OP VENEZUELANO

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A “revolução bolivariana” tão desejada pelo presidente venezuelano Hugo Chávez aposta na democracia participativa e não mais na democracia representativa. No momento em que o chefe do Estado chamou para si o poder de legislar e com um Congresso reduzido em suas atividades, milhares de conselhos comunais têm a missão de canalizar a participação das bases. A reportagem é do Le Monde, 24-4-2007. A tradução é do Cepat.

Conselho comunal, explosão do poder popular“, anuncia o cartaz vermelho preso a uma porta da cantina escolar que foi transformada numa sala de reunião. Lá fora, as ruelas se espalham pela montanha que paira sobre o centro de Caracas.

Antes mesmo que comece a reunião do conselho comunal de San Agustin Sur, o debate começa entre a dezena de participantes. Três jovens mulheres gostariam de reformar o jardim de infância. Outros acham que a construção de lixões é mais urgente.

“Antes, eram os funcionários e os políticos corruptos que decidiam. Agora, o conselho comunal toma conta da situação”, diz Efrain Antonio Gonzalez. Aos 56 anos, ele acaba de conquistar o seu diploma de estudos do segundo grau graças às “missões” educativas implantadas por Hugo Chávez. “O presidente já disse: `Todo o poder para o povo`”. “A revolução agora vai para frente”, fala, com orgulho. Uma vizinha o interrompe: “Em vez de ficar conversando, Chávez deveria exigir resultados dos seus ministros”. O tom da discussão torna-se um pouco mais forte.

Reeleito com 62,8% dos votos em 3 de dezembro de 2006, Chávez optou por apressar a construção do “socialismo do século 21” que vai inventando no decorrer dos seus discursos. Uma lei conhecida pelo nome de “habilitante” permite que legisle por decreto durante 18 meses. “O presidente Hugo Chávez quer passar o poder para a base. Os conselhos comunais são os canais de expressão desta democracia direta que deve incrementar a democracia representativa”, explica o novo vice-presidente da República, Jorge Rodriguez.

Os venezuelanos que apóiam a “revolução bolivariana” de Hugo Chávez enxergam no poder comunal um poderoso agente de transformação social e política. Aqueles que a temem também. Desde a adoção da lei que os criou em 2006, mais de 18 mil conselhos comunais – rurais e urbanos – já surgiram. Eles deverão atingir o número de 30 mil. Previsto para reunir entre 200 e 400 famílias que vivem numa mesma área, o conselho comunal, diferentemente das instituições tradicionais, define as suas fronteiras. A idade mínima para votar foi reduzida para 15 anos.

“Convencido da inoperância da sua administração pública e da corrupção, Hugo Chávez tenta provocar um curto-circuito nas instituições do Estado para se apoiar diretamente no povo”, explica Ana Maria San Juan – politóloga.

De acordo com a vice-presidência da República, os conselhos comunais receberam, em 2006, o equivalente em bolívares a 1,2 bilhão de euros (R$ 3,3 bilhões). E receberão mais que o dobro desta quantia em 2007, para reformar as calçadas aqui ou construir um centro para a juventude ali. “A revolução tem idéias e dispõe de muitos meios. O entusiasmo das pessoas faz o resto”, argumenta Hipólito Moreno, um colombiano vindo para trabalhar na implantação de um programa de renovação urbana.

Uma garçonete num pequeno bar do centro de Caracas, Dibisay conta que em Bello Monte, onde ela vive, o conselho comunal não foi constituído por falta de quorum nas reuniões. “As pessoas não acreditam ou não estão nem aí”, comenta. A patroa do estabelecimento acrescenta que no seu bairro, “os chavistas assumiram o controle do conselho”.

Na oposição, não faltam os que vêem nos conselhos comunais um instrumento de “cubanização” da Venezuela. “As declarações de alguns altos-funcionários dão margem à confusão, uma vez que eles apresentam os conselhos comunais como o prolongamento local da política governamental, ou ainda como a célula de base do novo partido”, destaca Elias Santana, diretor da Escola dos Cidadãos, uma organização sem fins lucrativos que promove a vida associativa e a participação popular. Elias Santana defende as suas teses nas páginas do El Nacional e da Tal Cual, dois diários favoráveis à oposição.

Segundo ele, “os conselhos comunais fazem parte de um movimento mais amplo e e dinâmico na América Latina, que tenta, principalmente por meio das experiências de “orçamento participativo”, aproximar a tomada de decisão política dos cidadãos”. Diferentemente dos “círculos bolivarianos”, aquelas associações que foram promovidas por um tempo por Hugo Chávez e que hoje estão praticamente desaparecidas, os conselhos comunais são concebidos como instituições.

“Grande como a França e a Alemanha juntas, a Venezuela conta atualmente com 335 municípios. Apenas a França mais de 36 mil” lembra Temir Porras, um alto-funcionário formado na França, na ENA (Escola Nacional de Administração). O vice-presidente venezuelano comenta, sorrindo: “Está vendo? Vocês então já têm os seus conselhos comunais!”

Mas, existe um problema que não é pequeno. Na Venezuela, os conselhos comunais são diretamente vinculados à presidência da República. A “comissão presidencial do poder comunal” decide, portanto, sobre a destinação dos fundos. Os mais fervorosos defensores do poder popular se mostram preocupados com isso. É o caso de Roland Denis, um antigo ministro do planejamento, que estima que “o caudilhismo do regime pode se ver reforçado com isso”. Ele considera, entretanto, que a criação dos conselhos comunais representa “uma esperança histórica de acabar de uma vez por todas com as estruturas do Estado burguês”.

Como articular os conselhos comunais com as instituições do Estado – as administrações regionais e as prefeituras -, das quais alguns revolucionários já pedem a extinção? Como conciliar a democracia direta com as necessidades do planejamento a longo prazo? Como evitar que políticos e burocratas controlem os conselhos comunais? “Muitas respostas ainda precisam ser encontradas”, admite o vice-presidente Rodriguez.

Bem que os conselhos comunais poderiam oferecer um novo quadro de ação para a oposição venezuelana, ausente da Assembléia Nacional por ter se retirado das eleições legislativas em 2005. “Para evitar que a Sua Majestade Chávez nos controle e nos vigie, assim como faz Fidel Castro, vamos aplicar uma regra elementar do judô: aproveitar-se do movimento do adversário para derrubá-lo. Vamos tomar à força os conselhos comunais ou infiltrar gente lá”, exorta o opositor Jésus Petit Da Silva.

Mas, para Elias Santana, “se a polarização política que opõe os chavistas aos antichavistas for para dentro dos conselhos comunais, a esperança de ver se instalar na Venezuela uma verdadeira cultura da participação popular vai desaparecer”.

 

 

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TARIFA ZERo

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O engenheiro civil Lúcio Gregori, secretário de Transportes da gestão Luiza Erundina (1989-1993) na prefeitura de São Paulo e elaborador do Projeto Tarifa Zero, disse que a gratuidade do transporte coletivo é o estágio final de um processo político de rearranjo de recursos e composições de fundos. “No Brasil, o subsídio tarifário é extremamente baixo. [Os governos] têm que dar subsídio maior e o limite é a tarifa zero”, afirmou.

Segundo ele, os subsídios não precisam ser arcados exclusivamente com impostos municipais, mas com a coparticipação de governos estaduais e federal, seja com empenho de recursos ou isenção de impostos. “Quase todos os países com forte subsídio de tarifa têm fundos com composições. É uma solução, não pode ser minimizada só porque o prefeito x ou o governador y diz que não tem dinheiro. Mas ele não tem que fazer tudo sozinho, é uma disputa politica de outro caráter”, disse.

“É preciso uma discussão séria a respeito de como um país desse porte, o sétimo PIB [Produto Interno Bruto] do mundo, tem uma tarifa nessas proporções”, defendeu Gregori. Segundo ele, aplicando os níveis de Paris e Pequim, a tarifa em São Paulo, que hoje é de RS 3,80, deveria ser de R$ 1,27. Comparando com os subsídios aplicados em Buenos Aires, a tarifa na capital paulista cairia para R$ 0,85. “Política é isso, política é construir possibilidades e não gerir impossibilidades”.

Para o engenheiro, é preciso também desconstruir narrativas enraizadas na cabeça das pessoas, de que é preciso pagar a tarifa de transporte, e “isso não muda do dia para a noite”. Gregori compara a tarifa zero ao pagamento do décimo terceiro salário, que também gerou discussões na sua implantação, “mas hoje ninguém se imagina sem décimo terceiro”, disse.

A estatização do transporte público é desejável em certas circunstâncias, segundo o ex-secretário, mas não é obrigatório e nem se vincula à tarifa zero. Gregori explica que o modelo tradicional é a concessão de serviço público e a tarifa é que garante o equilíbrio financeiro, mas que existem outras alternativas como o fretamento, por exemplo. “Eu desvinculo a tarifa do custo do serviço, eu faço do empresário um alugador de ônibus e vou cobrar a tarifa que bem entender. Ele coloca o capital, eu vou fretar, pagando uma rentabilidade da aplicação dele, e não preciso empatar o dinheiro do Poder Público em uma frota”, afirmou o engenheiro.

 

E PRA FRENTE?

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Imagem: revistadigital.com.br

 

A crise de representação política e o fim do ciclo progressista que comandou e ainda comanda parte dos países da América do Sul na última década e meia pode levar a “uma resposta simplória” acerca do futuro político do continente daqui para frente, ao apostar que o ciclo progressista “será substituído pela volta da direita neoliberal”, adverte Bruno Cava à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.Segundo ele, apesar de essa ser a “resposta dos próprios intelectuais progressistas”, ela “não tem nenhuma precisão, não estamos nos anos 1990, muita água passou debaixo da ponte, e vivemos um momento complexo de desconcertos e reorganizações. Parte da oposição não se encaixa na dicotomia noventista entre elites neoliberais e progressismo popular, e boa parte da população simplesmente não se vê representada nem na situação nem na oposição”.

