Zaatari, e reúne desde vendedor de kebabs até loja de aluguel de vestidos de noiva.

Esperei duas semanas pela autorização para visitar Al Zaatari, um documento necessário para qualquer pessoa que não vive ou trabalha em um campo de refugiados. De Amã até lá, dividi o carro com uma equipe de jornalistas franceses que produz um documentário sobre o Oriente Médio e que já havia visitado a região outras vezes. A proximidade do check point aumentou a tensão do grupo: a carta de permissão não garantia nossa entrada, que dependia do humor de quem nos atendesse. Se minha visita fosse negada, a orientação do motorista era voltar para Amã de ônibus – caso a equipe francesa fosse autorizada a entrar. Não foi preciso: o militar devolveu os papéis com um sorriso e um aceno de cabeça ao tradutor.

A distância entre o primeiro check point e o segundo, que daria acesso a Al Zaatari, era de quase um quilômetro. Ao redor, cercas altas com arames farpados na parte superior. Era a primeira vez que eu entrava em um campo de refugiados, um local onde as pessoas não estão por opção, e sim pela falta dela. Um acampamento temporário até poderem retornar à Síria e reconstruir suas vidas, algo que ainda parece distante quatro anos após o início da guerra. A área do campo mais próxima da fronteira fica a apenas 20 km do conflito civil que já matou 220 mil sírios, segundo as Nações Unidas.

Cheguei à Champs Elysées do deserto num sábado, o primeiro dia após o fim do Ramadã de 2015, sempre marcado por festas que celebram o fim do mês de jejum ritual que é um dos pilares do islamismo. Às 9h da manhã, as ruas ainda estavam vazias. Lojas abriam suas portas, uma padaria já vendia pães, o vendedor de uma banca de sapatos removia a cobertura sobre vários modelos em couro. Poderia ser em qualquer outra rua comercial de diversas cidades mundo afora, mas em Al Zaatari há uma fronteira definida pelas cercas. Os sírios que vivem no campo, um pedaço de terra em território jordaniano, não têm visto para viver no país.

Metáfora de liberdade

Yehiga Mohamad Hannud, 22, nasceu no Egito, mas foi criado na Síria. Esteve no campo antes, quando conheceu a mulher e se casou, mas preferiu voltar à Síria em guerra. Um ano depois, a violência o devolveu a Al Zaatari, onde vive com a mulher, os dois filhos e uma grande criação de pombos. Sua tenda fica em frente a um grande cruzamento e próxima de um parque de diversões cercado de arame que abre apenas em horários determinados. À porta, Yehiga nos recebe com copos e um bule de chá –o primeiro de vários que tomaríamos durante o dia, símbolo da gentileza dos árabes com seus visitantes.

Com os braços tatuados, o jovem abraça o filho pequeno e conta que os pombos o remetem ao país em que cresceu. “Esses pássaros me lembram da Síria, é como se eu estivesse lá. Se não fosse por esses pombos eu não ficaria aqui um único dia”, relata Yehiga. Omar, de dois anos, tem Al Zaatari como país de nascimento na sua certidão.

A criação de pombos tornou-se um passatempo. No campo, àqueles que não conseguem permissão para abrir um negócio só resta aguardar o fim da guerra na Síria –e cultivar a esperança. “Quando eu vejo todos esses pássaros voando juntos e voltando para mim, é como se fosse o dono do mundo”, diz ele, sorrindo. Para guiar as aves, ele arremessa pedras envoltas em plástico com uma espécie de estilingue na direção em que os pombos devem voar. Quando voltam, ficam no quintal da tenda de Yehiga e são alimentados com ração e restos de alimentos, preparados por ele. Se ficam doentes, ele os alimenta com seringas, direto no bico.

Alegria de aluguel

Visto de cima, Al Zaatari é um grande retângulo cheio de barracas brancas, separadas por ruas bem desenhadas e organizadas. No centro desse emaranhado de pontos brancos, a avenida mais larga reúne as barracas de moradores que foram transformadas em algum tipo de comércio. Entre elas, uma vitrine envidraçada reflete a movimentação da rua e esconde diversos cabides de volumosos vestidos de noiva. Além dos tradicionais trajes brancos, há vestidos coloridos, um costume das noivas sírias.

O dono, Abdulla Cabu, 36, mantém a timidez apenas até perceber meu interesse por seu negócio. Torna-se um vendedor falante e animado, conta que tem a loja há um ano e trabalha com mulher e filha sempre por perto. A família é de Damasco, capital da Síria, e está no campo há dois anos e meio. Como a grande maioria dos sírios que vivem ali, ele também deseja voltar para casa. Enquanto a guerra não dá trégua em seu país, Abdulla tenta seguir sua vida na “cidade” cercada de Al Zaatari. Aluga de três a quatro vestidos de noiva por mês por 25 JD (dinar jordaniano), cerca de US$ 35.

“Tento viver uma vida normal aqui e trabalhar com a alegria das pessoas. Isso me faz esquecer que minha família vive nesta espécie de prisão.”

Um jardim no deserto

Quase uma da tarde, as ruas do campo já estavam tomadas de crianças. Quando viam nossas câmeras, logo se posicionavam para fotos. Entre os meninos, havia armas de brinquedo que eram apontadas para nós enquanto posavam.

