FORDLANDIA

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Fordlândia – Duas pessoas jogam sinuca na varanda do Bar do Canhão e um aparelho de som toca alto uma canção de Leandro & Leonardo do início dos anos 1990. Uma menina bonita com traços indígenas assiste à disputa. “Ei, Canhão, mais uma”, um freguês grita e estica o braço esperando por uma dessas latas pequenas de cerveja, de 269ml. O calor é tanto no fim de tarde de sexta-feira no umbigo da floresta amazônica que uma lata maior esquentaria em poucos minutos. Tanto faz, naquele microcosmos do bar—na margem leste do Rio Tapajós, distante seis horas navegando em lancha de Santarém, no Centro-Oeste do Pará —, se os frequentadores estivessem em um lugarejo empoeirado do Vale do Jequitinhonha ou em uma bitaca no sertão de Goiás. Para a maioria dos moradores de Fordlândia, a vida segue indiferente à gigante sombra do passado que os cercam.

O tempo, as ruínas e o descaso com o patrimônio da história quase inacreditável parece tão trivial quanto o cheiro acre das mangas caídas perto do campo de futebol, na parte alta da vila, onde garotos jogam bola e gritam emulando nomes de jogadores dos times do distante Sudeste do país. Surreal, fantástico e outros adjetivos para hiperbolizar as sensações não dão conta de descrever o que é o empreendimento de Henry Ford – um dos pais do automóvel e criador do pilar do capitalismo: o fordismo – no Centro-Oeste do Pará, no final da década de 1920.

Ford, o homem que dá nome à empresa, construiu uma cidade com a arquitetura cape cod, típica do interior dos Estados Unidos, à margem do Tapajós. Trouxe trabalhadores dos EUA, de outros países da América e de diversas regiões do Brasil, tentou criar uma plantação de seringueiras para abastecer suas fábricas de borracha, mas fracassou. Fez um acordo com o governo brasileiro e, em 1945, foi indenizado e abandonou o local que carrega até hoje seu nome.

Setenta anos depois da saída da Ford, esse pedaço de história está completamente abandonado. Do hospital, que foi o maior da Região Norte do Brasil e o primeiro a realizar um transplante de pele no país, só restam algumas paredes, um aspecto macabro de abandono e o mato crescendo entre as brechas do concreto. As casas construídas para os trabalhadores foram modificadas, tiveram detalhes de madeira trocadas por paredes de tijolo e até uma praça, de gosto arquitetônico discutível, foi edificada, alterando a paisagem bem na entrada da vila para quem desembarca no trapiche.

As cinco casas que compunham a Vila Americana, dispostas em uma alameda de mangueiras e com hidrantes ianques vermelhos nas calçadas, abrigavam a diretoria da empresa e eram a esperança da Prefeitura de Aveiro e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para tombar a vila. Porém, quatro casas estão ocupadas por colonos. Da quinta residência só restam ruínas.

As casas estão em uma avenida que era chamada à época da Ford de Palm Avenue, mas as mangueiras frondosas denotam uma concessão da Ford às nuances da selva, como pontua o professor de história da Universidade de Nova York Greg Grandin, no livro Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva (Editora Rocco, 2009), obra mais completa sobre o empreendimento.“Olmos ou bordos teriam definhado no clima quente e úmido. Contudo, calçadas de concreto, luzes elétricas e os hidrantes vermelhos confirmam que a Ford fez aquelas concessões com relutância”, escreveu Grandin.

“O Iphan tem clareza de que apenas tombar não adianta, pois não há ninguém que possa fazer a gestão do local”, afirma a superintendente do Iphan no Pará, Maria Dorotéa Lima. Já se passaram mais de cinco anos desde que foi cogitada a possibilidade do tombamento de Fordlândia, que pertence ao município de Aveiro. Porém, após a decisão ser tomada, as casas da Vila Americana foram ocupadas.