Na avaliação de Cava, a resolução das questões sobre a representação política e a transição para outro modelo não dependem apenas de “invocar a sociedade como o sujeito político para protagonizar a transição. Ao falar apenas em “sociedade”, pontua, “corre-se o risco” de gerar uma “separação categorial entre sociedade, economia e Estado: a sociedade civil precisaria mobilizar-se para ocupar o Estado e torcer a economia a seu favor. Este esquema não leva em consideração como sociedade, Estado e economia estão inteiramente emaranhados, em sua genealogia e funcionamento”.

Entre as falhas do ciclo progressista que levaram à atual conjuntura, Cava menciona a falta de “preocupação em pesquisar outros processos sociais, políticos e econômicos, reproduzindo-se os velhos macetes da classe-média-reacionária, do golpismo-fascismo, da grande-mídia-imperialista. (…) Os sinais da velhice aparecem igualmente na adesão quase instintiva a grandes narrativas, que hipostasiam o passado neoliberal para explicar os conflitos do presente, e na crescente adoção de teorias conspiratórias para justificar os próprios problemas e limitações, remetendo a culpa a um Grande Outro”.

O esgotamento do ciclo progressista também pode ser explicado pelo projeto desenvolvimentista adotado por esses governos, que ao redor dele organizaram a “governabilidade, a sua força motriz”, sem perceber que “desenvolvimentismo é mais do que um projeto econômico, ele é uma matriz política, cultural, civilizatória”. Para ele, a impossibilidade de superação desse modelo está diretamente atrelada ao discurso da “oposição entre Estado e Mercado, atualizada segundo a narrativa da luta contra o neoliberalismo, que virou uma crosta discursiva, onde Estado e Mercado terminam por funcionar na mesma matriz dirigista. Realça-se a redução de desigualdades, mas não a transformação do próprio sistema econômico, a partir da relação de exploração que o constitui”. Essa, contudo, “é uma avaliação insuficiente, que perde de vista ‘variáveis’ importantes”, frisa.

Bruno Cava é graduado e pós-graduado em Engenharia de Infraestrutura Aeronáutica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, graduado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e mestre em Direito na linha de pesquisa Teoria e Filosofia do Direito. É blogueiro do Quadrado dos loucos e escreve em vários sites; ativista nas jornadas de 2013 e nas ocupas brasileiras em 2011-2012; participa da rede Universidade Nômade e é coeditor das revistas Lugar Comum e Global Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A que atribui o fim do ciclo progressista na América do Sul? Por que ele vem dando sinais de esgotamento?Bruno Cava – O ponto forte dos governos progressistas foi seu ponto fraco. Nasceram de mobilizações democráticas nos anos 1990 e 2000: a Revolução Bolivariana, na Venezuela, do Caracazo e das rebeliões plebeias; a Revolução Cidadã, no Equador, das revoltas urbanas de 1997, 2000, 2001 até a rebelión de los forajidos, em 2005; a Revolução Democrática e Cultural, na Bolívia, do ciclo insurgente da água (2000) e do gás (2003); nos casos de Brasil e Argentina, a crise asiática de 1997 precipitou o desmoronamento da relativa estabilidade construída pelos governos de FHC e Menem, culminando na ingovernabilidade argentina de 2001-02 — quando explodiu o tumulto dos piqueteros e cacerolazos, ao que se seguiu o kirchnerismo — e na ascensão eleitoral de Lula do PT, que havia sido derrotado nos três pleitos anteriores (1989, 94 e 98).

Ao longo da última década, as mobilizações transmitiram o impulso para a composição dos governos, determinando, em todos os casos, distribuição de renda e riqueza social. As medidas e políticas dos governos progressistas desenharam um círculo virtuoso com um processo multitudinário, “desde baixo”, que se reapropriou das condições mais propícias e desbloqueou uma energia enorme, o que conduziu a profundas e irreversíveis mudanças. Este processo se desdobrou numa dimensão institucional mais pronunciada nos países andinos (plurinacionalidade e paradigma indígena do buen vivir) e na Venezuela (conselhos, missões, círculos bolivarianos, cooperativas), com processos constituintes, mas também em inovações importantes, por exemplo, no Brasil, com o Programa Bolsa Família e a política de pontos de cultura — que hoje são referência internacional.

Três inflexões

Houve, então, três inflexões, articuladas entre si. A primeira inflexão foi a ruptura da relação entre governos e movimentos. Se, num primeiro momento, havia a convivência tensa das várias tendências, sendo pertinente imaginar uma estratégia “dentro e contra” dos governos, essa tensão se desfez nesta década. São emblemáticos da resolução de tensões os episódios da construção da autoestrada no Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure (TIPNIS), na Bolívia; a exploração petrolífera do parque de Yasuní, no Equador; os megaprojetos urbanistas e imobiliários relacionados com a Copa e as Olimpíadas, ou a construção de Belo Monte e outras barragens no Norte, no Brasil. Isto reuniu uma constelação de movimentos indigenistas, ambientalistas, de moradia, de direitos humanos contra os progressistas. Ao mesmo tempo, ao subordinar-se à “estratégia superior” dos governos, os movimentos, centrais sindicais e coletivos mais governistas drenaram a sua vitalidade e imaginação, o que corroeu também as novas instituições venezuelanas, numa passagem, por assim dizer, de uma matriz nacional-popular para nacional-estatal [1].

“Há mais entre a esquerda e a direita do que supõem as categorias progressistas”

A segunda inflexão se deu com a transformação interna da composição social. Enquanto os governos se aferravam a seus projetos de desenvolvimento e cidade, numa lógica dirigista, as sociedades se tornavam mais complexas e multifacetadas, com novos protagonistas entrando em cena. Em parte, isto foi um dos resultados positivos do círculo virtuoso mencionado: com mais ferramentas, tempo e recursos, quero mais, me organizo melhor, defendo e afirmo melhor os meus interesses [2]. Contudo, essa transformação foi encarada reativamente pelos intelectuais e mídias progressistas, como uma ameaça e um déficit, o que favoreceu a impermeabilização dos governos a quaisquer sujeitos fora de sua “zona de conforto” ideológica. Segundo essa postura reativa, a nova composição social teria aderido aos valores neoliberais, ao consumismo, ao conservadorismo. Não seria um genuíno proletariado, mas um subproletariado, uma massa desorganizada e amorfa [3], e naturalmente inclinada a votar nos candidatos da oposição. Mas há mais entre a esquerda e a direita do que supõem as categorias progressistas. Como escreveu Pablo Stefanoni sobre a Venezuela, surgiu “un larguísimo etcétera de luces y sombras, es una tarea compleja que requiere, además, de información empírica” [4] . Foi esse longo etcétera de claros-escuros que, politicamente, se exprimiu nos levantes brasileiros de 2013, venezuelanos do começo de 2014, e equatorianos de junho de 2015 [5] . O continente desconhecido inclui também uma série de outras expressões geralmente achatadas nas análises, tais como o movimento anticorrupção, a emergência evangélica, os rolezinhos e fluxos de rua, além do surgimento de um consumitariado [6] . Em todos os casos, em face de uma suposta hegemonia discursiva, as mobilizações seriam capturadas pela “direita” (alcunha do que podem ser cada vez mais coisas). O discurso progressista costuma enfatizar a força reacionária da televisão na “disputa de narrativas”, mas contorna o fato de que, nos últimos 15 anos, aconteceu uma significativa inclusão digital, as redes sociais, a revolução das lan houses, a portabilidade e a “twitter revolution” no norte da África [7] .

A terceira inflexão, por último, decorreu da simples falta de renovação. Os progressismos ficaram velhos. Os discursos, as práticas, as técnicas organizativas, os ídolos. E não é questão de idade, porque se vai encontrar o envelhecimento desde o movimento estudantil. Por uma série de fatores. Por exemplo, em vez de valorizar a miscigenação com o ciclo alterglobalização de Chiapas, Seattle e Gênova, preferiu-se reportar as principais referências e simbologias aos anos 1970-80, especialmente na Argentina e no Brasil. Não há, além disso, qualquer preocupação em pesquisar outros processos sociais, políticos e econômicos, reproduzindo-se os velhos macetes da classe-média-reacionária, do golpismo-fascismo, da grande-mídia-imperialista. Aconteceu a impermeabilização em relação a novos ciclos de lutas, bem como o nivelamento sistemático das oposições, que hoje habitam caldos efervescentes de indignação social. Os sinais da velhice aparecem igualmente na adesão quase instintiva a grandes narrativas, que hipostasiam o passado neoliberal para explicar os conflitos do presente, e na crescente adoção de teorias conspiratórias para justificar os próprios problemas e limitações, remetendo a culpa a um Grande Outro. Hugo Chávez, por exemplo, chegou a contrapor-se às revoluções árabes, cerrando fileiras com ditaduras no discurso do imperialismo [8] . Na Bolívia e Equador, movimentos indigenistas são frequentemente reduzidos a instrumentos dos vende-pátrias (no caso boliviano, quem enuncia essa operação é o vice-presidente, Álvaro G. Linera), enquanto no Brasil o levante de 2013 — com ressonâncias distantes ao que se vayan todos argentino de 2001 [9] , e próximas às sublevações de Parque Gezi na Turquia [10] — teria por objetivo oculto a restauração conservadora, sob a manipulação – ou pelo menos o oportunismo — dos interesses do grande capital em desestabilizar um Estado nacional-popular.

