POSSIBILIDADES DE BAIXO

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A foto mostra uma mulher sendo arrastada por policiais, durante a ocupação de um banco em protesto contra os despejos pelo não-pagamento das prestações da casa própria. A mulher se chama Ada Colau Ballano, porta-voz da Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH), e o fato ocorreu há menos de dois anos. Agora, ela é a prefeita da maior cidade da Catalunha. Em 24 de maio (24M), a plataforma Barcelona en Comù ficou em primeiro lugar na eleição ao Ayuntamiento (Prefeitura) de Barcelona. No primeiro dia de trabalho no novo cargo, Ada se contrapôs ao despejo programado de 15 famílias. Poucos dias depois, a prefeita se misturaria aos manifestantes num protesto pela extinção dos Centros de Internamiento de Extranjeros (CIE), mini-Guantánamos em que ficam detidos os imigrantes sem documentos [1].

Já Manuela Carmena, juíza aposentada de 71 anos, se tornou prefeita de Madrid. Praticamente uma desconhecida no meio político até 30 de março, quando foi escolhida “cabeça de chapa” da plataforma Ahora Madrid, deflagrando uma campanha contagiante que arrastou 31% dos votos computados na capital da Espanha. Manuela teve uma quase-vitória, ficando em segundo lugar, logo atrás de Esperanza Aguirre, do Partido Popular (PP). A subsequente aliança com o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que havia ficado em terceiro, propiciou a maioria absoluta entre os parlamentares e a consequente investidura de Manuela como prefeita, em 13 de junho. Logo depois de assumir, Manuela anunciou como prioridade impedir novos despejos e prover espaços de moradia social como solução provisória [2].

Forças similares à Barcelona en Comù e Ahora Madrid conseguiram empossar prefeitos também noutras cidades, tais como Zaragoza (Pedro Santisteve, de Zaragoza en Común), La Coruña (Xulio Ferreiro, de Marea Atlántica) e Cádiz (José María González, de Por Cádiz Sí Se Puede).

Ada, Manuela e os demais prefeitos e vereadores das chamadas “plataformas cidadãs” são mandatários eleitos como expressão do movimento dos Indignados. Num cenário de crise econômica, corrupção sistêmica, desocupação e corte de direitos sociais, a partir de 15 de maio de 2011 (15M) os Indignados espanhóis ocuparam praças, ruas e redes. A praça Puerta del Sol, em Madrid, e a Plaza Catalunya, em Barcelona, sediaram as duas maiores acampadas do 15M, em acampamentos ao ar livre que chegaram a dezenas de milhares de pessoas se organizando, dias e noites a fio, por meio de assembleias, grupos de trabalho e redes sociais.

A partir dessa experiência intensiva de envolvimento democrático, foram criadas e/ou fortalecidas associações de bairro, plataformas (sobretudo, a Democracia Real Ya! – DRY), cooperativas, tertúlias e novos coletivos ativistas. Intensificou-se o envolvimento dos cidadãos em geral com a política. Com o 15M, o alastramento do grito No nos representan aguçou a sensação de descrédito de um sistema político que está polarizado há décadas por PP e PSOE e submetido, como um todo, aos ditames de austeridade impostos pelo sistema financeiro internacional representado pela Troika. Esse sistema basicamente bipartidário com fundo monárquico é chamado de Régimen de 1978 – ano da Constituição que marca a transição da ditadura franquista à democracia representativa.

Em 2015, os eleitores resolveram protestar também no voto, arrancando parte da confiança depositada em PP e PSOE. Os dois principais partidos caíram juntos de 64% para 51% do total de votos. Ainda distante de substituir por inteiro o bipartidarismo, o 24M aponta uma tendência de esboroamento, na medida em que candidaturas organizadas somente nos últimos meses, e com bem menos financiamentos, tiveram uma aceitação tão expressiva.