Saímos da avenida movimentada com nome francês e chegamos à parte do acampamento mais próxima da fronteira da Jordânia com a Síria. Pelas ruas labirínticas, onde quase todas as barracas são parecidas, um pequeno pedaço de terra com algumas plantas atraiu nossa atenção. Era um modesto jardim, mantido pelo casal de sírios Abu Mohammed e Um Mohammed. Eles estão em Al Zaatari desde que o campo foi construído, há três anos. Ao mesmo tempo em que alimentam o desejo de voltar a ter uma vida normal em seu país, cultivam batatas, ervas e alguns pés de tomate que crescem no solo árido.

O casal usa parte de sua cota diária de água para irrigar e manter um retângulo sempre verde em meio à paisagem quase monocromática do acampamento. Apesar de estampado em seu rosto, Abu Mohammed não gosta de falar de seu sofrimento. “A dor que temos aqui nós não gostamos de contar a ninguém. Lembrar disso nos machuca tanto, e machuca tanto a quem ouve, que é melhor não falar.”

O tempo de visita acabou por volta das quatro da tarde, com o sol começando a ir embora, e tivemos de partir. Entre os dois check points, abri a janela do carro para fazer um registro proibido da área externa de Al Zaatari. Não é permitido usar câmeras em áreas com a presença de soldados. Fotografei rapidamente e logo desviei o olhar para o céu azul do verão jordaniano. Antes de cruzar o último check point e deixar a área vigiada, observei os pombos de Yehiga voltando para casa.

OS POBRES DE HARDT E NEGRI

[texto original]

Silmara Silva poderia ter ficado mais duas horas na avenida Paulista para tentar vender as jóias que ela mesma faz, mas a forte ventania e as ameaças de chuva a fizeram voltar para casa. Ou, dito melhor, para “o prédio”. É assim que a artesã de cabelos vermelhos define a ocupação onde ela mora no bairro da Liberdade, na região central de São Paulo.

O imóvel de onze andares era da Telesp, a antiga operadora de telefone do Estado de São Paulo. Ela conta que está abandonado há 15 anos. “Apesar disso, está em boas condições, a luz e a eletricidade nunca foram cortadas, e a gente fez uma vaquinha para consertar um dos elevadores”, acrescenta a mulher, vestida de uma longa saia feita por uma amiga artesã. Na fachada do prédio, é possível ler nas bandeiras vermelhas penduradas as palavras “Terra Livre”. É o nome de um dos grandes movimentos populares de moradia da metrópole paulista.

Fotos: Lamia Oualalou/Opera Mundi

Refugiados ocupam, junto com sem-tetos, prédio no centro da capital paulista

Originaria de Rondônia, Silmara veio para São Paulo sete anos atrás para fazer um curso de cabeleireira. Ela viajou com uma mala e a filha de quatorze anos. Colorista, trabalhou em vários salões até janeiro passado, quando ela desenvolveu uma alergia ao formol usado nas escovas progressivas. “Fiquei desempregada, gastei todo meu dinheiro guardado para pagar os médicos, já que não tenho plano de saúde, não dava mais para pagar aluguel; foi quando uma amiga me apresentou o Terra Livre”, conta. Um mês de ocupação, em outro prédio, no bairro de Pinheiros (zona oeste de São Paulo), foi suficiente para convencer a cabeleireira de virar militante do movimento. “Mas é que, quando cheguei aqui, tudo mudou, porque a galera é muito especial. Daí virei coordenadora do prédio, cuidando deles, além do meu trabalho”, diz Silmara, convidando o visitante a subir no elevador.

Ocupando o imóvel há apenas 40 dias, a tal “galera” é constituída por 60 famílias, das quais 20 vieram da Síria. “Temos dois sírios, três egípcios, mas a grande maioria é composta de palestinos que já eram refugiados na Síria. Todos tiveram que deixar o país por conta da guerra”, conta. Alguns chegaram diretamente do aeroporto, outros foram encaminhados por mesquitas, onde eles dormiam, esperando um teto. “Quando eles chegam, organizações da sociedade civil como Caritas encontram um lugar para eles, mas não podem ficar mais do que 90 ou 120 dias, depois, eles têm que se virar. Não é fácil, já que muitos não têm a documentação em dia, não têm trabalho, e, sobretudo, não sabem falar português”, diz a rondoniense. Os refugiados ocupam os três últimos andares do prédio, enquanto os sem-tetos brasileiros estão nos seis primeiros.

Apesar da distância entre Síria e São Paulo, o Brasil é hoje a nação que mais concedeu asilo a refugiados sírios na América Latina. A Agência da ONU para refugiados (Acnur) calcula que já são 2.077 no território nacional. Eles são atraídos pela presença de uma comunidade sírio-libanesa desde o século passado, mas também pela facilidade de se conseguir asilo. Em 2013, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) adotou uma resolução para desburocratizar a emissão de vistos para cidadãos sírios e outros estrangeiros afetados pela guerra. As facilidades expirariam no fim do mês de setembro, mas o governo as prorrogou.