Inferno astral para os progressistas

As três inflexões, acentuando-se reciprocamente, fecharam as brechas constituintes e resolveram as polivalências iniciais, levando ao esgotamento do ciclo [11] . A exaustão começou a manifestar-se, inclusive, eleitoralmente. Os governos progressistas estão sendo derrotados em seus próprios termos, isto é, enquanto apoio dos pobres, apoio da maioria. Nesse sentido, 2015 foi um inferno astral para os progressistas: Mauricio Macri venceu o candidato da situação na Argentina e pôs fim ao kirchnerismo no poder [12] ; a oposicionista Soledad Chapetón venceu a eleição à prefeitura de El Alto, a segunda cidade da Bolívia, habitada por ameríndios e foco da guerra plebeia do gás em 2003 [13] ; a coalizão antichavista emplacou 16% de votos à frente do partido de Nicolás Maduro, obtendo maioria na assembleia venezuelana [14] ; no Equador, depois do baque da conjuntura pós-levantes [15] , Rafael Correa disse que não vai candidatar-se à reeleição no ano que vem [16] . E Dilma Rousseff enfrentou protestos na casa do milhão, com rejeição em todos os segmentos e índice de popularidade inferior à taxa de inflação, que fechou em 10,7% no ano.

Portanto, o ponto forte da composição originária com mobilizações, forças constituintes e inovações democráticas se converteu, uma década e meia depois, no ponto fraco dos governos progressistas. O ciclo pode ser lido como um palíndromo, em que se inverte apenas a posição relativa dos governos diante da mobilização. Não é por outro motivo que os governos não conseguem torcer a crise num projeto positivo de recuperação, no momento em que a demanda asiática arrefece e despencam os lucros da exportação de commodities (petróleo e derivados, minério, soja, milho, carne, açúcar, café, crustáceos etc).

“O ponto forte da composição originária com mobilizações, forças constituintes e inovações democráticas se converteu, uma década e meia depois, no ponto fraco dos governos progressistas”

IHU On-Line – Quais foram os limites dos governos progressistas na última década na América do Sul?

Bruno Cava – O principal limite foi o projeto desenvolvimentista. Ao redor do desenvolvimentismo, se organizou a governabilidade, a sua força motriz. O desenvolvimentismo é mais do que um projeto econômico, ele é uma matriz política, cultural, civilizatória. No Brasil, as recentes investigações em andamento sobre os empréstimos, subsídios, acordos e negócios do desenvolvimentismo, como ele aconteceu na prática, têm fornecido elementos para anos de estudo pela academia. A operação Lava Jato é a Glasnost do governo Dilma e do desenvolvimentismo. Já conhecíamos as dimensões mafiosas e ecocidas dos principais projetos (me reporto a Giuseppe Cocco e Idelber Avelar, num e noutro caso [17] ), mas nenhum pesquisador por mais premonitório tinha a inteira noção do funcionamento do desenvolvimentismo real.

Subsistiriam duas tendências internas ao desenvolvimentismo realmente existente. Uma focada na força do social, nas inversões em proveito da distribuição de renda e investimentos públicos como carro-chefe, que foi batizada de “social-desenvolvimentismo”. A outra está mais voltada a conferir prioridade estratégica ao setor produtivo privado, já preparado para enfrentar os desafios do progresso técnico e assumir os riscos dos grandes investimentos, como vetor de uma desejada industrialização endógena, o “novo-desenvolvimentismo” [18] . A primeira teria sido majoritária e bem sucedida no governo Lula, catalisada pelo aumento do salário mínimo, programa bolsa família e expansão do crédito popular, e que conduziu a um incremento real do salário (em sentido amplo, cota do trabalhador em relação à produção social). A segunda, por sua vez, teria atingido o clímax com o Plano Dilma de 2012, ou seja, o conjunto de incentivos, desonerações, subsídios, redução da Selic e desvalorização cambial (dólar a R$ 2) — o que o então ministro Guido Mantega batizou de “nova matriz econômica” [19] .

Críticas

Existe uma crítica intramuros contra a segunda vertente, por exemplo, pelo André Singer [20] , que merece ser retomada. Basicamente, André diz que Dilma não assistiu à Terra em transe. Como Vieira no filme de 1967, Dilma apostou num projeto político fiado na aliança entre esquerda burocrática e burguesia industrial nacional; mas, na hora da verdade, terminou abandonado/a pelos empresários e seu instinto classista — a sempiterna bomba-relógio do pacto nacional-desenvolvimentista, como Glauber Rocha já havia diagnosticado no cinema [21] . O artigo, no entanto, é condescendente às escolhas e estratégias do governo, rabiscando a imagem que a política desenvolvimentista de Dilma teria desafiado forças poderosas e terminou sitiada. Quem não conhece a história recente do país talvez pudesse solidarizar-se com o quadro, quase como Allende no La Moneda. Os metarrelatos setentistas não tardam.

Outra crítica dentro do campo desenvolvimentista, mais interessante, tenho encontrado nos textos de Laura Carvalho, também na linha que Dilma seguiu a agenda das empresas e subsidiou o lucro [22] , sem critérios adequados de contrapartida econômica e/ou social. Como se o governo tivesse ido ao restaurante e pedido um prato caro, o empresariado sai da mesa e a conta fica para — adivinhe quem — pagar. Sem simplesmente condenar a expansão de consumo e crédito, a economista contrapõe-se ao “novo-desenvolvimentismo” (Bresser-Pereira) centrado na taxa de lucro dos empresários industriais nacionais, para então realçar a prioridade do investimento social, segundo o imperativo de investir em renda, saúde, educação. Suas análises têm a vantagem de não incidir num desenvolvimentismo linha-dura, uma espécie de industrialismo back-to-basics, com avaliações geralmente ambíguas sobre o desenvolvimentismo da ditadura com Geisel e o 2º PND [23] (e as ditaduras em geral).

Laura e Fernando Rugitsky publicaram recentemente um artigo in progress [24] , em que aplicam modelagens dinâmicas referenciadas no economista polonês Michal Kalecki para explicar o êxito socioeconômico dos governos Lula, pela sinergia entre distribuição de renda, investimento público, expansão do crédito e consumo. Nesse sentido, o boom do preço das commodities se inscreve na explicação antes como um fator positivo; porém, não fundamental para o aumento da demanda efetiva e os bons resultados em praticamente todos os indicadores socioeconômicos. Mais importante do que avaliar quantitativamente o capital acumulado graças à bonança das exportações, é avaliar o que é feito e como é feito com esse capital, o aspecto qualitativo das escolhas e estratégias diante da circunstância. As canetadas dilmistas de 2012, nessa leitura, podem ter interrompido o ajuste fino do círculo virtuoso, induzido pelas políticas lulistas pró-salário, exatamente num momento em que as margens de manobra começavam a derreter.

Usar Kalecki traz uma vantagem analítica em relação ao mais clássico Keynes, já que naquele o salário não aparece como apenas mais uma variável entre as demais [25] . Quando se estudam as equações aparentemente sofisticadas da macroeconomia, se nota rapidamente como as variáveis incidem umas sobre as outras, amiúde provocando curtos-circuitos e paradoxos. Aí se pode ter a impressão de neutralidade, por exemplo, que se deveria na circunstância tal e tal promover cortes no salário real para favorecer a taxa de lucro e, com isso, digamos, trazer ganhos em competitividade ou investimento. É um disparate, porque o salário não é uma variável qualquer, e mede a luta e a participação dos trabalhadores na riqueza. As crises são momentos-chave da reorganização do capital, quando se coloca a conta na mesa. Difícil enxergar distinção entre um economicismo de crise e uma teodiceia, em que se justifica o mal no mundo hoje em nome de um futuro melhor. E qual ponto de vista se assume numa análise keynesiana que toma a economia como mecanismo e não o capitalismo como violência? [26]

“De que adianta crescer em ritmo chinês superexplorando a população, destruindo o meio ambiente e controlando a internet, como a China socialista faz, o país mais industrializado do planeta?”

Limitação do desenvolvimentismo

Não é suficiente, no entanto, aditivar a macroeconomia com ciclos kaleckianos, pois algo de fundamental continua intacto e é aqui, aliás, que reside a principal limitação do desenvolvimentismo — inclusive do social-desenvolvimentismo, professado pela “esquerda do progressismo”. O horizonte insuperável desse projeto e pensamento ainda é a oposição entre Estado e Mercado, atualizada segundo a narrativa da luta contra o neoliberalismo, que virou uma crosta discursiva, onde Estado e Mercado terminam por funcionar na mesma matriz dirigista. Realça-se a redução de desigualdades, mas não a transformação do próprio sistema econômico, a partir da relação de exploração que o constitui [27] . Realçam-se, desse modo, critérios objetivantes em vez de subjetivantes.

É uma avaliação insuficiente, que perde de vista “variáveis” importantes. O salário não é uma variável qualquer somente por seu conteúdo ético-político, como remediação da miséria e justiça social, mas porque tem em sua composição concreta uma assimetria em relação ao lucro. O salário é capaz de autovalorização, tem um grau crescente de independência [28] . Como produção de subjetividade, o desbloqueio da produtividade social durante a década de 2000 levou não apenas a um vaivém do regime de acumulação de capital, entre ciclos kaleckianos wage-led ou profit-led, mas a um ciclo de lutas, a uma nova composição de classe. As lutas têm uma imediata expressão econômica, não podendo ser escanteada em nome de positivismos metodológicos. Isto pressionou por si só, em sua força agregada, a taxa de lucros, porque o limite da exploração não deixa de ser, justamente, o poder de classe.

Recordemos que, no Brasil de 2013, além das jornadas de junho e ocupações de casas legislativas, presenciamos o denso arco de revoltas no Rio até a greve autônoma dos garis de fevereiro de 2014, passando pelo “Fora Cabral”, o piolhamento midiativista e a campanha “Cadê o Amarildo?”; a primavera gaúcha de abril, a proliferação de rolezinhos no final do ano, a ocupação do canteiro de Belo Monte e do Congresso por indígenas, e cerca de 2.050 greves no país todo [29] . E como o governo lidou com essa mobilização? Como se fosse desestabilização do Estado, enfraquecimento institucional, vindo a promover em vários casos medidas repressivas, e assim cruzando limiares estranhos para quem reivindica a memória dos anos 1970. E houve quem se apressou para sentenciar que essas mobilizações fariam parte de uma conspiração do capital financeiro internacional para sustar o Plano Dilma, que seria produtivista e nacionalista —, como se capital industrial e financeiro não fossem o mesmo processo de exploração em dois momentos entrelaçados, como já sabe muito bem quem tenta adquirir casa própria ou um veículo (voltarei a isso).