A palavra espanhola “ilusión” talvez seja a melhor para explicar o sucesso de Barcelona en Comù ou Ahora Madrid. A conjuntura em que elas intervieram não era apenas de desencanto geral ante a classe política, como também de impasse entre os movimentos ligados ao 15M. O entusiasmo, a esperança e as imagens produzidas nas campanhas – seja com o run run de Ada Colau [3], seja com a Manuela Manía [4], – encontraram o fundamento real da indignação disseminada e da ecologia de movimentos do 15M. Com essa combinação, pequenos grupos de ativistas puderam disparar um efeito de propagação que trespassou diferentes âmbitos sociais e se transversalizou pelos territórios.

Por isso, tais plataformas são mais bem descritas como uma expressão da virada subjetiva marcada pelo 15M, – e não como a sua culminação institucional, como se fosse o momento em que o 15M tivesse se “elevado” à esfera representativa. A capacidade de intervir na correlação de forças continua associada, diretamente, ao suporte ativo que elas terão da rede de contrapoderes sociais [5]: como a PAH, as Mareas, o ativismo digital. O fato de as plataformas cidadãs terem recebido um voto de confiança para exercer o poder municipal não significa que o real poder de mudança tenha deixado de consistir na potência multitudinária que as investiu em primeiro lugar.

Daí que a investidura de Ada Colau, Manuela Carmena e demais prefeitos das plataformas cidadãs constituam hoje um terreno de experimentação para o ciclo global de lutas em que o 15M se inscreve, – junto com as revoluções árabes, as lutas anti-austerity na Europa, o Occupy e os protestos massivos na Turquia, Brasil, Ucrânia e Hong Kong, entre outros. Está em jogo, daqui por diante, a tão debatida questão da capacidade de criar novas instituições, ou subverter as existentes, a partir da positividade de emergências e agenciamentos que esse ciclo exprime.

Sobre esse tema, a grande maioria das análises oscila entre duas apreensões, contrárias e todavia complementares. Para uma, as revoltas, primaveras e levantes deste ciclo global são desprovidos de qualquer proposta real de organização política: a ausência de um partido ou estrutura clara e efetiva de exercício de poder levou à dispersão e neutralização prematuras dos novíssimos movimentos, estagnados numa situação anárquica, confusa e eventualmente autofágica. Para a segunda, ao contrário, uma minoria dentre os grupos envolvidos nessas lutas conseguiu ultrapassar a etapa de desorganização para chegar à disputa institucional, mas é aí que ela trai o sentido originário das mobilizações de onde veio: a “falta” originária, presente nas primeiras análises, então, se converte no “excesso” nas últimas, pois esses grupos se perverteriam em projetos de poder oportunistas, fadados a repetir o mais do mesmo e ser rapidamente recuperados pelos sistemas políticos que combatiam antes de qualquer coisa.

Ambas as apreensões se complementam porque, uma pela falta, a outra pelo excesso, terminam por convergir no diagnóstico de um fracasso inevitável. Mas a análise do fracasso é também o fracasso da análise: ambas as perspectivas negam a possibilidade que essas mobilizações desencadeiem, em meio ao poder destituinte por elas exercido, um projeto positivo de organização de novo tipo – ainda que precário, inacabado, e por isso mesmo abertamente constituinte.

Outra tensão constitutiva consiste na relação que as novas plataformas cidadãs estabelecem com o Podemos. Se, por um lado, seria participar da campanha de desinformação reduzir tais plataformas à “marca branca” de Podemos, defini-las conforme uma relação de oposição seria, de outra parte, apressadamente dicotômico. Não é que Barcelona en Comù ou Ahora Madrid sejam mais horizontais e ativistas, mais próximas portanto do 15M; enquanto o Podemos estaria preso a uma concepção verticalizante e populista, daí traidor do movimento dos Indignados.

O Podemos foi o primeiro partido a quebrar o tabu que, sim, não só é preciso concorrer nas eleições para abrir outro front de atrito com o regime, como também é possível vencer. Essa súbita percepção estimulada pelo partido de Pablo Iglesias, especialmente a partir das eleições espanholas ao Parlamento Europeu, em maio de 2014, foi uma das alavancas para a formação das plataformas cidadãs. Estas, aliás, contaram em suas coalizões com o apoio das estruturas do Podemos, que preferiu confluir nas candidaturas cidadãs a concorrer em nome próprio nas eleições municipais. Embora Manuela Carmena, a certa altura da campanha, tenha afirmado que “Não tenho nada que ver com Podemos[6], em termos de discurso e organização, a relação é de interpenetração entre um e outro.