MINHOCA Daniel Dias Pereira, de 37 anos, ocupa uma das casas. Ele nasceu em Ji-Paraná, Rondônia. “Sou filho de colono e você sabe como é. Só anda atrás de terra. Igual minhoca”, explica. Antes de chegar em Fordlândia, Daniel e a família moravam no Mato Grosso. A ideia inicial dele foi ir para Itaituba, cidade de 100 mil habitantes e referência no Centro-Oeste do Pará, também às margens do Rio Tapajós. “Fiquei 30 dias lá, mas me assustei com a terra branca. Estava acostumado com a terra vermelha”, recorda. Foi quando ouviu falar de Fordlândia. Até então, Daniel não fazia ideia da existência da cidade e muito menos da história do local. Conseguiu uma motocicleta e encarou os 100 quilômetros de estrada de terra precária para conhecer. “Andar de barco? Deus me livre”, explicou por que não fez o trajeto mais simples e corriqueiro na região.

Fordlândia foi construída pelo idealismo de Henry Ford e depois vendida ao governo brasileiro. Entre as décadas de 1950 e meados de 1980, funcionaram no local instalações do Ministério da Agricultura, com fazendas de diversas raças de gado. As casas foram habitadas por funcionários do ministério e a maioria segue com as famílias desses funcionários, já aposentados e que continuam na região. Com a desativação da operação, o local ficou abandonado. As pessoas ocupam as terras, mesmo sem ter a documentação, e com o passar dos anos tentam conquistar a posse.

O plano de Daniel quando chegou, em 2008, era conseguir um terreno, construir uma casa pequena e começar a plantar. Porém, em 2011 uma das quatro casas da Vila Americana foi ocupada por um morador da cidade, aposentado do Ministério da Agricultura e que na ocasião era presidente da comunidade, uma espécie de representante do local para pleitear os interesses junto à Prefeitura de Aveiro.

Daniel aproveitou a deixa e ocupou uma casa. O local era só mato e lar de mais de mil morcegos. “Eles ficavam triscando a orelha da gente”, recorda. Ele conta que, para tornar o local habitável, depois de desbastar o mato e se livrar dos animais ele lavou a casa três vezes com desinfetante, para eliminar o cheiro das fezes dos morcegos. Antes de a reportagem do Estado de Minas entrar na casa, Daniel pede gentilmente que fotógrafo e repórter tirem os sapatos. O chão está tão limpo que seria uma crueldade sujá-lo com o barro carregado nos calçados.

Quando o historiador Greg Grandin escreveu o livro, as casas ainda não haviam sido invadidas, e ele encontrou um cenário mais tétrico na Vila Americana: “Os edifícios emoldurados em madeira são protestantes e não muito rebuscados, com telhados de madeira fina, pisos de tábuas, banheiros de tijolos, refrigeradores elétricos e arandelas nas paredes. Decrépitas e tomadas por ervas daninhas, como se poderia esperar, as casas são hoje o lar de colônias de morcegos, que deixaram uma pátina de fezes nas paredes e nos pisos”.

“A comunidade aqui fez rastro de onça. Disse que a Polícia Federal viria atrás e sofri uma pressão muito grande. Mas agora que está tudo arrumado eles respeitam”, entende Daniel. Nos quatro anos de ocupação da casa, plantou 200 pés de maracujá e no ano passado produziu 500 quilos de polpa para suco. Na horta, plantou também açai, jiló, pimentão, alface, cebolinha, coco, banana, abacate, murici, carambola, laranja, caju, araçá, pitanga, couve e tomate. Os três filhos e a esposa ajudam a cuidar da plantação e a maior parte da produção é vendida para a escola da vila reforçar a merenda dos alunos.

Desde que ocupou a casa, Daniel restaurou o assoalho por conta própria, sem nenhuma orientação do Iphan ou de algum especialista em patrimônio histórico. No banheiro, as louças são originais, incluindo uma banheira e as torneiras. Só trocou a descarga. Também pintou a parede e ainda aproveita alguns móveis da época dos norte-americanos, como uma cômoda na sala.