A artesã Silmara Silva coordena o “prédio”, como ela mesma chama, no qual moram também sírios, palestinos e egípcios

Yahya Moussa é um dos refugiados que se beneficiou desta burocracia mais flexível. Ele chegou ao Brasil nove meses atrás. Após um tempo na mesquita de Guarulhos, o homem, de cerca de 45 anos, conseguiu trazer a esposa, Zubeida, e a filha do casal, Alma. “A gente considera o Brasil como uma nação mãe, sabe”, explica o pai de família, em árabe. “Conseguimos tirar um visto no Consulado do Brasil em Beirute, onde nos refugiamos depois de fugir de Damasco. Os outros consulados não queriam saber nada da gente”, completa. Após três anos de espera no Líbano, a Europa, mais próxima, já não era mais uma opção. “Uma parte da minha família morreu afogada no Mediterrâneo. Um pai, uma mãe, e dois filhos. Não podíamos correr este risco”, relata Zubeida, cujos cabelos são cobertos por um véu discreto.

A vida no Brasil não é fácil. Ao contrário do que acontece em países europeus, o governo não proporciona nenhuma ajuda para encontrar um emprego ou um teto. “Não importa. Pelo menos aqui, nossa filha vai todos os dias para escola, não tem mais medo. Em quatro meses, já aprendeu o português”, insiste Yahya. Para sobreviver, ele arrumou um bico num pequeno restaurante que faz sanduíches falafel. “Quando falar português, vou conseguir algo melhor”, assegura, cheio de esperança.


No local onde a família de Yahya está acampada, há apenas colchões, um sofá velho e uma mesinha

A questão da moradia, porém, é crítica. Além da pequena renda, Yahya não tem nenhuma condição de arranjar um fiador. “O movimento de sem-tetos demonstrou uma linda solidariedade conosco, não sei quanto tempo a gente vai poder ficar nesta ocupação, por enquanto, não temos outra opção”, completa o palestino. Como todos seus companheiros, ele ficou impressionado pelo alto custo de vida em São Paulo.

Na sala onde a família está acampada, há apenas dois colchões, um velho sofá recuperado, e uma mesinha onde eles convidam o visitante para beber o chá. Para a pequena Alma, que corre e dança no espaço, parece o paraíso. Ela insiste para mostrar à reportagem de Opera Mundi, página por página, os cadernos da escola municipal onde passa as manhãs. “Aqui, desenhamos a família, aqui aprendemos as letras do alfabeto”, enumera a menina, com cinco anos e meio. Adora posar para fotos e, quando o faz, já adota as posturas das meninas brasileiras, ondulando o corpo e inclinando o rosto. Feliz, ela entoa cantigas brasileiras, como “atirei um pau no gato”, trocando apenas algumas palavras. Em seguida, Zubeida pede para ela cantar em árabe. “A gente vai ter que ensinar o idioma para ela em casa, senão, vai perder tudo”, explica a mãe.

Outro elemento da cultura que Alma não pode perder é a música. Para isso, a família conta com a ajuda de outros refugiados, tal como Salam Sayed, que mora no oitavo andar, junto com outros solteiros. “Os palestinos e os sírios moram juntos, sem separação nos andares deles, enquanto nós brasileiros erguemos paredes de madeira, para ter mais privacidade”, afirma Silmara, enquanto bate na porta do palestino. “Boa tarde, Salim, podemos entrar?”. “Meu nome é Salam”, responde um grande homem magro, abrindo um largo sorriso.

Silmara pede desculpas. Crescida em Rondônia, ela nunca teria imaginado esta convivência diária com pessoas falando apenas árabe, com nomes “diferentes”. “Confesso que, quando comecei a coordenar a ocupação, achei várias vezes que não ia conseguir, a gente mal se comunicava”, acrescenta a militante. No dia a dia, ela conta com a ajuda de Hassan, um brasileiro de pais palestinos, que faz a tradução entre as duas comunidades. Duas vezes por semana, uma voluntária francesa, Cecília, vem dar aulas de português aos refugiados.

Salam conhece apenas 50 palavras em português, mas já conseguiu montar uma pequena empresa na ocupação. Ele comprou um forno profissional e um fogão, ambos usados, e prepara doces típicos que dois sobrinhos dele, também refugiados, vendem na rua. “Daqui a quatro dias, vou receber caixinhas de papelão que encomendei, vai ficar muito bonitinho”, garante. O palestino já encontrou o nome da marca: “as comidas da paz”. Em árabe, Salam significa “paz”.


Salam toca alaúde, improvisa músicas brasileiras e anima as confraternizações da ocupação

Feliz de construir uma nova vida, Salam não esquece o que deixou para trás. “Em Damasco, eu tinha um restaurante, uma empresa de fabricação de objetos de decoração, fazia parte da união nacional dos artistas”, conta, exibindo um pequeno cartão. “Eu faço escultura, desenho, toco música”, continua, pegando um alaúde, o único objeto que conseguiu levar de Damasco para Beirute, e, depois, para São Paulo. Silmara não esconde a admiração. “Ele toca maravilhosamente, a gente fez um sarau no sábado passado, ele se apresentou e improvisou uma melodia brasileira com este instrumento”, conta.