Por outro lado, a vitória eleitoral de Ada Colau e Manuela Carmena põe em xeque algumas assertivas que vêm sendo repetidas pelos dirigentes de Podemos. Para eles, as eleições gerais que definirão o governo de Espanha no final de 2015 são uma janela de oportunidade inédita e irrepetível para se ocupar o estado com uma alternativa de poder e isto demandaria relegar a segundo plano as lógicas horizontais, autônomas e movimentistas do 15M. Trata-se da linha majoritária do Podemos definida no congresso de Vistalegre, em outubro de 2014, sintetizada pela expressão de Pablo Iglesias do “assalto aos céus” [7]. A disputa eleitoral exigiria assim outras regras de disputa, traduzíveis em termos de tomada da hegemonia, o que por sua vez implicaria delegar à cúpula dirigente do partido plenos poderes para travar a disputa nos grandes meios de comunicação. Tudo para conquistar o “centro do tabuleiro”, ou seja, as “maiorias sociais”, e assim fazer desmoronar de vez o Régimen.

Em vez da trama policêntrica de decisão e comunicação, em ressonância às dinâmicas organizativas do 15M; os dirigentes do Podemos demandariam, com a finalidade de ganhar a eleição de assalto, a unificação num centro para a análise das conjunturas cambiantes, a definição das linhas táticas e estratégicas, e da subsequente comunicação com a população. Apesar disso, a estagnação do crescimento do Podemos nas pesquisas eleitorais desde o começo do ano, inclusive com tendência indicativa de queda, levou o “consenso de Vistalegre” a ser questionado por correntes internas, por enquanto minoritárias [8].

Depois das vitórias do 24M, entretanto, o consenso dirigista está em frangalhos, uma vez que as plataformas municipalistas não se basearam em projetos hegemônicos comandados por cúpulas dirigentes, mas por um efeito sinergético de toda uma ecologia de mobilizações [9]. Se o Podemos pretendia fazer convergir sobre si um consenso monolítico entre as diversas plataformas, agora talvez seja hora de inverter a aposta: é o Podemos que precisa difundir-se horizontalmente pela nuvem de contrapoderes parciais, sem pretensão hegemônica. No lugar do big plan formulado pelos dirigentes no interior de um órgão central de poder; um general intellect de nós produtivos e círculos autônomos, capazes de agir com maior flexibilidade e efeito de propagação, e conjurando continuamente a formação de transcendências.

É verdade que nem o 15M de 2011 nem o 24M de 2015 derrubaram o Régimen, mas ambos os momentos forçaram o sistema político, contra a sua vontade, a abrir-se para algo que lhe transborda, para um impulso de experimentação, um instante revolucionário. Para dizê-lo com Paul B. Preciado [10], é uma onda de levantes que começa, colocando-se imediatamente o problema de continuar a ação constituinte a partir de instituições que não são democráticas.

Notas

[1] Jordi Molina, “La primera setmana de Colau com alcaldessa, entre la revolució i el pragmatisme”, publicado no jornal online El Diário, 20 de junho de 2015.

[2] Gladys Martínez López, “Un stop desahucios desde las instituciones”, publicado no jornal online Diagonal Periódico, 16 de junho de 2015.

[3] Ivan Lagarto, “El Run Run”, vídeo do Youtube, 5 de maio de 2015.

[4] Bernardo Gutiérrez, “Diez claves sobre la innovación de la #ManuelaManía”, publicado no site Yorokobu, 22 de maio de 2015.

[5] Nesse sentido, Antonio Negri ao falar de uma combinação virtuosa entre a verticalidade de partidos como Podemos e Syriza, e a “difusão horizontal de contrapoderes sociais”, na entrevista realizada por Pablo Iglesias no programa Otra Vuelta de Tuerka, vídeo do Youtube, 31 de maio de 2015.

