O GOVERNO DOS ALGORITMOS

[texto original]

Na semana passada, o Facebook mudou o algoritmo. Mudou o que define o que aparece na sua TL, o que será valorizado, ignorado, escanteado. Bem mais sorrateiro do que a censura direta, um algoritmo é uma função. Você fornece um input e ele calcula um output. Uma rede social como o Facebook opera milhares de algoritmos, cada um processando milhões de bits numa velocidade enorme. Seria impossível substituir os algoritmos por operadores humanos. Perceber os algoritmos que determinam a sua presença numa rede social é um bom começo para entender como funciona o capitalismo.

O sistema financeiro global depende de softwares de previsão, negociação, otimização de lucro, que inclusive agem diretamente nas bolsas, sem passar por humanos. Mega-redes logísticas como Amazon ou Walmart estão organizadas por algoritmos, assim como cadeias de montagem transnacionais (fração significativa da produção mundial), em que cada componente é fabricado num lugar diferente, às vezes em continentes diferentes. O serviço de inteligência de nações, como o PRISM da NSA, se baseia em algoritmos que peneiram o colossal volume de dados digitais e telefônicos, o big data. Em 2015, já existem algoritmos que geram outros algoritmos, campo de estudo da meta-heurística. A ideia é desenvolver algoritmos evolucionários, de segunda ordem, que otimizam os processos de otimização e são considerados condição para o surgimento da “inteligência artificial”. No fundo, ela já existe.

Então, o que fazer? quando estamos imersos nessa Cosmópolis financeira, logística e securitária? que nos excede em tal escala e intensidade que não podemos sequer ter uma noção do tamanho de nossa defasagem? Às vezes penso que as nossas preocupações ainda estão longe de tocar o problema. Que não é abstrato, pelo contrário, é o que define a nossa presença no mundo.

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Três livros que tratam de uma “algorítmica da resistência”:

1) “A Vast Machine” (2010), Paul N. Edwards, sobre previsão de mudanças climáticas e política ambiental;
2) “Red plenty” (2010), Francis Spufford, ficção sobre uma sociedade organizada racionalmente pelo dirigismo cibernético, realizando assim o sonho/pesadelo soviético da planificação total — inspiração, por exemplo, do governo Allende no Chile, com o projeto CYBERSYN, que misturava psicologia da Gestalt com macroeconomia keynesiana;
3) “Gli algoritmi del capitale” (2014), org. por Matteo Pasquinelli, que assume a existência de um automaton tecnossocial globalizado e só enxerga linha de fuga na constituição de máquinas do comum para a desativação, sabotagem e reprogramação das biotécnicas de controle e produção.

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NO COMPLEXO DA MARÉ, UM CELULAR POE MAIS MEDO QUE UM FUZIL

[texto original]

FELIPE LAROZZA
MAURICIO FIDALGO

Quinta-feira, 9 de abril, o sol está a pino. Descendo a passarela, um morador do Complexo da Maré pressente algo errado. Ainda falta mais 20 minutos de caminhada até a sua casa e as ruas estão completamente vazias, muito diferente do vaivém normal da favela.

Na página Maré Vive, a mensagem é clara: tiros na VJ (Vila do João). Os comentários logo vão completando a informação: os nomes das ruas onde os tiros estão ocorrendo são informados, assim como a triste notícia de outro baleado na guerra da Maré.

Maré Vive é uma das dezenas de páginas criadas, gerenciadas e mantidas por moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. Muitas vezes, essa é a única fonte de informação em tempo real.

O clima de tensão tem várias frentes. As facções que guerreiam entre si, Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro, Milicianos, Polícia Militar, e as forças do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, todos esses grupos estão presentes hoje no Complexo da Maré, uma das regiões mais instáveis da cidade.

Longe da comunidade, N., um dos criadores do Maré Vive, nos deu um papo reto de como tudo começou, e por que o fim se aproxima. A proposta inicial era acompanhar as forças de pacificação. Hoje, a página tem mais de 26 mil curtidas. Os administradores se mantêm anônimos, o que possibilitou uma crítica aberta e direta aos assuntos.