Há uma relação entre 2013 ter sido o annus mirabilis das lutas, e 2015 o ano horrível do governo brasileiro. Mudando o que precisa ser mudado, esta análise poderia ser traçada para outros governos progressistas, especialmente, nos casos do Equador e da Venezuela.

IHU On-Line – Considerando as conquistas progressistas, em que aspectos é preciso avançar mais, seja na área social, econômica e de desenvolvimento da América do Sul?

Bruno Cava – Um dos pontos mais centrais do desenvolvimentismo consiste em alargar os gargalos da “política industrial”, isto é, investimentos em projetos de longo prazo relacionados com infraestrutura, matriz energética, tecnologia. Mas o gargalo crítico do progressismo sul-americano, contudo, não foi esse, ele foi democrático. Celso Furtado dizia que não pode haver desenvolvimento sem “bases sociomateriais”, “projeto social subjacente”, “incontornável dimensão política” e “pressões da população”, e que sem esses elementos estaremos politicamente atrofiados por uma “fantasia de potência emergente”, “histeria de projetos faraônicos”, “a intensificação do crescimento econômico agrava os aspectos antissociais do subdesenvolvimento”. [30] Ele está certo. De que adianta crescer em ritmo chinês superexplorando a população, destruindo o meio ambiente e controlando a internet, como a China socialista faz, o país mais industrializado do planeta?

Se o Brasil se diferenciou do resto dos países emergentes, na década de 2000, devido à força da distribuição de renda e políticas sociais, não é caso de, na década de 2010, voltarmos à velha matriz econômica dos atalhos autoritários, tomando por referências a China ou a Rússia de Putin. Nesse sentido, vale citar a conclusão do working paper de Laura e Fernando: “This, however, was done without parallel social mobilization, in an example of Left-wing voluntarism.” [Isso, no entanto, foi feito sem mobilização social paralela, em um exemplo de voluntarismo de esquerda]. [31] Fernando, numa entrevista, foi direto: “O ensaio desenvolvimentista não foi acompanhado de mobilização social, em 2011 e 2012, consistindo em um conjunto de decisões tomadas sem amplo debate público, por dentro de um sistema político cuja principal característica é forçar o gradualismo” [32] .

Estado autorreferencial

Quando se traz em consideração TIPNIS, Yasuní ou Belo Monte, não se está apenas reafirmando uma posição movimentista intransigente de luta — de passagem, plenamente legítima —, mas escolhas, a dimensão política do processo democrático que determina o desenvolvimento. Laura Carvalho, na linha social-desenvolvimentista, cita a importância do Estado para ampliar investimentos nas infraestruturas física e social [33] . É um ponto, à primeira vista, indisputável. Mas a invocação do Estado corre o risco de ser autorreferencial. A questão é que, sem problematizar e historicizar “Estado” (mormente quando escrito com maiúscula) e mesmo “infraestruturas”, essa afirmação corre o risco de soar ideológica, mais pano para as bandeiras da grande narrativa neoliberalismo x progressismo, com o que os governos se justificam e perpetuam segundo a utopia negativa do “menos pior”. Poderíamos debater diretamente a qualidade das políticas que têm sido executadas pelo governo progressista, com fulcro no Estado protetor ou indutor. Vou novamente concentrar no Brasil para dar alguns exemplos concretos.

A autoconstrução da moradia nos últimos 30 anos foi um dos processos políticos, sociais e econômicos mais vibrantes e democráticos no Brasil, como pesquisaram tête-à-tête James Holston e Eder Sader [34] . O que o programa “Minha casa minha vida” faz? Reduz a multiplicidade de experiências e relações ambientais da moradia num projeto homogeneizador, frequentemente em regiões distantes da cidade, enquanto “induz” a atividade econômica da construção civil e seus respectivos canais de financiamento. Outra política, mais democrática, foi subsidiar os materiais de construção no governo Lula, com um efeito difuso, com a possibilidade de cada um exercer a sua liberdade produtiva e reapropriar-se, a seu modo, dessa transferência indireta de renda. Poderíamos realizar o exercício de avaliar qual é “mais Estado” entre as duas matrizes?

No primeiro governo Dilma, Ana de Hollanda assumiu o lugar de Juca Ferreira, no Ministério da Cultura, depois de uma articulação dos aparelhos de cultura do partido. Qual foi uma das primeiras inflexões anunciadas? Esboçar um novo modelo de investimento baseado nas “Praças da Cultura”, equipamento pré-moldado para oferecer infraestrutura à cultura — em vez de valorizar o bem sucedido programa dos Pontos de Cultura (PdC), que reconheciam e valorizavam a dimensão já existente de produção cultural enraizada pelos territórios produtivos. Os burocratas do partido, em contrapartida, diziam que os PdC eram amadores e transpiravam a “clima estudantil” [35] . À democracia dos diferentes em sua conflitividade própria, preferem-se apparatchiks que compartilham de disciplina orgânica e orientação superior.

No Brasil de Lula, a esquerda estatólatra contestou o Prouni e até o Programa Bolsa Família – PBF, e no Rio comunidades inteiras foram removidas com um secretário de Habitação petista invocando o interesse coletivo do Estado, contra a “privatização” (sic) realizada pelos moradores de favela. Também, foi enquanto retomada do Estado contra o “Estado paralelo” que se comandou a invasão do Alemão em 2010 (com direito a hasteamento do pavilhão nacional), a pacificação militar de comunidades e, em geral, a política dominante que trata a questão das drogas ilícitas como questão bélico-militar — e não de saúde pública. Em 2011, Pedro Abramovay foi despedido apenas por declarar-se a favor da descriminalização de pequenos traficantes.

“O que o programa ‘Minha casa minha vida’ faz? Reduz a multiplicidade de experiências e relações ambientais da moradia num projeto homogeneizador”

No Rio de Janeiro, o projeto estatizante na cultura foi ainda pior, com a construção de três megamuseus, três infraestruturas de grande porte para abrigar exposições, de arquitetura duvidosa [36] , imediatamente entregues à Fundação Roberto Marinho [37] . Logo depois da eleição de Dilma em 2010, que apoiei (nos dois turnos), participei da elaboração colaborativa de um pequeno manifesto chamado “Para um Brasil banda larga”. O propósito era contrapor a “fantasia de potência emergente” do Brasil Maior, seus megaprojetos e grandes obras, a uma agenda de aprofundamento da democracia (e não do Estado), mediante um rol de políticas menores (na acepção deleuziana) que, em seu conjunto integrado e sinergético, geram efeitos de escala [38].

Para Keynes, o princípio fundamental é induzir a demanda na perseguição da situação de pleno emprego, mantendo a atividade econômica e suas expectativas aquecidas, mesmo que isto signifique construir pirâmides [39] . A qualidade do emprego induzido não é problematizada. A própria ideia de “emprego”. Enquanto contrato permanente associado a direitos sociais (fordismo ocidental), a cidadania definida pelo emprego é cada vez mais uma miragem em qualquer lugar do mundo — no Sul, sempre foi exceção.

Jorge Moruno, porta-voz do Podemos, logo depois de conquistar mais de 20% dos votos nas eleições espanholas de dezembro último, declarou que estão “pensando o mundo além do emprego”, e mencionou a proposta de uma renda de cidadania para todos [40]. Em vez de simplesmente servir de muleta para o desmantelamento do salário social próprio do welfare, segundo uma lógica neoliberal, se pensa assim uma biorrenda como núcleo de uma nova governança do comum e dos bens comuns [41]. O Programa Bolsa Família, massificado e rótula para vários programas sociais, poderia ser o embrião desse salto qualitativo, ainda que nos últimos anos tenha sido moldado pelo governo como mera “porta de saída” para a verdadeira política inclusiva de pleno emprego (de Estado). Isto é, o PBF tem sido reduzido, pelo menos na estratégia, a um caráter assistencialista, aí sim, potencialmente neoliberal.

IHU On-Line – O que tende a substituir o ciclo progressista na região? Já vislumbra mudanças de substituição desse ciclo? Em que sentido?

Bruno Cava – Em termos eleitorais, na Argentina, Macri já substituiu Cristina Kirchner. No Equador e na Bolívia, coalizões de oposição ganharam prefeituras importantes, como El Alto (Chapetón Soledad), Quito (Mauricio Rodas) e Guayaquil (Jaime Nebot), embora seja provável que os presidentes desses países ainda guardem resiliência no poder, especialmente Evo. Na Venezuela e no Brasil, serão anos difíceis adiante para Maduro e Dilma exercerem o mandato com alguma eficácia, em meio às consequências dos limites de que falei antes. Ainda que, no caso do Brasil, o esgotamento aconteceu sem que fosse necessário trocar o mandatário, por dentro do próprio governo, com a adoção das premissas da oposição e, em alguns casos, mais conservadoras [42] .

Uma resposta simplória seria dizer: será substituído pela volta da direita neoliberal. É a resposta dos próprios intelectuais progressistas. Mas isto não tem nenhuma precisão, não estamos nos anos 1990, muita água passou debaixo da ponte, e vivemos um momento complexo de desconcertos e reorganizações. Parte da oposição não se encaixa na dicotomia noventista entre elites neoliberais e progressismo popular, e boa parte da população simplesmente não se vê representada nem na situação nem na oposição. Chapetón, por exemplo, é uma aimará que esteve nas barricadas da guerra do gás, em 2003; a figura de Rodas não tem como ser achatada às velhas lideranças conservadoras do Equador; e no Brasil temos ainda a Marina Silva, que se formou nas lutas de formação do PT e na religião, foi ministra de Lula e hoje exprime, a seu modo, uma via alternativa à polarização partidária [43]. Uma maneira de eliminar a complexidade seria enquadrar todas essas figuras como “novas direitas” [44], deitando-as na cama de Procusto.