[6] “Manuela Carmena: ‘Yo no tengo nada que ver con Podemos’”, publicado no jornal online Libertad Digital, 4 de maio de 2015.

[7] Iglesias está citando, naturalmente, Karl Marx sobre a Comuna de Paris, 1871.

[8] Isidro López, Emmanuel Rodríguez e Pablo Carmona, “Por una reorientación de Podemos”, publicado no blogue online do Público.es, 4 de maio de 2015.

[9] Raúl Sánchez Cedillo, “En el ínterin… se nos olvidaba la plebe”, publicado no jornal online Diagonal Periódico, em 16 de junho de 2015.

[10] Paul B. Preciado em entrevista por Ludovic Lamant, “Espagne: ‘C’est une vague de soulèvements qui commence’”, à revista online MediaPart. Tradução ao português pela UniNômade.

SOBRE IMPERIO E MULTIDAO

[texto original]

Michael Hardt é um filósofo político e teórico de literatura ligado à Universidade Duke e ao Instituto Europeu de Pós-Graduação. Ele é mais conhecido por sua colaboração com Antonio Negri, com quem escreveu a trilogia que inclui Império, (2000),  Multidão (2004) e Commons (2009). Seu trabalho tem sido relacionado ao marxismo autônomo. Seu livro mais recente é Declaration, em coautoria com Toni Negri, e refere-se ao Occupy e outros movimentos sociais. Atualmente é editor da South Atlantic Quarterly [revista da Duke University].

Como mudou a sua compreensão do mundo no decorrer do tempo, e o que (ou quem) exigiu as mudanças mais significativas no seu pensamento?

Talvez o mais significativo para mim seja uma coisa que não mudou. Quando Toni Negri e eu estávamos escrevendo Império, no final dos anos 1990, nossa primeira intuição era de que os Estados Unidos logo não seriam mais capazes de controlar os negócios globais, que eles não poderiam mais “ficar sozinhos”, agir unilateralmente. Contudo, não pensamos que algum outro Estado-nação, como a China, fosse ocupar aquela posição ou mesmo que uma aliança multilateral entre Estados-nações dominantes teriam condições de controlar os negócios globais. Nossa hipótese, ao contrário, era de que uma rede de poderes estava emergindo – incluindo os Estados-nações dominantes, junto com instituições supranacionais, corporações, OnGs e outros atores não-estatais – para controlar as relações globais de maneira contingente e transformadora.

Isso pode ser visto como um desafio para a hipótese “realista” de que os Estados são os atores centrais da política internacional. Os Estados certamente continuam importantes, mas nosso questão era que se você foca apenas nas ações estatais, perde o que realmente está acontecendo.

A premissa básica não mudou. Mas a composição do Império, isto é, a composição das estruturas do poder global está constantemente em fluxo. As hierarquias e interações entre Estados, a posição de atores não-estatais, o jugo do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial – esses e outros fatores devem ser continuamente acompanhados e avaliados.

Você tem sido associado principalmente com o marxismo autônomo, e as pessoas ligadas a essa tendência adotaram recentemente o slogan do século 16, de Thomas Muntzer “omnia sunt communia”, que pode ser traduzido como “tudo deveria ser comum”. O que pensa dessa sentença e como explicaria seu sentido?

Vejo demandas relacionadas ao comum emergindo de uma ampla gama de setores, hoje. No sentido mais básico, o comum nomeia formas de riqueza que partilhamos e gerimos democraticamente. E isso o torna fundamentalmente oposto, por um lado, à propriedade privada e, por outro, à propriedade pública (ou estatal). Um campo de demandas para o comum envolve, por exemplo, formas imateriais de riqueza tais como conhecimento científico, informação, produtos culturais, código e similares. Outro campo refere-se à terra e seus ecossistemas e prevê soluções democráticas para nossas interações compartilhadas e o cuidado com o meio ambiente. Finalmente, reconheço todos os recentes movimentos sociais que envolvem acampamentos e ocupações urbanas, da Praça Tahrir ao Parque Gezi, passando pela Puerta del Sol e o Zuccotti Park, como desejando (em parte) tornar comum a própria cidade, ou seja, tornar o espaço urbano aberto a todos e sujeito a formas democráticas de gestão.

