MONOCULTURA

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Em São Pedro de Catuçaba, uma vila encravada num dos últimos bolsões caipiras do Estado de São Paulo, os moradores ainda se acocoram para ver a vida passar.

Mas se antes o cenário era de tranquilidade no distrito onde vivem cerca de 800 pessoas, hoje a paisagem é outra: a cada 20 minutos um caminhão pesado e barulhento, cheio de toras de eucalipto, corta a rua principal deixando um rastro de poeira.

Nos últimos meses, o povoado de São Luiz do Paraitinga (a 182 km da capital paulista) virou o centro de uma disputa entre moradores indignados com o vaivém de caminhões e a Fibria, a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, responsável pelos veículos.

Editoria de arte/Folhapress
Vila de Catuçaba
Vila de Catuçaba

A rua Coronel Jordão Monteiro, a principal de Catuçaba, é o único caminho para a empresa escoar a madeira de uma de suas fazendas até Jacareí (a 84 km da capital). A empresa afirma ter consultado a comunidade e os poderes Legislativo e Executivo.

O tráfego de caminhões ali já ficou proibido de 2009 a 2014, após ação da Defensoria Pública alegar danos socioambientais gerados pelo cultivo de eucalipto na região. A restrição foi derrubada na Justiça no ano passado.

Os caminhões voltaram há cerca de três meses e já danificaram calçamento da rua, encanamentos e fiações, causaram fissuras em casas e esburacaram a rodovia estadual Abílio Monteiro de Campos, que dá acesso ao distrito.

Segundo o defensor público Wagner Giron De La Torre, só neste ano o DER (Departamento de Estradas de Rodagem) gastou R$ 493 mil em reparos na via. “É o contribuinte pagando pelos lucros da Fibria”, afirma. O DER confirma o valor.

Joel Silva/ Folhapress
Caminhão transportando eucaliptos passa por rua de São Pedro de Catuçaba, no interior de SP
Caminhão transportando eucaliptos passa por rua de São Pedro de Catuçaba, no interior de SP

Tanta foi a pressão dos moradores que os vereadores aprovaram, em abril, uma lei que barra os caminhões.

O prefeito Alex Torres (PR), cuja campanha foi 75% financiada pela Fibria, teve 15 dias úteis para decidir se sancionava ou vetava a lei. No 16º dia, ele a vetou, dizendo que a proibição traria prejuízos econômicos à cidade. A decisão, fora do prazo, não valeu.

Por isso, a lei acabou assinada pelo presidente da Câmara nesta terça-feira (19).

Os moradores de Catuçaba comemoram a aprovação da lei, mas temem que a Fibria mantenha o transporte.

Milton Baracho dos Santos, 72, militar reformado que tem uma loja no distrito, afirma que, no último Dia das Mães (10/5), ao voltar de Taubaté, se viu forçado a desviar de um buraco na rodovia. Seu carro derrapou e capotou, ferindo sua mulher e seu neto.

“Tive perda total. Os caminhões não têm condições de passar aqui”, diz.

Segundo os moradores, o tráfego é maior à noite. Dormir tranquilamente é impossível para o pai de Alessandra Cruz, 17. A estudante diz que a cama dele treme a cada caminhão que surge.

Joel Silva/ Folhapress
Moradores observam movimento de caminhões pelas ruas de São Pedro de Catuçaba, em São Luiz do Paraitinga (SP)
Moradores observam movimento de caminhões pelas ruas de São Pedro de Catuçaba, em São Luiz do Paraitinga (SP)

“As paredes de casa têm rachaduras. Um perito da empresa veio aqui e disse que vão arrumar tudo quando o transporte acabar”, afirma.

Para o lavrador José Augusto Salgado, 47, um dos piores problemas é a sujeira. “Tem que limpar o dia todo a casa por causa da poeira”, afirma.

AMEAÇA

Para o professor aposentado de antropologia da Unicamp Carlos Rodrigues Brandão, que pesquisou Catuçaba por seis anos, a atividade da empresa é uma ameaça ao modo de vida dos moradores.

“Aquela região toda, chamada de ‘bolsão caipira’, não sofreu influência da imigração italiana nem do café. Grande parte dos filmes de Mazzaropi foi inspirada na região. É um reduto de tradições populares muito importante.”

Um projeto de lei, propondo o tombamento da vila, deve ser discutido na Câmara de São Luiz ainda neste mês.

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