“Nossas pautas são orgânicas, têm vida, estamos aqui. Vejo uma foto legal, tiro e coloco lá. Quando um tema importante sai na TV a gente comenta”, explica.

Esse cenário de liberdade e agilidade de informação começou a se desmontar no último dia 5, quando uma página fake com o mesmo nome foi criada e passou a fazer denúncias com fotos de rostos de traficantes e a localização das bocas. O medo foi instantâneo.

Em poucos dias, os traficantes começaram a desconfiar de todo e qualquer morador, realizando abordagens e ameaças de morte.

Os criadores da página oficial começaram a receber ameaças de tortura, morte e perseguição de familiares pelas redes sociais. Quando um X-9 (delator) é pego ou vendido para os traficantes, as torturas deixam qualquer grupo terrorista do Oriente Médio no chinelo.

Parece simples diferenciar uma página de moradores de outra, com um logo influenciado pelo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, mas os desdobramentos e a confusão se intensificam em outra rede social, muito mais popular nas comunidades que possuem menos computadores e mais celulares, o WhatsApp. Lá, as imagens são compartilhadas sem a referência da página e somente com a hashtag #marevive. Até provar que focinho de porco não é tomada, cabeças podem rolar sem o menor pudor, ou qualquer receio de errar por parte do poder paralelo.

E a repressão não termina aí. Com essas fotos rolando, as blitze vêm de todos os lados. De um, os traficantes agora abordam os moradores para checar os celulares em busca do famigerado X-9. Do outro, o exército usa uma “ordem coletiva” que os permite entrar em qualquer casa, precisando apenas da suspeita por parte do comandante da operação. Até mesmo as ONGs que trabalham na comunidade pressionam a página, reclamando do anonimato.

No entanto, a Maré Vive rebate, já que é o seu único modo de defesa. “Nossa credibilidade vem da informação rápida. A galera sabe que moramos na favela. Sai um tiro aqui, agora, a gente posta. Isso gera credibilidade aqui dentro. Fora daqui é nosso discurso. Não precisamos aparecer”, frisa N., emocionado na frente de dois completos estranhos, nós.

Percebemos que a guerra também é psicológica. Sozinhos e contra todos, os administradores da página só contam com o apoio da população. “Antes da internet e do digital, quem tinha o poder da informação, de contar a história, era quem tinha o dinheiro. Agora é faroeste. Estamos na guerra da informação.”

Diante do medo pela própria vida e de seus familiares, uma coisa é certa: eles acreditam no que fazem. “Temos muito medo desde que a página foi criada. Se for para fazer uma página pela-saco, tapinha nas costas, não vamos fazer”, relata o administrador.

Os mais de dez colaboradores da página dizem não buscar fama nem acreditar na mídia convencional. Uma das principais referências e provavelmente a maior página do estilo no Rio, A Voz da Comunidade –que nasceu com a ocupação do Complexo do Alemão– deixou de ser um norte.

“A galera [da Voz da Comunidade] tem um alcance do caralho. Tira onda pagando de boyzinho, vai no Esquenta! [programa de TV da Rede Globo] e aí vira referência pra mídia comercial. Aí, em vez de o cara hackear a mídia convencional, ele é hackeado. Essa mesma mídia começa a usá-lo para legitimar o discurso dela”. N. ainda brinca sobre as respostas negativas que dão aos insistentes pedidos de entrevista vindos da Globo: “Temos até um texto padrão.”

As dúvidas sobre a página falsa ainda se mantêm. O clima no Complexo da Maré está mais quente do que nunca: os moradores são oprimidos de todos os lados e uma das poucas fontes de informação confiável também está sendo calada pelo medo.

A guerra pelo controle da Maré ganhou uma nova disputa: o controle da informação. Uma das principais defesas dos moradores eram os vídeos de celular denunciando abusos das Forças de Pacificação e da PM. Com essa página e a pressão do tráfico, as pessoas temem continuar filmando. Ninguém quer ser queimado dentro de pneus na frente dos seus familiares