É chave para qualquer dessas discussões do comum enfatizar a necessidade de democracia nas tomadas de decisão. Em outras palavras, sistemas de acesso aberto e mecanismos de compartilhamento de riqueza não são espontâneos e precisam ser gerenciados para durar. Enquanto a propriedade privada estabelece um monopólio sobre as tomadas de decisão, o comum requer mecanismos democráticos.

Desde a publicação de Império, o significado que você e Antonio Negri imprimiram ao conceito de multidão mudou. Você poderia explicar brevemente o que quer dizer com multidão e traçar a evolução desse significado, no seu pensamento?

Por multidão entendemos um projeto plural de organização política. Isso pode ser melhor entendido como uma extensão – ou, de fato, uma pluralização – de três conceitos tradicionais: o povo, a classe e o partido. Multidão não é realmente oposto a esses três conceitos, mas, antes, designa versões plurais, internamente heterogêneas de cada um deles. Frequentemente “o povo”, por exemplo, tem sido usado para referir-se a uma população relativamente homogênea, com a exclusão de outros. O termo “povo inglês”, como usado em discursos políticos, por exemplo, tem designado implícita ou explicitamente uma população branca. De modo semelhante, o termo “classe trabalhadora” tem servido com frequência para nomear todos os trabalhadores, mas principalmente homens que trabalham na indústria.

Finalmente, o partido geralmente se refere a uma forma de organização política centralizada, unificada e hierarquizada. Multidão pretende reconciliar esses termos numa chave plural e democrática: um povo que é heterogêneo internamente e aberto àqueles que estão fora; uma classe que compreende todas as formas de trabalho, assalariado e não assalariado; e uma forma partido horizontal e democrática.

Os chamados movimentos sem líderes dos últimos anos estão certamente trilhando esse terreno, mas nenhum deles chegou ainda a criar formas de organização efetivas e duradouras. A multidão não é espontânea e o termo não foi cunhado para nomear alguma coisa que já existe. Ele antes designa as linhas de um projeto a ser construído.

Nos últimos anos temos visto uma interação crescente entre movimentos sociais e partidos políticos na Europa — por exemplo o Podemos, na Espanha. Como vê estes partidos-movimentos evoluindo nos próximos anos?

Vejo o Podemos como uma aposta ou um experimento que irá medir em que extensão projetos eleitorais podem ajudar movimentos sociais a florescer. Por um lado, é verdade que o Podemos nasceu, em muitos aspectos, do movimento 15M, ou seja, dos acampamentos realizados nas principais cidades espanholas no verão de 2011, e das muitas formas de ativismo que se seguiram, tais como as “marés” em educação e saúde. (As vitórias eleitorais do governo municipal, em 2015, do Barcelona em comum e Agora Madri são demonstrações importantes do poder desses movimentos na política eleitoral.) Por outro lado, o Podemos também tem algumas estruturas centralizadas dos partidos políticos tradicionais.

A aposta, então, é dupla. Primeiro, é simplesmente que os movimentos sociais podem levar o Podemos a uma posição de poder nas eleições nacionais. Segundo, a aposta é que um partido eleitoral como Podemos não pode representar os movimentos — mas, ao contrário, criar espaço para eles florescerem. Nenhum desses resultados está assegurado, mas a aposta certamente me parece valer os riscos.

Qual a sua opinião sobre o PKK dos curdos e a sociedade que eles criaram no norte da Síria? Um grupo que adotou a linguagem da autonomia e da democracia direta, nascido a partir um background mais tradicional de política marxista-leninista.