Como a maioria dos sem-tetos brasileiros, Silmara estudou poucos anos na escola e nunca teve acesso a uma educação artística. Ela fica muito impressionada pelo nível de cultura dos novos chegados, e pelo fato que perderam tudo, de um dia para outro: casa, emprego e até parentes. “Tem o caso de uma família que nós trouxemos para aqui, um pai com dois filhos e quatro meninas; não deixaram a mãe embarcar, você imagina o sofrimento dela? Ver os seis filhos partirem em direção de um país totalmente desconhecido, e ficar atrás? Eu abracei a causa dos refugiados depois que conheci este pai”, conta a brasileira, emocionada. No começo de setembro, a mãe finalmente chegou a São Paulo, após três meses de separação.

Para Silmara, a experiência ajuda muito os sem-tetos a relativizarem as dificuldades. “Nos reclamamos das dificuldades do dia a dia, por morar em ocupação, por ter que dividir um espaço pequeno, mas isso é nada perto da luta deles para chegar até o Brasil”, diz. Ela pede para Salam improvisar mais uma vez uma música brasileira. Mas esta noite, o refugiado prefere lembrar uma melopéia [canto ritmado que acompanha uma declamação] da sua região de origem. Um tanto melancólico, ele começa a tocar, em nome de todos os que não conseguiram ainda, como ele, uma terra segura para viver.

ACOLHIMENTO

[texto original]

Perante a inacção das autoridades, as pessoas organizam-se através das redes sociais, como o Facebook e o Twitter, e criam documentos do Google onde vão fazendo o levantamento das necessidades das famílias, que incluem bebés, crianças e doentes e se encontram nos centros de acolhimento provisórios espalhados pelo país.

Estas estruturas não têm, em muitos casos, as condições mínimas para os receber e a distribuição de bens essenciais como água, comida e roupa é uma das principais preocupações daqueles que acabam por substituir o Estado alemão no que respeita ao apoio aos milhares de refugiados que continuam a chegar ao país.

De facto, os inúmeros voluntários ouvidos pelo eldiario.es defendem que o Estado “está a intervir de forma insuficiente”.

A par da distribuição de bem essenciais, projetos na internet para acolhimento de refugiados em casas particulares, como o “Refugiados bem vindos”,  estão a ter uma adesão massiva.

Também os médicos se têm auto organizado para assegurar a assistência aos refugiados.

Em declarações ao diário Hamburger Blatt, o presidente da Ordem dos Médicos da Alemanha, Ulrich Montgomery, advertiu que nas instalações de emergência reina o caos e que o serviço público de saúde não conta com os recursos necessários para momentos de crise como este.

Sublinhando que a carência de assistência aos refugiados não só representa riscos para a saúde dos mesmos como para a saúde pública, Montgomery destacou que “é inaceitável que num país rico como a Alemanha seja necessário esperar três meses por uma revisão médica para aclarar casos de tuberculoses, uma doença muito perigosa e de alto contágio”.

As mensagens de solidariedade repetem-se por todo o país, inclusive nos estádios de futebol.

No passado fim-de-semana, o Borussia Dortmund levou 220 refugiados ao estádio para que eles assistissem ao jogo contra o Odds Ballklubb.

HOSPITALIDADE II: WELCOME REFUGEES

[texto original]

Un hombre sirio inmortaliza el momento desde el autobús. Graba la agitación de las flores amarillas, el balanceo de los carteles en los que se puede leer “bienvenidos” en diversos idiomas. Se escuchan gritos y aplausos. Decenas de personas se congregan para acoger a los que huyen de la guerra. Ellos lo agradecen y así lo hacen saber. Al fin, están a salvo. Este vídeo choca con la imagen de los ataques de grupos neonazis a varios centros de acogida en distintos puntos del territorio germano. Menos visible pero muy presente, el movimiento a favor de los refugiados se extiende por todo el país.

Es la otra cara de Alemania que se encuentran refugiados como la familia de Sinpan y Rawed. Después de todo lo que han pasado, todavía sonríen. Han conseguido su objetivo. Ya solo les falta cruzar la barrera elevada por el personal de seguridad. Van saliendo a la de uno, dos, tres, cuatro, cinco… stop. Los siguientes de la fila son los hermanos y primos de ambos. Una familia entera kurda que ha dejado atrás todo lo que tenían para huir del horror de la guerra en Siria. Su ciudad, Hasaka, se había convertido en un lugar demasiado peligroso, así que la familia vendió sus pertenencias y se puso en camino hacia Alemania, donde los dos primos llevan ya casi un año viviendo. “Cuando llegaron dijeron: ¿y esto es Alemania?”, se ríe Rawed.

La familia de Sipan y Rawed Mohammed, bebé incluido, vino a Alemania en escondida en un camión.

La familia de Sipan y Rawed Mohammed, bebé incluido, vino a Alemania en escondida en un camión.

El viaje fue horrible, cuentan. Las mafias les cobraron unos 8.000 euros por cabeza y les trajeron escondidos en un camión. Un transporte similar al que estos días ocupaba las portadas de los diarios con decenas de refugiados que habían fallecido en su interior asfixiados. Un viaje peligroso a merced de las mafias ante la inexistencia de rutas legales para ejercer su legítimo derecho al asilo. Llegaron el día anterior y han tenido suerte de que esta misma noche la podrán pasar en un albergue de emergencia. Después de todo el día esperando, por fin pueden abandonar el jardín de la oficina de asuntos sociales.