Na Venezuela, Leopoldo López, atual prefeito de Caracas, é um preso político reconhecido pela Anistia Internacional [45] (se podem listar nervosamente 200 contudos, mas ele continua sendo um preso político), que vai completar dois anos no cárcere em fevereiro. Com a provável anistia que a assembleia nacional recém-eleita pode conceder, López vai emergir da prisão como representante da coalizão — e, possivelmente, do sentimento social crescente contra o regime — com uma legitimidade maior do que o líder tradicional da oposição, Henrique Capriles.

Até agora não despontou nenhum Pablo Iglesias (36 anos) ou Ada Colau (41), nem plataformas político-partidárias de novo tipo, como Podemos ou Barcelona em Comum. Ainda persiste com eficácia o jogo de polarização entre as forças na situação e oposição [46], o que na Espanha foi definitivamente embaralhado com o 15-M. No Brasil, diante do desencanto geral com a política representativa, o espaço para um choque geracional está sendo ocupado pelo grupo de procuradores e juízes à frente da operação Lava Jato, como Deltan Dallagnol (35 anos) ou Sérgio Moro (43), que gozam de uma popularidade transversal pela sociedade. Não é uma realidade a ser comemorada.

IHU On-Line – Você faz uma crítica à esquerda dizendo que ela fez uma salada russa de marxismo e hegelianismo e, no âmbito econômico, assume um tipo de keynesianismo. Que bases teóricas políticas e econômicas a esquerda deveria seguir para atuar de fato como esquerda, na sua avaliação?

Bruno Cava – Emir Sader publicou agora no começo do ano um artigo no Página 12 [47], jornal kirchnerista de Buenos Aires, em que ele pretende acertar contas com as críticas aos governos progressistas, às análises de um esgotamento. O texto é intitulado “Esquerda do século XXI”. Com todos os problemas e perplexidades de nossa situação, Emir investe contra o zapatismo de Chiapas, os piqueteros argentinos de 2001 e as “ultraesquerdas”, presumivelmente, movimentos e militâncias que não trabalham como funcionários dos governos. Ao longo dos anos 1990, ouvimos muitas vezes a máxima thatcherista de que não há alternativa (TINA doctrine), mas agora temos de ouvir essa mesma impugnação de um intelectual que se assume como farol continental das esquerdas progressistas — e no momento de pior depressão do ciclo. No artigo, Emir se compraz de estar do lado certo, das forças históricas concretas de transformação, mas talvez tenha se esquecido de todo o arco de lutas e mobilizações para além e, em última instância, francamente contra os governos progressistas, que têm se difundido pelo subcontinente.

Posições minoritárias, tendências alternativas e emergências parciais (e precárias) não têm sequer o direito de exprimir-se, para não fazer o jogo da direita, ou tornar-se o inimigo do Estado, sob as acusações de desestabilização, golpismo, terrorismo. Isto não é sequer maoísmo, em que quem faz a luta e nela pesquisa adquire o direito de falar. É mesmo o velho estalinismo, a aplicação da dialética hegeliana em que o poder maior efetivado encarna ipso facto a razão superior. E o intelectual enuncia-a. Não é por acaso que, na filosofia francesa dos anos 60 e 70, Hegel figure como codinome para Stálin. No artigo, a razão superior chama-se Esquerda, uma divindade que distribui espíritos de autoridade. Fora disso, seremos condenados irremediavelmente à “intranscendência” (?). É isto a que me referi ao falar na incapacidade de renovação. As mesmas categorias são marteladas sem dó e, caso resistam a adaptar-se às condições presentes, pega-se um martelo maior, como ensinava o general romano Lucius Opimius.

Keynes e a não crítica a Adam Smith

J.M. Keynes, a seu passo, é frequentemente mobilizado no interior da grande narrativa que, seis anos adentro na década de 2010, ainda se contenta em opor neoliberalismo e progressismo, e que, entre os economistas, os faz trocar deblaterações entre ortodoxos e heterodoxos. Tudo gira ao redor da noção pinçada de Adam Smith da “mão invisível”, se os mercados seriam autorreguláveis ou não. Dá-se a entender que a mão invisível de Smith seria uma força misteriosa capaz de equilibrar a economia, sem ingerência extraeconômica. Não é o caso. A “mão invisível” age segundo condições de contorno (políticas, jurídicas, civilizatórias) que devem ser construídas e mantidas de tal modo que a busca pelo interesse privado possa favorecer a lógica econômica, para que um mercado com liberdade, segundo este referencial, possa funcionar em primeiro lugar. Keynes não contesta, exatamente, Adam Smith — a quem chama “do maior de nossos economistas”, no prefácio à edição francesa da Teoria geral [48] —, mas as simplificações da Lei de Say, a teoria do valor de David Ricardo e os neoclássicos de seu tempo.

Keynes sofisticou as condições de contorno ao introduzir a do intervencionismo estatal, para induzir a demanda nos momentos necessários, sem o qual não é mais possível reequilibrar a economia, mitigar o desemprego involuntário e reagir com eficácia às espirais recessivas. O pano de fundo histórico é a crise de 1929, bem como a disseminação global de contrapoderes operários, que pressionam a taxa de lucro e contestam o poder de mando dos patrões. Diante disso, Keynes teoriza sobre a necessária coordenação entre empresários e governos para enfrentar a crise, o que, desdobrado na longue durée (o “longo amanhecer” de Furtado), nutrirá o desenvolvimentismo — e a sua recorrente aliança com os ditos empresários comprometidos com o crescimento. O Estado, no keynesianismo, é esse agenciamento macroeconômico entre público e privado, para reequilibrar os ciclos da crise, uma espécie de estado-capital que funciona bem a partir das inflexões do New Deal e de Bretton-Woods.

“O Estado, no keynesianismo, é esse agenciamento macroeconômico entre público e privado, para reequilibrar os ciclos da crise, uma espécie de estado-capital que funciona bem a partir das inflexões do New Deal e de Bretton-Woods”

Marx e a crítica a Adam Smith

Marx, diversamente, critica em Adam Smith diretamente a própria possibilidade de um equilíbrio. O que Keynes e Smith chamam de dinâmica equilibrada, para Marx é o próprio desequilíbrio normalizado. O capital não é um mecanismo econômico que pode ser permanentemente ajustado, como quem leva o carro a uma oficina para balancear e alinhar. O capital é uma montanha de violência e cansaço e funciona segundo relações sociais intrinsecamente desiguais. Essas relações não poderão se livrar da crise, na medida em que são assimétricas e exploratórias. Marx assume, então, o ponto de vista do polo operário (em sentido amplo, não só fabril) e, portanto, sua teoria sobre os ciclos da crise é, imediatamente, uma teoria dos ciclos de lutas [49]. O salário real (em sentido amplo, a renda do trabalho) não é neutro, como se fosse ainda outra variável, mas a pedra angular de toda dinâmica de poder no interior do sistema capitalista, relação de força, tensão entre classes.

A Teoria geral de Keynes visa a proteger o presente do futuro. O risco não é sermos comandados pelas gerações passadas, mas pelas futuras. Mesmo porque, “in the long run we are all dead” [no longo prazo estaremos todos mortos] . Existe uma verdade profunda nessa citação por vezes incompreendida de Keynes. As crises do capital vêm ao nosso encontro do futuro, porque é dele que o ciclo de valorização depende, seja para realizar o valor, seja para impulsionar o investimento. O futuro, para Keynes, é a catástrofe do capital, a grande depressão, a revolução russa. Para Marx, o desequilíbrio é constitutivo e a catástrofe abre a relação do capital para o porvir, a liberdade produtiva para além do emprego assalariado, o comunismo. O Estado keynesiano, em consequência, parece um guardião do estado-capital, sentinela à porta das crises. Com o duplo esgotamento da revolução russa, seja no o fordismo do pós-guerra, seja no estalinismo do socialismo real, não admira que por um tempo todos — Paul Krugman, Joseph Stiglitz e até Richard Nixon — tenhamos virado keynesianos. Isto não significa que não possamos ser outra coisa.

Limites do Estado

Na passagem do governo Lula para Dilma, a pressão contra a taxa do lucro levou a dois fenômenos concomitantes. De um lado, a concorrência horizontal entre empresários, cada vez mais vorazes com as margens de ganho e a ausência de critérios de que, só depois da Lava Jato, teremos a plena dimensão. Do outro lado, a dinâmica virtuosa de classe, que pressionou por ainda mais e melhor, em múltiplas dimensões (social, econômica, política), em suma, produção de subjetividade. Foi o que, desviando dos debates sociológicos ou politológicos sobre as “novas classes médias”, Hugo Albuquerque chamou da “ascensão da classe sem nome”, e que eu e Giuseppe chamamos de “lulismo selvagem” [51] — uma curva clinâmica em relação à reta progressista, desconhecida inclusive pelo teórico do lulismo [52]. A irrupção política da crise era, portanto, inevitável, em toda a sua ambivalência. O que fazer da crise é que era o caso. Nessa conjuntura, o governo não só tomou o partido da ordem contra as lutas de 2013 [53], como resolveu se impor, sem a correspondente mobilização — com mobilização contra — como dirigente dos empresários, no episódio relatado no artigo do André como “esboço desenvolvimentista”.

Acontece que o Estado, enquanto fetiche hegeliano, não é capaz de por si só conferir força, vis, à ação política em grande escala. Em razão dos limites e inflexões já discutidos, o resultado não poderia ser outro que não acelerar um esgotamento, vindo dos dois lados, a tempestade perfeita. Essa é ainda outra pista histórica que o Estado (ou o Mercado) não pode ser um passe-partout para preencher as lacunas de nossa análise.