Como tantos outros, me senti inspirado pela defesa de Kobane em 2014-15 pelas forças curdas contra o Estado Islâmico. Mas heroísmo e façanhas militares me interessam menos que inovações políticas, tanto na Turquia como em Rojava (norte da Síria). Um dos mais significativos desenvolvimentos, a meu ver, teve lugar em nível teórico uma década atrás, quando o movimento curdo mudou seu objetivo de “liberação nacional” para “autonomia democrática”. A mudança conceitual de soberania para autonomia é extremamente importante. (A relação entre esses dois conceitos poderia ser objeto de um estudo muito interessante em teoria política.) E ainda mais importante é como a noção de autonomia democrática é articulada, na prática. As comunidades curdas têm de fato experimentado novas formas democráticas. Por exemplo, para combater desigualdade de gênero, cada posto da estrutura de governo de Rojava precisa ser ocupado por um homem e uma mulher como co-responsáveis. Esse tipo de experiência faz do movimento curdo, um dos principais pioneiros, hoje, em novas formas de democracia.

Como acadêmico, você tem sido bastante ativo politicamente. O que pensa da relação entre academia e ativismo político? Os acadêmicos teriam certa responsabilidade quanto ao engajamento político, por causa da sua posição relativamente privilegiada?

Não acho que “responsabilidade” seja o conceito correto para pensar sobre isso. E uma vez que acadêmicos em geral não são mais capazes de engajamento político que outras pessoas, então não ajudaria em nada considerá-los responsáveis.

Na verdade, penso que é importante romper com a suposição-padrão de uma divisão entre teoria e prática, pela qual intelectuais são autores de teoria e ativistas comprometidos com a prática. A meu ver, algumas das teorizações mais inovadoras, hoje, surgem coletivamente em movimentos. Acadêmicos têm muito a aprender, não só com o que os ativistas fazem, mas também com o que eles pensam e os saberes que produzem.

MUNICIPALISMO, SAO PAULO E DESCENTRALIZAÇÃO: POSSIBILIDADES

[texto original]

No mês passado, em entrevista a um programa de rádio, o prefeito Fernando Haddad anunciou que está considerando a possibilidade de implementar um processo de eleição direta para escolha dos subprefeitos da capital. Tradicionalmente, isso tem sido feito por indicação de vereadores dos partidos que compõem a base aliada do prefeito. Na atual gestão, inicialmente buscou-se indicar funcionários de carreira da Prefeitura em uma combinação complexa com chefes de gabinete indicados por vereadores. Durante o governo Kassab, coronéis da polícia militar assumiram estes cargos.

A discussão a respeito das subprefeituras – e do seu comando – na verdade faz parte de um debate lançado na cidade de São Paulo desde a elaboração de sua lei orgânica (a chamada “constituição” municipal), em 1990. Na época, a ideia de descentralizar a administração da cidade, criando subprefeituras, estava também vinculada à proposta de aumentar a relação direta dos cidadãos com a administração, através da implementação de conselhos de representantes dos moradores de cada região junto a esses órgãos descentralizados.

De lá para cá, essa ideia não saiu do papel. Em primeiro lugar, os tais conselhos de representantes – que na versão da lei orgânica seriam eleitos diretamente pela população – nunca foram plenamente implementados. Vários projetos de lei já tramitaram na Câmara Municipal com o objetivo de regulamentá-los, mas sempre esbarraram em divergências profundas entre os vereadores, que alegam que conselhos não podem fazer o que a câmara já faz.

No fundo, a maioria dos vereadores tem receio de perder poder em seus bairros com a eleição direta de representantes que não teriam necessariamente vínculos partidários. Um projeto de lei que chegou a ser aprovado em 2004 tentava “resolver” a questão, introduzindo uma cota de representantes partidários nos conselhos, mas a nova lei foi considerada inconstitucional.

Em 2013, o prefeito Fernando Haddad criou por decreto o Conselho Participativo Municipal, como um órgão transitório. Em dezembro daquele ano, pela primeira vez a população pôde eleger, de forma direta, cerca de 1.100 representantes que têm a atribuição de atuar junto às subprefeituras no planejamento e fiscalização de ações e gastos públicos. As próximas eleições ocorrerão no dia 6 de dezembro.

Mas, ao longo desse período, as subprefeituras, ao invés de ganharem autonomia, orçamento e capacidade de gestão, mostraram que são órgãos muito frágeis, com pouca ou nenhuma condição de dar respostas às demandas dos cidadãos. Elas são uma espécie de zeladoria sem recursos até mesmo para exercer essa função…

Conto essa história toda para dizer que a forma de escolha do subprefeito – e seu perfil – é apenas um pedaço da equação. A ideia de descentralizar para aumentar a eficiência da administração, e também para democratizá-la, requer que as subprefeituras tenham autonomia e capacidade de gestão, com participação direta da população local.