A este lugar, situado en el barrio berlinés de Moabit, vienen cada día alrededor de medio millar de refugiados a inscribirse como tales para comenzar el largo proceso de la solicitud de asilo ante la burocracia alemana. Desde aquí son enviados a albergues provisionales distribuidos por todo el país. Durante todo agosto se han visto escenas delante de esta oficina más propias de países no industrializados y empobrecidos: familias enteras, niños, bebés, personas mayores y enfermos durmiendo al raso. Sin comida ni agua siquiera.

Tiendas de campaña instaladas delante de la oficina de asuntos sociales para los refugiados / FOTO: Sebaso

Tiendas de campaña instaladas delante de la oficina de asuntos sociales para los refugiados / FOTO: Sebaso

Sin agua en pleno agosto. Familias enteras haciendo cola toda la noche y todo el día, durmiendo incluso en la cola. Pero alguien puso el grito en el cielo en Twitter y de la noche a la mañana se organizó el reparto de agua que tanto necesitaban los refugiados. Voluntarios cocinaban para ellos lo que ciudadanos de Berlín traían para donar de forma altruista. Durante unas dos semanas la organización Moabit hilft (Moabit ayuda) fue prácticamente la organización que coordinó el trabajo de los cientos de voluntarios que han pasado para regalar tiempo y fuerzas a los recién llegados.

Único grifo instalado en el campamento improvisado en el jardín de la oficina de asuntos sociales / FOTO: Sebaso

Único grifo instalado en el campamento improvisado en el jardín de la oficina de asuntos sociales / FOTO: Sebaso

A raíz de la presión de dichas organizaciones, la oficina de asuntos sociales instaló un grifo para que los refugiados puedan beber pero que en realidad, está sirviendo también para asearse. Además reparten vasos y botellas de agua. La comida sigue llegando de los voluntarios aunque ahora han prometido que a partir de esta semana será una empresa quien se encargue de prepararla con cargo al erario público.

Solidaridad autoorganizada en la capital de la burocracia

Todo el mundo sabe que la burocracia alemana es una de las más complejas del planeta. Para todo hay formularios, cada ámbito de la vida está legislado de manera minuciosa. Y sin embargo, estos días, Berlín parece haberse olvidado de los protocolos tradicionales más básicos. Las personas se organizan a través de Facebook, Twitter, crean documentos de Google compartidos en los que van escribiendo las necesidades de cada lugar.

De esa forma es como Leticia y Jacob, de Valencia y Alicante, pero residentes en Berlin, se enteraron de lo que estaba pasando y decidieron presentarse voluntarios. Unas veces reparten agua y comida. Ropa, mantas. Hacen de payasos para los críos. Ante la inacción de las autoridades, los berlineses se han puesto a ayudar a destajo.

Voluntarios reparten la única comida de la noche para algunos refugiados financiada con donaciones. / FOTO: C. Negrete

Voluntarios reparten la única comida de la noche para algunos refugiados financiada con donaciones. / FOTO: C. Negrete

Sin embargo, la carencia de asistencia a los refugiados conlleva no pocos riesgos para su salud y para la salud pública. El presidente del colegio de médicos alemán, Ulrich Montgomery, ha advertido en declaraciones al diario Hamburger Blatt que en las instalaciones de emergencia reina la confusión, que el servicio público de salud no cuenta con los recursos sanitarios suficientes para momentos de crisis como este y que cada refugiado debería ser examinado por un médico dentro de los primeros tres días que esté en Alemania. “Es inaceptable que un país rico como Alemania esperemos tres meses para una revisión médica para aclarar casos de tuberculosis, una enfermedad muy peligrosa y de alto contagio”.

Así que los médicos se han autoorganizado también. Su colegio envió una misiva a la que han respondido mas de un centenar de facultativos que, de forma voluntaria, se van turnando para atender a los refugiados. Ya han conseguido que al menos un médico sea remunerado para casos de emergencia. “Algo completamente absurdo”, asegura el personal médico. A partir del lunes, sin embargo, después de varias reuniones con el Ayuntamiento y el Estado, han prometido crear un punto de atención sanitaria para que los médicos puedan atender de forma adecuada las emergencias, recibiendo para ello alguna de las salas que Cáritas tiene en el edificio.

Otras personas se han acercado también a mostrar su solidaridad, como Imsa Höppner, que se acercó un día a llevar agua y quedó tan impresionada que mandó a sus amigos y conocidos una petición por Facebook para que donasen a los refugiados. Fue así como comenzó una aventura a raíz de la cual ella y las personas que se han ido sumando han repartido ya unos 300 paquetes de bienvenida: una manta, artículos de aseo y frutos secos. Entretanto, Imsa siente que el proyecto se ha vuelto algo demasiado grande que no le deja tiempo para respirar, por lo que también ella opina que todo esto que están haciendo es una tarea del Estado.