“O pessoal não quer que a gente fique aqui. Eu não sei porque querem que isso se acabe. Mas enquanto eu tiver vida e ninguém me perseguir e ninguém mandar eu vou ficar aqui”

TOMBAMENTO A PASSOS DE TARTARUGAS

PREFEITURA, IPHAN E MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL NÃO SE ENTENDEM. ENQUANTO ISSO, PATRIMÔNIO É MODIFICADO PELOS COLONOS, QUE MARCAM POSIÇÃO E GARANTEM QUE NÃO VÃO ABANDONAR AS CASAS

Recitais de poesia com os versos dos românticos William Woodsworth e Henry Longfellow ocorriam em um galpão de madeira, onde também era a pista para dança dos bailes dos trabalhadores, durante o período da Ford na Amazônia. Quase um século depois, nos dias que a reportagem do Estado de Minas esteve no vilarejo, era realizado um encontro da Associação de Municípios da Transamazônica (Amut), no galpão. O prato principal do almoço oferecido pelo anfitrião, o prefeito de Aveiro, Olinaldo da Silva Barbosa (PSC), o Fuzica, foi sopa de tartaruga. A rapidez no consumo da iguaria degustada pelos governantes das cidades da região não é uma boa metáfora para o processo de tombamento do patrimônio de Fordlândia. Fuzica acredita que a ocupação das casas da Vila Americana pode prejudicar o projeto da cidade de ser considerada patrimônio. “As coisas vão acontecendo e depois que invade fica difícil de tirar”, entende.

“A gente não sabe quem é o comandante disso aqui”, reclama o prefeito, pois, segundo Fuzica, a cidade de Aveiro não tem documentos garantindo a propriedade das terras. Sem os papéis, argumenta o político, a prefeitura não pode fazer nada. Além da ocupação dos colonos, a culpa na demora do processo de tombamento é também responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que, na visão do prefeito, “não toma posição”.

Para a superintendente do Iphan no Pará, Maria Dorotéia de Lima, a prefeitura não tem corpo técnico e nem condição de fazer a gestão de Fordlândia. “Não adianta implantar museu se não tem estrutura”, afirma. Maria Dorotéia reconhece os méritos do local para o tombamento, mas não vê solução no horizonte. “Dependeria da costura de vários ministérios”, especula. O Iphan tentou firmar parcerias com a Universidade Federal do Oeste do Pará e com o Instituto Butantan, mas não teve sucesso. Sobre a questão fundiária e a falta de documentos regulamentando a posse da terra, a superintendente do Iphan no Pará afirma que está tratando do assunto com a Secretaria de Patrimônio da União (SPU), órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, mas não obteve uma resposta definitiva.

Em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) fez um alerta ao Iphan pedindo rapidez no processo de tombamento. “Não podemos obrigar o Iphan a fazer o tombamento. Fizemos uma recomendação que funciona como alerta”, detalha a procuradora do MPF em Santarém, Janaína Andrade.

Para a procuradora, o prefeito Fuzica está se omitindo de suas responsabilidades. “Ele assinou um termo de compromisso para dar segurança ao patrimônio e não fez isso. Precisamos de garantia para repassar a responsabilidade para o município de Aveiro”, afirma Janaína.

Na análise da procuradora, o prefeito tem dificuldade de entender a importância do patrimônio cultural de Fordlândia. “Ele ainda não assimilou a importância disso”, acredita. O MPF avalia, segundo a procuradora, que o Iphan demonstra preocupação, mas depende também da boa vontade do poder público municipal.