Hoje, um dos grandes limites para a implementação deste projeto é a lógica dos governos de coalizão, que constroem maiorias nas Câmaras Municipais através da distribuição de cargos e poderes para acomodar os interesses de cada partido, mas mantêm centralizadas as principais políticas e decisões.  Sem enfrentar essa lógica, ainda que eleições diretas sejam implementadas, as subprefeituras continuarão esvaziadas de seu verdadeiro papel.

REDE DE CIDADES: REDE DE APOIO MÚTUO

[texto original]

Carmena coincidirá con Colau y 'Kichi' en Barcelona la próxima semana para compartir "experiencias de cambio"

Los alcaldes de las nuevas candidaturas de confluencia municipal se reúnen en Barcelona para formalizar su sintonía. Bajo el lema ‘Ciudades por el bien común’, Manuela Carmena, Ada Colau o José María González ‘Kichi’ participarán en un encuentro junto a otros dirigentes municipales, como la alcaldesa de Badalona, Dolors Sabater; el alcalde de Pamplona, Joseba Asiron; el alcalde de Santiago, Martiño Noriega; el alcalde de Zaragoza, Pedro Santisteve; y el alcalde de A Coruña, Xulio Ferreiro.

De este modo, coincidirán algunos primeros ediles que tras las elecciones del pasado 24 de mayo se alzaron con las Alcaldías después de haber concurrido con candidaturas de unidad popular, como Carmena, de Ahora Madrid, Colau, de Barcelona en Comú; o Ferreiro, de Marea Atlántica.

Santisteve, por su parte, es de Zaragonza en Común; Noriega fue cabeza de lista por Compostela Aberta; ‘Kichi’, por Cadiz sí se puede y Asiron fue candidato a la Alcaldía de Pamplona por HB Bildu. El encuentro tendrá lugar el próximo viernes en la plaza del Angels, a las 19 horas. Otro de los lemas de este acto es “Ganar compartiendo experiencias de cambio”. Carmena ya participó en un acto con Colau antes de las pasadas elecciones en Madrid con Ahora en Común.

HOSPITALIDADE

[texto original]

MADRID.- La alcaldesa de Barcelona, Ada Colau, ha propuesto a la ciudad condal para que integre una “red de ciudades-refugio” para tratar de solucionar el drama de los inmigrantes. Colau recoge así la propuesta que lanzó el viernes ERC, cuando su portavoz en el Ayuntamiento de Barcelona, Alfred Bosch, propuso que la capital catalana acoja a refugiados sirios.

“Tenemos un mar que se llena de muertos. Unas fronteras que se llenan de alambres, pinchos, cuchillas… y de muertos. Y una parte de Europa llora, grita, quiere que se salven, que no mueran, pero que no vengan, que se vayan, que desaparezcan, que no existan y que no tengamos que verlos en la tele, y menos en nuestras calles, con sus mantas, en el metro, o en las escaleras de nuestras casas”, ha escrito Colau en Facebook.

La alcaldesa de Barcelona opina que “lo que necesita Europa, urgentemente, es una llamada al afecto, una llamada a la empatía. Podrían ser nuestros hijos, hermanas o madres. Podríamos ser nosotros, como también fueron exiliados muchos de nuestros abuelos”.

Las propuestas de ERC y de Colau recogen el espíritu que ya impregnó la capital catalana durante la guerra de Bosnia, hace ya 20 años. Entonces, se produjo un movimiento muy notable en favor de los refugiados bosnios. Bosch recordó el viernes que Sarajevo “se convirtió en el distrito número 11 de Barcelona”.

Precisamente hoy han sido hallados en estado crítico tres niños que viajaban a bordo de un camión en Austria junto con otros 23 refugiados. “Queremos ciudades comprometidas con los derechos humanos y con la vida, ciudades de las que sentirnos orgullosos”, finaliza Colau.

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