IHU On-Line – Em que aspecto considera que a Coreia do Sul poderia ser um modelo para a América do Sul? Que aspectos do modelo político e econômico do país servem de exemplo para a América do Sul?

Bruno Cava – A Coreia do Sul é um case para ciência desenvolvimentista graças a ter conseguido, no segundo pós-guerra, dirigir estrategicamente os capitais acumulados com a exportação e combinar crescimento econômico hacia fuera e hacia dentro, com industrialização, distribuição de renda e inversões significativas na educação. O economista Ha-Joon Chang [54] costuma ser citado pelos desenvolvimentistas mais hardcore como teórico do subdesenvolvimento estrutural. Vale lembrar que, por trás do “grande salto” da Coreia, também funcionava um regime ditatorial, presidido por Park Chung-hee, um ex-colaboracionista da ocupação fascista japonesa. Evidentemente, a trajetória dos tigres asiáticos no século XX não tem como ser reproduzida na América do Sul, mas algumas analogias podem ser traçadas.

O giro geopolítico do subcontinente à Ásia não aponta apenas para a China, envolvida em megaprojetos que vão de uma base espacial na Patagônia argentina até a construção do canal transoceânico a partir da Nicarágua. Pablo Stefanoni escreveu um artigo sobre a “utopia coreana nos Andes” [55], em que explica como a chegada da Coreia nas cordilheiras não ocorre somente através de grandes marcas, como Samsung ou Hyundai. O articulista batiza de “Buen vivir made in Corea” a miscigenação entre a matriz existencial indígena e o foco em inversões das exportações de petróleo e derivados (mais de 50% do mix), em atividades de ciência e tecnologia, uma política estratégica de investimento do governo. Com Rafael Correia, o investimento no ensino superior superou 2% do PIB. É realmente uma escolha diferente do que o costumeiro apego desenvolvimentista à indústria dura de bens de capital.

O jornalista Bernardo Gutiérrez também tem acompanhado esse processo no Equador [56], tendo participado dos encontros da Flok Society, e cita os esforços do governo em desenvolver uma “economia do bem comum”. Em vez do pequeno país de economia dolarizada converter-se em paraíso fiscal, o caso é torná-lo um paraíso da tecnologia digital, do software livre, da ética hacker. A concessão de asilo a Julian Assange, ilhado desde agosto de 2012 na embaixada equatoriana em Londres, está inserida nesse contexto.

O problema é que se repetem as mesmas inflexões e limites dos governos progressistas de que falei, como o próprio Bernardo e Pablo apontam em suas análises [57]. O caso do parque de Yasuní foi apenas o mais visível, mas outras iniciativas do governo do Equador também chamam a atenção, como o fechamento da fundação Pachamama, pretensões vigilantistas da internet e a cisão em geral entre governo e movimentos indígenas, que lhe retiraram simbolicamente o bastão de mando outorgado em 2007 [58]. Como um dos antecedentes do levante de junho de 2015, em março, aconteceu uma passeata da Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador (Conaie) em que se lia “Fora China” em faixas e cartazes. Além da repressão, que inclui a prisão de ativistas sob a acusação de terrorismo, os manifestantes foram tachados pelo correísmo de “pelucones” e “aniñados”, as versões locais dos nossos “coxinhas” e “reaças” [59].

 

“Brizola já dizia que programa, se quisesse, mandava vir pelo correio”

IHU On-Line – Como você explica e compreende a atual crise de representação que se vive hoje? O que poderia resolver a crise de representação?

Bruno Cava – Em entrevista recente ao IHU [60], Marcio Pochmann diz que estamos vivendo reflexos da crise internacional, mas momentos como este são propícios para um novo pacto social e produtivo, para dar um “salto quase que inesperado”. Concordando com a segunda parte, eu perguntaria então qual é a força política organizada que reuniria a legitimidade necessária para esse New Deal? Sintomaticamente, o entrevistado começa a falar do PT. Marcio compara o PT ao Partido Comunista Italiano – PCI, que teria sido sempre “muito claro, ético, objetivo”, e que por isso preferiu manter-se como “partido de oposição”, sem jamais chegar ao governo, diferentemente do PT, que adotou outra postura. Eu até entendi o que ele quis dizer, mas na verdade o PCI chegou ao governo nos anos 1970 mediante o compromesso storico celebrado entre Berlinguer e Moro, uma coalizão entre o partido e a Democracia Cristã que decretou um estado de exceção de fato, a fim de encerrar a multiplicidade de lutas operárias, estudantis, de minorias e culturais da Itália pós-68. Ademais, avaliar que é preciso realizar reformas, mas “sem base”, é não dizer nada. Brizola já dizia que programa, se quisesse, mandava vir pelo correio. Um novo pacto social e produtivo, certamente, não virá do wishful thinking [pensamento positivo] da guinada à esquerda, da refundação do PT, de alguma boa consciência qualquer.

O que significa falar em sociedade?

Também não basta apenas invocar a sociedade como o sujeito político para protagonizar a transição. O que significa falar “sociedade”? Isso aparece, frequentemente, nas falas de Marina Silva, cuja inserção na conjuntura ainda carece de uma dinâmica organizativa material (de novo tipo). Corre-se o risco de cair no que Gigi Roggero [61] chama de “modelo Polanyi” (com referência ao economista húngaro Karl Polanyi), uma separação categorial entre sociedade, economia e Estado: a sociedade civil precisaria mobilizar-se para ocupar o Estado e torcer a economia a seu favor. Este esquema não leva em consideração como sociedade, Estado e economia estão inteiramente emaranhados, em sua genealogia e funcionamento. O Podemos também incorre nessa insuficiência, por exemplo, com a expressão “sociedade em movimento” [62], enunciada pelo seu porta-voz, Jorge Moruno. Por um lado, falar “sociedade em movimento” tem o mérito de contornar o conceito de “movimento social”, tateando por novas dinâmicas e processos sociais. Falar em “movimento social” como agente da mudança hoje está se tornando cada vez mais quimérico, devido à substituição da matriz de organização social da lógica vertical de bases/dirigentes por redes/hubs; por outro lado, não pode se tornar um antagonismo indeterminado.

Nova matriz civilizatória

Uma maneira de travar essa discussão sem se restringir à navegação de cabotagem é pensar não numa nova matriz econômica, mas numa inteira matriz política, antropológica, civilizatória, que esteja à altura dos desafios e antagonismos do século XXI. Isto significaria, por assim dizer, elaborar um pensamento econômico usando Oswald de Andrade, para superar os “entraves estruturais” de nosso positivismo metodológico. A revolução industrial instituiu o capitalismo globalmente, a mediação do salário como medida do trabalho realizado pelo trabalhador. Ao redor da relação salarial, se organizaram o direito, a cidade, o Estado. Para responder à revolução russa e à grande depressão, o New Deal do fordismo-keynesianismo inventou o “salário social”, que é parte conquista das lutas, parte acomodação do devir revolucionário. A relação remodelada do capital carrega consigo essa ambivalência constitutiva.

O welfare sintetizou a pretensão de reequilibrar a crise por meio do estado-capital, do intervencionismo planificado, e funcionou por trinta anos nos países ocidentais (Brasil fora). Na década de 1970, outra virada levou ao pós-fordismo e à globalização financeirizada, momento em que o welfare dos países desenvolvidos iniciou um processo de lento desmanche. A virada pós-fordista significou a afirmação de um regime de crise permanente, possibilitado pela capacidade de não precisar mais forjar um equilíbrio macroeconômico pela via do intervencionismo estatal e da dinâmica salarial. Com a financeirização da vida, passa-se a governar no próprio desequilíbrio, na fragmentação social mesma. Não mais crise do capitalismo, mas capitalismo de crise. O resultado disso é uma interpenetração entre lucro e rentismo, invalidando o antigo esquema braudeliano que explica as crises pela dialética entre economia real e economia financeira [63].

Desenvolvimentismo na América do Sul: de um lado Gramsci, de outro o ibope

Daí emergiram novos ciclos de lutas, afrontando as estruturas dos velhos partidos operários ou socialistas, das centrais sindicais “duras”, e que pararam de fiar-se nas dicotomias da era fordista: maio de 68, black power, movimentos LGBT e feministas, lutas anticoloniais, ambientalistas, indigenistas, zapatismo, alterglobalização, digitais, hackers, revoluções árabes, 15M, Occupy, Turquia, Brasil, Ucrânia, Hong Kong. O que está em disputa, hoje, não é mais um welfare, indexado ao fordismo industrialista e suas disciplinas de produção, um parâmetro da relação de emprego e cidadania que foi contestado pelas próprias lutas locais e globais. Mas um commonfare, um “salário do comum”, atrelado à produtividade no tecido conjuntivo das redes materiais e digitais. Não é que se resume a uma posição movimentista ou utópica, mas à construção de instituições do comum ao redor da renda para todos, como remuneração pela participação de cada um na produção e riqueza. O PBF e os PdC, no Brasil, deram pistas de um caminho possível, que pode ser radicalizado. E tal “programa”, necessariamente em aberto, não tem como ser limitado ao horizonte nacional, onde na América do Sul o desenvolvimentismo ainda é o nec plus ultra [64] — além de um imaginário setentista nacional-popular, numa mão tem Gramsci e na outra o ibope. Depende, sobretudo, de uma articulação global, da capacidade de reforçar as linhas de contágio e interação entre os vários focos do presente ciclo de lutas, em seu desentendimento mesmo.

Os indígenas do Xingu conversam com os quéchuas do Altiplano que conversam com os sioux do norte, as acampadas de Barcelona se conectam com a Praça Tahrir, com a Cinelândia e as assembleias do Maranhão; os ecologistas de Istambul se misturam com as minorias curdas, os imigrantes formam seus comitês de solidariedade e ocupamos juntos, gradualmente, praças, redes, espaços políticos. Para falar como os levellers do século XVII, “não ignorar a importância da terra, mas não se limitar a derrubar as enclosures, dentro das cercas onde ovelhas devoram homens, onde homens são criados para servir” [65]. A campanha é pela plenitude da liberdade e, diante do capitalismo, também é solidão, deserto. É esse o tamanho do desejo que não está representado, e da indignação que tem atiçado as lutas.