“Existe um projeto de R$ 19 milhões para restaurar todo o patrimônio de Fordlândia e até hoje nada aconteceu. Perguntei quem licitaria e ela (Maria Dorotéia de Lima, do Iphan) disse que era o governo federal, mas até agora só vi conversa. Ação nenhuma”, rebate o prefeito Fuzica. O prefeito afirma que o Executivo municipal está fazendo um levantamento do patrimônio e que pretende negociar com os colonos que ocuparam as casas da Vila Americana. “Com jeito vamos mostrar que as casas podem ser úteis para algum projeto”, acredita Fuzica.

O mentor da ocupação na Vila Americana é Expedito Duarte de Brito, de 70 anos. Em 2009, Expedito foi eleito presidente da comunidade, espécie de líder comunitário de Fordlândia. “Andava na Vila Americana e via aquele monte de cupim comendo as casas, morcegos e animais peçonhentos. Fiquei com dó de aquilo se acabar e fui morar em uma das casas para conservá-la e inibir a presença dos vândalos”, explica Expedito.

Expedito disse que enviou um ofício para o Iphan, em 2010, e outro para a SPU informando do seu desejo e que, segundo ele, não obteve resposta e então decidiu ocupar a casa. No mês de junho daquele ano, uma equipe de documentaristas da Alemanha esteve em Fordlândia e Expedito retirava os móveis das casas para guardar em um galpão. Concedeu entrevista para os alemães com a postura de dono do pedaço. A superintendente do Iphan, Maria Dorotéia Lima, assistiu ao documentário e questionada pela reportagem disse: “Não sei de onde esse cidadão (Expedito) se investiu dessa autoridade”.

Expedito procurou Daniel e um outro colono, chamado de Baiano, e conclamou os dois a ocuparem as outras casas, o que foi feito rapidamente. “Enquanto eu tiver vida eu fico aqui”, garante Expedito, que é funcionário aposentado do Ministério da Agricultura.

A postura de Expedito e dos dois colonos não é totalmente recriminada pelos moradores do local. O professor Pedro Paulo Porto, que foi diretor da escola da localidade, procura entender os dois lados. “Muita gente tem saudosismo e queria que não mexessem nas casas, mas eles estão também zelando o patrimônio”, avalia. “Desde que eles não se apossem de forma definitiva”, ressalta.

HOSPITAL Pedro acredita que o ideal seria as casas no seu estilo original e conservadas por funcionários do governo federal, mas entende as dificuldades. Ele cita o exemplo do hospital, que, abandonado há décadas, foi totalmente depredado em 2012, quando moradores arrancaram o que restava do telhado e do mobiliário, deixando somente as paredes.

O hospital de Fordlândia foi construído no alto da colina, distante 800 metros da margem do Tapajós. Quem caminha em direção ao hospital passa em frente à casa de Raimunda Silva e vê sua arara de estimação, Iara, brincando no terreiro. “Eu alimentava ela só com comida de panela, mas uma veterinária disse que com o tempo ela poderia começar a comer ela mesma. Passei a dar frutas e castanha-do-pará”, detalha Raimunda.

O projeto do hospital foi elaborado pelo arquiteto Albert Khan, o mesmo que projetou as fábricas da Ford em Highland Park e River Rouge, nos Estados Unidos. A capacidade era de 100 leitos e foi um dos mais modernos do país, sendo o primeiro a realizar um transplante de pele. Hoje, é só mato e ruínas. No local abandonado, somente o zumbido de mosquitos interrompe o silêncio.

“Eu sou uma pessoa muito idílica nesse caso. Eu gostaria de ver a casa do jeito que ela era e sendo conservada por um funcionário”

Pedro Paulo Porto,
professor de literatura

ELDORADO AMAZÔNICO

CONCEBIDA PARA ALIMENTAR DE BORRACHA AS FÁBRICAS DE AUTOMÓVEL, FORDLÂNDIA ATRAIU PESSOAS DE TODA A AMÉRICA, MAS UMA SUCESSÃO DE ERROS IMPEDIU O ÊXITO E 70 ANOS DEPOIS ESTÁ ABANDONADA