Por todo Berlín los grupos de apoyo a los refugiados recogen todo tipo de material que puedan necesitar, desde artículos de necesidad básica e higiene hasta otros más singulares como laca de uñas o tinte para el pelo.  Los mensajes de solidaridad se repiten a lo largo del país. Hasta los estadios de fútbol han dado la bienvenida a los refugiados a través de pancartas desplegadas en las gradas. Los clubes invitan a grupos de jóvenes sirios a los partidos y los hinchas reivindican ayuda para ellos.

El periódico sensacionalista Bild se ha unido a las muestras de apoyo y a las exigencias de dar respuesta a la crisis humanitaria que ha llegado al interior de Alemania. Su portada del 29 de agosto fue un llamamiento en favor de los refugiados.

Objetivo: ningún refugiado al raso

Una de las acciones más llamativas de solidaridad con los refugiados está siendo la acogida de los mismos en casas particulares. Hay proyectos como la web Refugiados bienvenidos en los que las familias o pisos compartidos interesados pueden inscribirse. La organización les pone en contacto entonces a los refugiados, con tanto éxito que se encuentran colapsados por peticiones. Incluso un diputado del partido de Merkel, la Unión Cristianodemócrata (CDU), ha recogido a dos refugiados de Eritrea en su casa.

Pero para un periodo mas corto de tiempo tampoco faltan voluntarios. Bern Pickert, que trabaja en la sección de internacional del diario Tageszeitung ha acogido en su casa a cinco refugiados para que no pasen el fin de semana al raso. “No será la ultima noche que haga esto”, asegura. El lunes se levantarán muy temprano para estar en la cola antes de que abran las puertas. “Se ha formado una red de personas que se divide el trabajo. Por ejemplo, yo los acogí pero los trajo otra persona que presta servicios de transporte voluntario”. Pickert cree, al igual que la totalidad de los voluntarios con los que ha podido hablar eldiario.es, que el Estado “está interviniendo de una forma insuficiente a la situación que estamos viviendo”. Además asegura que éste es el momento en que Alemania realmente “debe demostrar qué clase de sociedad y de país quiere ser”.

El periodista Bern Pickert con tres de los refugiados que ha acogido en su casa este fin de semana para que no tuvieran que dormir en la calle. / FOTO: C. Negrete

El periodista Bern Pickert con tres de los refugiados que ha acogido en su casa este fin de semana para que no tuvieran que dormir en la calle. / FOTO: C. Negrete

Moteah viene de Siria, Mohamed de Iraq, Nourdin de Egipto, Zied y Anis de Túnez. Tienen un largo viaje a sus espaldas y han aprovechado la oportunidad sin reparos: “Ayer durmieron hasta el mediodía, estaban muy cansados”. La cena de bienvenida es una barbacoa “halal”, es decir, sin carne de cerdo, en el jardín. Tienen suerte y lo saben, por eso a pesar de sus traumas y de las dificultades vividas, además de que no hablan alemán ni Pickert habla árabe, sonríen y tratan de ser amables.

REFUGIADOS GLOBAIS

[texto original]

“Temos uma esquerda que merece um gancho de direita (On a une gauche qui mérite des droites)”. A pichação aparece em letras grandes na quadra da antiga escola Jean-Quarré, no norte de Paris, atualmente transformada em alojamento. A frase é uma alfinetada na política de imigração do governo François Hollande, do Partido Socialista, que, além de rejeitar 77% dos pedidos de asilo, não consegue encontrar uma solução para acolher, ainda que provisoriamente, os refugiados que chegam ao país. A saída é ocupar sem autorização locais vazios, como é o caso da escola.

Fotos: Amanda Lourenço/Opera Mundi

Escola Jean-Quarré, no norte de Paris, foi transformada em alojamento em meio à crise com refugiados

A Europa vem registrando neste ano de 2015 números recordes de entrada de imigrantes originários de países como Afeganistão, Sudão, Eritreia ou Síria. Fala-se na maior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo a agência Frontex, apenas no mês de julho, cerca de 107 mil refugiados entraram na Europa, três vezes mais do que o mesmo período no ano passado.

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Enquanto as decisões políticas sobre imigração se arrastam em encontros infrutíferos entre líderes de Estados, os números de refugiados nas cidades europeias vão aumentando, sem que haja uma política de acolhimento eficaz. Apesar de a França não ser o destino final da maioria dos migrantes, que prefere tentar a sorte na Alemanha, na Inglaterra ou mesmo na Suécia, ela é um ponto de trânsito importante e precisa amparar um grande número de pessoas de passagem.


Domitório na escola onde ficam os refugiados; local abriga 250 pessoas

Sem opção, os refugiados acabam se aglomerando debaixo de pontes e dormindo em barracas doadas por associações, formando enormes acampamentos, como o de Austerlitz, que abriga atualmente cerca de 300 pessoas. No início de junho, outro acampamento de aproximadamente 400 pessoas no boulevard de la Chapelle, norte da capital, foi evacuado. Desde então, operações similares recolheram 1.300 refugiados em centros de alojamento de urgência, onde podem ficar até um mês.