Por Patricia Fachin

Notas do entrevistado.

[1] “Lo nacional popular y los populismos realmente existentes”, Juan C. Portantiero y Emilio De Ipola, Revista Nuova Sociedad, 1981. http://nuso.org/articulo/lo-nacional-popular-y-los-populismos-realmente-existentes/

[2] “A ascensão selvagem da classe sem nome”, Hugo Albuquerque, 2012. http://descurvo.blogspot.com.uy/2012/09/a-ascensao-selvagem-da-classe-sem-nome.html Destaco a passagem: “(…) aquilo que o Lulismo fez desejar contrariou as regras postas, as determinações eternas, o estatuto do controle do desejo tal como compreendido, mas também as regras que a esquerda brasileira estipulou para fazer a revolução; sua existência desejante – e mais do que isso, seu devir-desejante – contraria o estatuto da dialética Casa Grande/Senzala.” Desejo, aqui, não tem a concepção psicanalítica de falta do objeto, mas de positividade (como no “Anti-Édipo”, de Deleuze e Guattari), o desejo é imediatamente implicação num modo de vida mais produtivo, potente, amoroso.

[3] Por exemplo, a paçoca do subproletariado como base social do lulismo: “Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador”, André Singer, 2012 (frise-se que a metodologia do autor, baseada em resultados eleitorais e faixas de renda é, para dizer o mínimo, hipermetrope). Sobre a crítica moral do “modelo de consumo” (geralmente oposto à educação, ao Estado, à politização), com insinuada impostação elitista, “A inclusão social pelo consumo”, Renato Janine Ribeiro, 2014, http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed783_a_inclusao_social_pelo_consumo/ ; e “A vocação literária de Frei Betto”, entrevista à Revista Cult, 2015. Destaco: “um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política”, http://revistacult.uol.com.br/home/2015/05/a-vocacao-literaria-de-frei-betto/ Boa crítica da crítica do consumismo, em “Da fome à vontade de comer: a mais-valia da vida”, Rodrigo Guerón, Revista Global Brasil n.º 8, p. 40, 2011. http://blogs.cultura.gov.br/culturaepensamento/revistas/revista-%20%20global-n%C2%BA8/

[4] “Chavismo, Guerra Fría y visiones ‘campistas’”, Pablo Stefanoni, Rebelión, 2013. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=165376 No caso brasileiro, uma pesquisa empírica importante, realizada por um mutirão de sociólogos, conforme Jessé de Souza, em “Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?”, 2ª ed., 2012; embora a apressada tipologia de inspiração weberiana e a análise do capitalismo sem levar em conta a produção de subjetividade terminem por levar o autor a depreender conclusões políticas insuficientes (em que seja elogiável a iconoclastia contra os imortais da pauliceia acadêmica). Boa crítica por Giuseppe Cocco em “Nova classe média ou nova composição de classe”, Revista Lugar Comum n.º 40, 2013. http://uninomade.net/lugarcomum/40/ e minha própria resenha sobre o livro, no mesmo número da revista (idem o link). Cocco traça a análise do ciclo progressista com base no ferramental operaísta da composição de classe em seu “KorpoBraz; por uma política dos corpos”, Mauad, 2014.

[5] “Junho no Equador e o correísmo”, Bruno N. Dias, 2015; http://uninomade.net/tenda/junho-no-equador-e-o-correismo/ ; e “¿Por qué protestan en Ecuador? “, Pablo Ospinta Peralta, 2015; http://nuso.org/articulo/por-que-protestan-en-ecuador/

[6] Data venia: “Consumitariado”, blogue autoral, 2011, http://www.quadradodosloucos.com.br/tag/consumitariado-anti-consumismo/; e “É preciso consumir mais”, blogue autoral, 2012, http://www.quadradodosloucos.com.br/3070/e-preciso-consumir-mais/

[7] Sobre a tecnopolítica e a subjetividade em rede, como tendência incontornável na América Latina, por todos, recomendo acompanhar o blogue antenado do jornalista Bernardo Gutiérrez: http://codigo-abierto.cc/ (no tuíter: @bernardosampa).

[8] “Hugo Chávez y el mundo árabe”, Laetitia Chesseron, Revista de Ciência Política (Teoria Política e História), n.º 24, 2015. http://www.revcienciapolitica.com.ar/num24art4.php

[9] “Imagens e anacronismos; a questão do demos entre o 2001 argentino e o 2013 brasileiro”, Ariel Pennisi, Revista Lugar Comum n.º 45, 2015. http://uninomade.net/lugarcomum/45/

[10] “Amanhã vai ser maior; o levante da multidão no ano que não acabou”, Bruno Cava e Giuseppe Cocco (org.), ed. AnnaBlume, 2014.

[11] Sobre o esgotamento do ciclo, “Nada volverá a ser igual en América Latina”, Raúl Zibechi, 2015; http://www.aporrea.org/actualidad/a220180.html. “Notas sobre el agotamiento del ciclo progresista latinoamericano “, Gerardo Muñoz, 2015; https://infrapolitica.wordpress.com/2015/10/29/notas-sobre-el-agotamiento-del-ciclo-progresista-latinoamericano-gerardo-munoz/. “O fim da narrativa progressista na América Latina”, Salvador Schavelzon (trad. Silvio Pedrosa), 2015; http://uninomade.net/tenda/o-fim-da-narrativa-progressista-na-america-latina/.

[12] “O esgotamento kirchnerista”, Salvador Schavelzon, 2015, http://uninomade.net/tenda/o-esgotamento-kirchnerista/.

[13] “La nueva derecha andina”, Pablo Stefanoni, 2015. http://www.revistaanfibia.com/cronica/la-nueva-derecha-andina/

[14] “Venezuela: el ocaso de los ídolos”, Pablo Stefanoni, 2015. http://lalineadefuego.info/2015/12/08/venezuela-el-ocaso-de-los-idolos-por-pablo-stefanoni/

[15] “En 34 días cambió el panorama político”, Estefanía Celi R., 2015. http://www.elcomercio.com/actualidad/34-dias-cambio-panorama-politico.html

[16] “Secom dice que renuncia de Rafael Correa a la reelección es por motivos políticos”, AFP, 2015. http://www.eluniverso.com/noticias/2015/11/27/nota/5264640/secom-dice-que-renuncia-rafael-correa-reeleccion-es-motivos

[17] No Rio de Janeiro, a inflexão do governo Lula começou em 2008, com o pacto “desde cima” pelo Rio de Janeiro disparando os projetos de construção civil e urbanísticos de Eduardo Paes e do governo federal, segundo um consenso das três esferas pela “pacificação” dos pobres e remoção da pobreza, turbinadas pela sequência de megaeventos (Rio+20, Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas). À época, se dizia que o Rio de Janeiro era um ponto fora da curva, o que, no governo Dilma, na realidade se mostrou a própria inclinação da curva. Não por acaso um dos últimos redutos partidários dilmistas – , por exemplo, contra o impeachment, – esteja baseado no PMDB do Rio. Conforme a última entrevista de Cocco ao IHU On-Line: “Toda a representação está num impasse”, 2016; http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/550482-toda-a-representacao-esta-num-impasse-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco. Sobre as dimensões ecocidas, um outro ponto irreversível de inflexão do progressismo, a já canônica compilação por Idelber Avelar: “Bibliografia comentada: 50 leituras sobre o ecocídio de Belo Monte, 1ª parte”, 2011; http://www.revistaforum.com.br/idelberavelar/2011/11/24/bibliografia-comentada-50-leituras-sobre-o-ecocidio-de-belo-monte-1%C2%AA-parte/. Ver também a dupla entrevista sobre genocídio indígena, com Moysés Pinto Neto e Helena Palmquist, ao IHU On-Line, 2014; “A incansável denegação do genocídio e o índio inexistente”, http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/534176-a-incansavel-denegacao-do-genocidio-e-o-indio-inexistente-entrevista-especial-com-moyses-pinto-neto-e-helena-palmquist.

[18] Por todos, “A economia política do novo desenvolvimentismo”, Pedro Paulo Zaluth Bastos, 2012. http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=5283. Marcos Nobre, em “Imobilismo em movimento; da redemocratização ao governo Dilma” (Cia. das Letras, 2013), também aposta no social-desenvolvimentismo. O termo já havia sido usado pelo então ministro da economia Guido Mantega, em 2007. “Brasil entrou no novo ciclo econômico do social‑desenvolvimentismo”, Valor Online, 2007. http://oglobo.globo.com/economia/brasil-entrou-no-novo-ciclo-economico-do-social-desenvolvimentismo-avalia-mantega-4156829

[19] “O primeiro ano da nova matriz econômica”, Guido Mantega, Valor econômico, 2012. http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-primeiro-ano-da-nova-matriz-economica-por-mantega. Anunciada pomposamente pelo governo Dilma, hoje a “nova matriz” parece ter virado um filho feio, de ninguém mais reivindica paternidade.

[20] “Cutucando onças com varas curtas – o ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-14)”, Novos Estudos, 2015. http://novosestudos.uol.com.br/v1/contents/view/1604

[21] Tracei um debate triangular entre o cinema de Glauber, a crítica de Roberto Schwarz e a copesquisa autonomista de Eder Sader (não confundir com o irmão), no artigo “De derrota en derrota hasta la organización”, em “Imágenes del pueblo”, Adrián Cángi (org.), Quadrata, 2015.