Filho do venezuelano Ricardo Bouillet, chefe de operações da Ford, Leonardo Bouillet nasceu em Fordlândia, em 1940. “Meu pai é de La Guaira e veio trabalhar aqui”, conta Leonardo, atual secretário de Administração da Prefeitura de Aveiro. Ele viveu os primeiros anos da infância ainda sob a batuta da Ford. Leonardo se lembra da cidade com o modelo norte-americano, dos carros importados cruzando as ruas, do apito da fábrica chamando os funcionários e avisando a hora da troca de turno. “Até 1952 era como eles tinham deixado. Bem conservado. Piorou depois que passou para o governo brasileiro e quem ficou administrando foi o Ministério da Agricultura. Mantiveram a conservação. Entrou a política e aí começou a esculhambação”, avalia Leonardo.

Fordlândia atraiu trabalhadores de outros países da América do Sul, além de brasileiros que fugiram da seca nordestina, no final da década de 1920 e início da década de 1930. Todos confiavam, segundo detalha o professor de história da Universidade de Nova York, Greg Grandin, no livro Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva, na imagem de êxito projetada pelo capitão da indústria, Henry Ford: “Homem mais rico do mundo, ele era o iluminado – o ‘Jesus Cristo da indústria’, como o chamou um escritor brasileiro, ao passo que outro o chamou de ‘Moisés’ do Novo Mundo – e a salvação da, havia muito, moribunda indústria brasileira da borracha e também da Amazônia”.

A concepção de Fordlândia surgiu na mesma época em que Henry Ford lançava o modelo A, em Nova York, em 1927. O maior sucesso da empresa era o Ford modelo T, êxito de mercado desde seu lançamento, em 1908, mas que enfrentava a concorrência da emergente General Motors. Na ocasião do lançamento, Ford disse aos jornalistas que cogitava viajar ao Brasil para inspecionar sua plantação de seringueiras. Os detalhes foram dados por seu filho, Edsel, que contou ao mundo o que viria a ser chamado de Fordlândia. Henry Ford morreu em 1948 sem nunca ter pisado em Fordlândia.

O contexto internacional era de crise no mercado da borracha, com preços inflacionados pelos produtores do Sudeste Asiático. O Brasil liderou a produção mundial de borracha durante o século 19, mas no início do século 20 perdeu a primazia para as colônias inglesas do Sudeste da Ásia. Com o fim da 1a Guerra Mundial, o preço da borracha começou a cair e o então secretário de estado para as colônias da Inglaterra, Winston Churchill, aprovou a ideia de um cartel para sustentar os preços. Henry Ford buscou uma solução para escapar da estratégia de Churchill e foi parar na Amazônia.

A notícia se espalhou, em velocidade mais lenta que a atual, mas suficiente para alimentar o mito do eldorado amazônico. Na mitologia tropical, o Eldorado é um local em que há um rei índio tão rico com pó de ouro bastante para se cobrir. O mito sempre atraiu um sem fim de caçadores de fortuna para a Amazônia.

Greg Grandin detalha em seu livro que Henry Ford tinha mais de 60 anos quando planejou Fordlândia. Ford na cidade a sua visão da América.“Essa visão se originava da sua criação numa fazenda em Dearborn e significava usar sua riqueza e seu método industrial para salvaguardar virtudes rurais e corrigir males urbanos”, escreveu o historiador.

Para Ford, o homem que trabalha arduamente deveria ter uma poltrona, um lugar ao lado da lareira e um ambiente agradável. Pensando assim, ele mandou construir as casas com telhados de madeira, no estilo cape cod, e recomendou que plantassem flores nos jardim e comessem pão de trigo e arroz integral. “Aquele assentamento se tornou o clímax para toda uma vida de concepções ousadas a respeito da melhor maneira de organizar a sociedade”, completa Grandin, que mostra em seu livro que nos primeiros anos, violência e desperdício tornaram Fordlândia mais inóspita do que as cidades mais notórias do Velho Oeste dos EUA.