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Cozinha do alojamento em Paris é mantida com doações de voluntários, que levam comida

A escola desativada Jean-Quarré foi ocupada principalmente por parte destes imigrantes evacuados e hoje acolhe mais de 250 pessoas. Brian, originário do Sudão, dorme há dez dias na escola. “Da última vez, passei duas semanas viajando para chegar aqui. Passei por vários países, mas quero ficar na França mesmo. Amanhã vou iniciar meu processo de demanda de asilo”, disse.

Nadia Kyungu e os quatro filhos: família congolesa aguarda por solução permanente de moradia

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Ocupação formalizadaA princípio ilegal, a ocupação da escola Jean-Quarré foi formalizada pela prefeitura, que pretende fazer algumas reformas e transformar o lugar em mais um centro de alojamento de urgência. Até o momento, porém, a organização é feita pelos próprios moradores, que se revezam na limpeza e na cozinha, sem qualquer intervenção do Estado, contando apenas com a ajuda de alguns voluntários que levam comida e roupas. “Às vezes esse esquema funciona super bem e fica todo mundo satisfeito. Mas, às vezes, quando fica gente sem comer, por exemplo, a gente pensa que seria bom ter alguém organizando melhor as coisas”, opina Marguerite Dauvois, voluntária.

Dauvois, assim como a maior parte dos voluntários, não faz parte de nenhuma associação, são apenas vizinhos e pessoas preocupadas com a situação dos refugiados. “Eu vi quando a polícia evacuou o acampamento de la Chapelle e fiquei horrorizada com a violência. Deu vontade de lembrar aos policiais que essas pessoas estão pedindo asilo, que elas precisam de ajuda e não podem ser tratadas daquela forma. Desde então passei a acompanhar os refugiados de perto”, conta.

Não há muitas mulheres presentes, pois elas são prioritárias na busca de um melhor alojamento e o governo francês acaba encontrando uma solução em poucos dias. É o que espera Nadia Kyungu e seus quatro filhos menores de seis anos. A família passou uma noite na escola e agora aguarda por uma solução permanente. Originária da República Democrática do Congo, ela conta que teve que ir embora de seu país por razões políticas. “Faço parte do partido de oposição e o governo nos acusa de desestabilizar a ordem. Como estávamos sendo perseguidos, o partido organizou nossa saída, mas eu nem sabia muito bem para onde estava indo. Meu marido ficou, mas teve que deixar a capital e ir para o campo”, diz.


Marguerite Dauvois, voluntária: “Essas pessoas estão pedindo asilo, elas precisam de ajuda”

Para as pessoas que, como Kyungu, pretendem ficar na França, os voluntários oferecem curso de francês. Quase nenhum refugiado fala a língua local e a maior parte domina o inglês, mas a língua oficial entre eles é o árabe, que também é usado em quadros de aviso e planilhas de limpeza. Há diversas turmas de francês, geralmente no fim do dia depois do trabalho dos voluntários. Uma das professoras conta que está há dois meses com os mesmos alunos: “Agora já consigo falar apenas francês em sala de aula, é um excelente progresso”.

É praticamente impossível saber o número exato de refugiados na França, até porque muitos estão apenas de passagem para outros países. Mas é certo que este número vem aumentando e outros alojamentos precisarão ser abertos em breve. A prefeitura está estudando locais desocupados na cidade que poderão servir de abrigos de emergência e comitês diretivos fazem relatórios semanais sobre a situação dos refugiados.


Refugiados que pretendem ficar na França têm aulas do idioma local na escola desativada

SOBRE BELO MONTE

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Lançado nesta segunda (30/6) pelo ISA, o “Dossiê Belo Monte – Não há condições para a Licença de Operação” traz como um de seus principais alertas os problemas que envolvem a remoção dos moradores das ilhas e margens do Rio Xingu que serão alagadas permanentemente com a formação do reservatório da hidrelétrica de Belo Monte, em construção em Altamira (PA).

Em junho, o Ministério Público Federal (MPF) inspecionou a remoção e verificou dezenas de irregularidades. Após receber denúncia do MPF, a Secretaria Geral da Presidência pediu a paralisação imediata da “balsa da demolição”, que há meses percorre o Xingu retirando ribeirinhos e pescadores que estão nas áreas a serem alagadas, até que a Norte Energia, empresa responsável pela obra, assegure às populações removidas condições de manter seu modo de vida, que depende de moradia próxima ao rio (confira abaixo o vídeo da inspeção).

Reassentamento urbano: da promessa à realidade

O reassentamento da população das áreas rural e urbana da região, obrigada a sair rápida e compulsoriamente de suas casas – seja em razão do início da construção das estruturas da usina, seja devido ao futuro enchimento do reservatório – tem sido um processo traumático e desordenado para as mais de oito mil famílias consideradas afetadas pelo empreendimento, segundo o dossiê.

Sem transporte público e acesso com ruas de barro e esburacadas famílias se arriscam para chegar aos novos bairros

O programa de relocação urbana tem sido desorganizado, inadequado e pouco transparente, analisa o documento. Há mais de um ano, praticamente três mil famílias já residem nos novos loteamentos – os Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) – sem serviços públicos adequados, incluindo transporte, saúde e educação. Outras tantas famílias, por sua vez, esperam a relocação, em um processo aparentemente subdimensionado pelo empreendedor, que inicialmente cadastrou 5.141 ocupações consideradas atingidas, mas contratou a construção de apenas 4.100 casas. Note-se, ainda, que há famílias que denunciam sequer terem sido cadastradas.