“A taxa de mortalidade por malária e febre amarela era alta. Curvando-se para cortar os arbustos com facões, muitos trabalhadores da linha de frente morriam picados por serpentes. Aqueles que fugiam da plantação levavam consigo histórias de lutas de facas, tumultos e greves. Reclamavam da comida estragada e de supervisores corruptos e incompetentes, que roubavam seus salários e transformavam a floresta em um buraco de lama, queimando grandes trechos de selva sem a menor ideia de como plantar seringueiras. Talvez tenha sido o maior incêndio até hoje provocado pelo homem naquela parte da Amazônia, com folhas em chamas flutuando para a outra margem do rio enquanto as cinzas enchiam o céu, transformando as nuvens da estação chuvosa numa névoa cor de sangue”, esmiuçou o historiador em seu livro.

Os boatos de que Ford contrataria milhares de funcionários pagando a quantia de US$ 5 por dia atraíram muitos brasileiros, principalmente nordestinos, que levavam com eles a família e construíram casas improvisadas com caixas e restos de lona. “Em vez de uma cidade virtuosa brotando do verde da Amazônia, os comerciantes locais montaram bordéis, bares e cassinos cobertos de palha, transformando a Fordlândia numa próspera cidade na floresta tropical. Depois de algum tempo, os gerentes conseguiram estabelecer sua soberania sobre o lugar e realizaram algo mais próximo da visão de seu patrão”, escreveu Grandin.

Chamada de Revolta das Panelas, a primeira rebelião dos trabalhadores aconteceu em 1930. Eles não aceitavam a imposição dos hábitos dos norte-americanos, principalmente os alimentares. Cinco anos depois, quando a situação parecia controlada e as seringueiras plantadas deveriam começar a produzir o látex, veio uma praga e o fungo das folhas dizimou a plantação. Ford insiste na ideia e transfere as operações para a cidade de Belterra, em 1936, transformando Fordlândia em centro de pesquisa, escola de enxertos e viveiro para mudas.

Com a Segunda Guerra Mundial, Fordlândia e Belterra se engajaram nos esforços de guerra e voltaram à produção do látex para abastecer o Exército norte-americano. Ao fim dos combates as duas cidades foram vendidas para o governo brasileiro. Quem assumiu o controle foi o Instituto Agronômico do Norte (incorporado pelo Ministério da Agricultura posteriormente), que mandou arrancar as seringueiras e substituí-las por juta e cacau, além de introduzir o gado zebu.

DE VOLTA AO BAR DO CANHÃO Raimunda Jordilena bebe cerveja e explica que uma das vantagens de ‘Forlândia’ – pronunciada sem a letra “d” por quase todos os locais – é o custo de vida. É possível viver com pouco dinheiro. Raimunda é cabeleireira em um salão improvisado na sala de casa e cobra R$ 7 para cortar o cabelo e apenas R$ 2 para fazer as sobrancelhas. O peixe, principal alimento, é abundante no Rio Tapajós, e para pescá-lo basta uma pequena rede e um pouco de paciência. O predileto de Raimunda é o piau assado, mas ela ressalta que no distrito onde nasceu, Brasília Legal (também parte da cidade de Aveiro) faz sucesso o festival do tucanaré.

A esposa do dono do bar tenta acender uma churrasqueira. Usa um monte de palha para carburar o carvão e provoca um grande fumacê. Um freguês galhofa: “É para espantar as muriçocas”. As pessoas parecem alegres. O final da sexta-feira é bonito, após uma tarde quente de sol—os dias anteriores foram de tempo nublado. Ao lado do bar uma placa anuncia gasolina por R$ 4 o litro. O público roda quase só de motocicletas: são motos pilotadas por homens, mulheres, adolescentes e até crianças. Todos sem capacete. Quase não há carros nas ruas planejadas por obra e encomenda de um dos criadores do automóvel.

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