As famílias atingidas que aceitaram indenizações monetárias – em boa medida, por indução e falta de esclarecimento acerca das opções a que teriam direito durante as negociações – receberam valores insuficientes para a aquisição de outros imóveis urbanos, dada a vertiginosa especulação imobiliária provocada pela usina.

Somam-se a isso as negociações desiguais entre atingidos e empresa, que aconteceram sem a mínima assistência jurídica de instituições públicas. Inexplicavelmente, a Defensoria Pública Estadual fechou suas portas em Altamira no segundo semestre de 2014, no pico da obra. Na esteira de uma audiência pública sobre reassentamento urbano convocada pelo MPF, realizada em novembro de 2014, a Defensoria Pública da União (DPU) mobilizou um grupo itinerante de defensores para atuar na cidade, buscando reparar, ao menos em parte, as injustiças e violações cometidas ao longo do processo. Na área rural, não foi respeitado o direito de agricultores e ribeirinhos diretamente afetados a serem reassentados em condições similares àquelas em que antes moravam.

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Os reassentamentos rurais coletivos, apesar de previstos e formalmente apresentados como uma opção para as famílias que tinham que escolher uma forma de compensação, não foram implantados. Esse processo – que ocorreu três anos atrás com os antigos habitantes das áreas de instalação das estruturas da usina – vem se repetindo, de maneira tão ou mais grave, com os ribeirinhos e moradores de ilhas do Xingu, populações tradicionais que vivem majoritariamente da pesca. Os dados demonstram que a conversão de populações ribeirinhas em populações exclusivamente urbanas ou agricultoras vem se consolidando, devido à ausência de opções que assegurem sua manutenção na beira do rio.

Segundo dados de janeiro de 2015, das 1.798 famílias que já optaram por uma das propostas de compensação, somente 28 (1,5%) escolheram a suposta alternativa de reassentamento rural coletivo. Outras 1.358 famílias (75%) optaram por indenizações em dinheiro, que não permitem a compra dos caros terrenos às margens do rio. A opção de carta de crédito, ou realocação assistida, contemplou 379 famílias (21%) – ela implica a busca de um terreno ou lote pelo próprio atingido, para posterior compra da área pela Norte Energia, o que é impraticável para populações majoritariamente analfabetas, em um contexto de pouco acesso à informação e caos fundiário. Outras 33 famílias (1,8%) optaram por reassentamento individual, em áreas também sem acesso ao rio.

A pressão de grupos de atingidos levou a Norte Energia a aceitar a construção de ao menos um bairro urbano na beira do rio. O Reassentamento Pedral, como é conhecido, pretende atender as populações indígenas que vivem na cidade de Altamira e parte dos pescadores, que se negaram a ser realocados nos bairros periféricos de Altamira.

Ainda que as obras do reassentamento coletivo do Pedral não tenham se iniciado, e que ele não contemple todas as populações ribeirinhas e extrativistas, deve-se reconhecer que se trata de uma conquista da luta dos atingidos pela adequação das medidas de compensação a suas realidades socioeconômicas e culturais.

Vozes do Xingu – Uma coletânea de artigos para o “Dossiê Belo Monte”O ISA convidou pesquisadores, agentes públicos e representantes de movimentos sociais que atuam na região para escrever seus testemunhos pessoais e técnicos sobre as consequências da ausência ou da ineficácia das ações de mitigação socioambiental executadas pela empresa e pelo poder público, e sobre a real dimensão dos impactos sofridos pelas populações das cidades, do campo e dos rios que vivem nas áreas afetadas pela obra.

As informações trazidas no Dossiê Belo Monte e sua coletânea de artigos demonstram que pouco mudou, ao longo das últimas décadas, no processo de remoção das populações afetadas por grandes obras de infraestrutura na Amazônia. Resta ao governo, especialmente no nível federal, tomar as rédeas do processo, de modo que a Licença de Operação simplesmente não seja concedida enquanto as famílias que ainda residem à beira do Xingu, nas ilhas e nos igarapés, seja dignamente executado. Além disso, precisam ser corrigidas as injustiças cometidas com as famílias obrigadas a sair, em condições precárias e injustas, de suas casas e áreas produtivas, sob pena de se extinguir o modo de vida ribeirinho de toda a área afetada pelo reservatório de Belo Monte.

Os artigos trazem relatos como o do defensor público federal Francisco Nóbrega, que desembarcou na cidade de Altamira com o desafio de representar a única opção gratuita de defesa dos direitos dos atingidos por Belo Monte. Mesmo trabalhando em condições precárias, em um prédio emprestado e sem acesso à internet, a equipe de que ele faz parte, composta por seis defensores, atendeu mais de 400 famílias, somente nas duas primeiras semanas de trabalho. No texto, Nóbrega descreve com propriedade a sequência de erros e condutas perversas do empreendedor em face das populações que foram retiradas dos seus lares para dar lugar à UHE.

A coletânea reúne 24 artigos, sete deles abordam o tema Remoção Forçada (leia aqui a coletânea de artigos “Vozes do Xingu”, no final do arquivo).