[22] “Dilma errou ao seguir a ‘agenda Fiesp’”, Laura Carvalho, 2015. http://brasildebate.com.br/critica-renovada/

[23] Por exemplo, criticando a dita “reprimarização” da economia desde o primeiro governo Lula, “A dependência redobrada”, Leda Maria Paulani, 2012. http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1219 Destaco: “(…) do que como uma verdadeira indústria, capaz de produzir valor agregado e andar em linha com o desenvolvimento tecnológico mundial.”

[24] “Working Paper: Growth and Distribution in Brazil”, Laura Carvalho e Fernando Rugitsky, 2015. http://lauracarvalho.org/portfolio/working-paper-growth-and-distribution-in-brazil/ A modelagem neokaleckiana também foi usada pelo atual ministro, para analisar ciclos induzidos pela taxa de salário ou de lucro, na série histórica dos EUA: “Distributive and demand cycles in the USA economy – a structuralist Goodwin model”, Nelson Barbosa Filho e Lance Taylor, 2006. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1467-999X.2006.00250.x/abstract

[25] O texto-chave de M. Kalecki é “Political aspects of full employment”, 1942. http://mrzine.monthlyreview.org/2010/kalecki220510.html apud “Buying time; the delayed crisis of democratic capitalism”, Wolfgang Streeck, ed. Verso, 2015.

[26] Wolfgang Streeck, op. cit.

[27] Desenvolvi esse argumento em “Podem os governos progressistas sobreviver ao próprio sucesso?”, 2016. http://www.quadradodosloucos.com.br/5106/podem-os-governos-progressistas-sobreviver-ao-proprio-sucesso/

[28] Por isso que, além de Keynes ou Kalecki, a linha de fuga dos impasses continua sendo Marx. As ilusões keynesianas dos trente glorieuses alimentaram a utopia que, em posse de uma caixa macroeconômica de ferramentas e vontade política, seria possível regular o capitalismo de maneira a torná-lo uma máquina de prosperidade. Isto aconteceu, em menor medida, também no governo Lula, de maneira que muitos economistas se perguntam o que deu errado (cf Streeck, op. cit.). Nesse cânon, a atual crise chinesa pode trazer mais uma desilusão semelhante. Mas precisamos acrescentar ainda: isto não significa que os governos progressistas não foram esquerdistas o suficiente, porque o socialismo real também fracassou em sua promessa de salvar o capitalismo de suas crises, superando dialeticamente a instabilidade mediante uma racionalidade superior do desenvolvimento, um dirigismo mais técnico, realizando assim o progresso que, no capitalismo, seria apenas ideologia. Estamos pensando aqui, sim, em um Marx além Marx, um marxismo contra capitalismo e socialismo, como em “Marx além Marx”, Toni Negri, 1979 (tradução no prelo pela ed. Autonomia Literária), que se propõe a escrever o livro planejado, mas nunca escrito por Marx sobre o salário como subjetividade. Situando na conjuntura brasileira, ver “O capital que neutraliza e a necessidade de outra esquerda”, entrevista com Giuseppe Cocco ao IHU On-Line, 2015. http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6019&secao=468

[29] “Maior número de greves na história recente: primeiras hipóteses lendo os dados do DIEESE”, Leandro Lanfredi. http://www.esquerdadiario.com.br/Maior-numero-de-greves-na-historia-recente-primeiras-hipoteses-lendo-os-dados-do-DIEESE

[30] Todos os trechos entre aspas de “Entre inconformismo e reformismo”, Celso Furtado, 1989. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141990000100013

[31] Laura Carvalho e Fernando Rugitsky, op. cit. Concordo porque também já havia chegado à conclusão semelhante, por exemplo, em “O lastro da crise: peemedebismo é a lógica que sustenta o PT”, Revista IHU On-Line, n.º 461, 2015. http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5828&secao=461

[32] “Do Ensaio Desenvolvimentista à austeridade: uma leitura kaleckiana”, Fernando Rugitsky, 2015. http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FDo-Ensaio-Desenvolvimentista-a-austeridade-uma-leitura-Kaleckiana%2F7%2F33448. Ver também a entrevista com Mansueto Almeida pelo Jornal do Commercio, “Não acredito em desenvolvimento por decreto”, 2015. http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/economia/nacional/noticia/2016/01/03/nao-acredito-em-desenvolvimento-firmado-por-decreto-diz-mansueto-almeida-214955.php

[33] “O bebê, a água e a bacia”, Laura Carvalho, 2015. http://www.zedirceu.com.br/o-bebe-a-agua-e-a-bacia/

[34] “Cidadania insurgente; disjunções da democracia e da modernidade no Brasil”, James Holston, Cia. das Letras 2015. “Quando novos personagens entram em cena; experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-80.”, Eder Sader, 1988.
[35] “De que Ana de Hollanda tem medo?”, Bruno Cava, Cultura & Mercado, 2011. http://www.culturaemercado.com.br/site/pontos-de-vista/de-que-ana-de-hollanda-tem-medo/

[36] “A barata branca do Calatrava e o passado”, J. P. Cuenca, 2016. http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopaulocuenca/2016/01/1724974-a-barata-branca-do-calatrava-e-o-passado.shtml?cmpid=twfolha

[37] “Dois projetos para uma metrópole do conhecimento”, Bárbara Szaniecki e Geo Britto, Outras Palavras, 2010. http://outraspalavras.net/posts/rio-dois-projetos-para-uma-metropole-conhecimento/

[38] “Por um Brasil menor” foi o mote dos dez seminários do ciclo de colóquios realizados em parceria da Casa de Rui Barbosa e da Universidade Nômade, ao longo de 2014. O menor, aqui, não deve ser entendido como pequeno ou local, mas como molecular, propagatório, epidêmico.

[39] “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, J.M. Keynes, Saraiva, 2013. p. 116.

[40] “Our situation is Quixotic and Machiavellian”: an interview with Podemos’ Jorge Moruno, OpenDemocracy, 2015. https://www.opendemocracy.net/can-europe-make-it/carlos-delcl-s/our-situation-is-quixotic-and-machiavellian-interview-with-podemos. Destaco: “So we are rethinking work beyond employment. As the volume of work overwhelms our ability to create employment, wealth seeps through the hinges of the twentieth century labor market. What we see now, following André Gorz, are two competing designs of society in a dispute for power over time. One proposes that we carry out an array of activities that are submitted to the market’s moods and a life of precarity. The other proposes that we carry out multiple activities during the time we have for life liberated from the constraints of capital. This would mean that everyone works, works less, in different ways, innovating more and living better. Thus, a basic income would be one of the possible pillars of welfare in the 21st century, as the reverse of the debt economy.”

[41/ “Biorrenda e mobilização produtiva”, Giuseppe Cocco, Le Monde Diplomatique Brasil, 2007. http://diplo.org.br/2007-12,a2113

[42] “O golpe no Brasil já aconteceu”, Bruno Cava, OpenDemocracy, 2015. https://www.opendemocracy.net/democraciaabierta/bruno-cava/o-golpe-j-aconteceu

[43] Em 17 de setembro de 2014, estive na audiência de uma fala de Marina na escola de cinema Darcy Ribeiro (a candidata Dilma fez seu evento no Teatro Oi Casagrande), no Rio, em meio à campanha do primeiro turno da eleição presidencial, em que ela se identificava como “velha política”. Na ocasião, disse que desde junho de 2013 o Brasil experimentava “a afirmação de um novo sujeito político” e que, paulatinamente, toda a classe política deveria ser renovada. Apresentava-se, portanto, antes como “figura de transição” do que propriamente uma salvadora da pátria, num “interregno” até a organização de uma nova política. Fiquei particularmente surpreendido com a consistência e a atualidade da fala de Marina, bastante melhor do que as últimas a que tinha assistido de Lula. https://www.youtube.com/watch?v=djBETKovAi8

[44] “¿Qué hay de nuevo en las ‘nuevas derechas’?”, Verónica Giordano, 2014. http://nuso.org/articulo/que-hay-de-nuevo-en-las-nuevas-derechas/ E “La nueva derecha andina”, Pablo Stefanoni, 2015. http://www.revistaanfibia.com/cronica/la-nueva-derecha-andina/

[45] “Venezuela: A única resposta responsável à crise são os direitos humanos e o Estado de direitos”, Guadalupe Marengo, Anistia Internacional, 2015. https://anistia.org.br/venezuela-unica-resposta-responsavel-crise-sao-os-direitos-humanos-e-o-estado-de-direitos/

[46] “As manifestações dos dias 13 e 15 de março. Polarizações desérticas.”, entrevista com Marcelo Castañeda ao IHU On-Line, 2015. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/540582-crise-politica-brasileira-da-ideia-de-golpe-ao-fortalecimento-do-menos-pior-entrevista-especial-com-marcelo-castaneda

[47] “La izquierda del siglo XXI”, Emir Sader, 2016. http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-289505-2016-01-04.html

[48] “Preface to the french edition of The General Theory of Employment, Interest and Money”, J. M. Keynes, ed. Project Gutenberg, 1939, p. 17. Nos Capítulos 23 e 24, Keynes discordará diretamente de A. Smith, por entender que ele não foi claro quanto ao rechaço do rentismo improdutivo.

[49] Conforme Antonio Negri, op. cit. Ver também “Revolution retrieved; writings on Marx, Keynes, capitalist crisis and new social subjects (1967-83)”, Antonio Negri, Red Notes, 1988.

[50] “A Tract on Monetary Reform”, J.M. Keynes, capítulo 3, [1923].

[51] “A ascensão selvagem da classe sem nome”, Op. cit. Versão desenvolvida em “Becoming Brazil: the savage rise of the classe without name”, Hugo Albuquerque, South Quarterly, 2014, 113 (4). http://saq.dukejournals.org/content/113/4/856.abstract. “Queremos tudo: as jornadas de junho e a constituição selvagem da multidão”, Giuseppe Cocco e Bruno Cava, 2013, http://uninomade.net/tenda/queremos-tudo-as-jornadas-de-junho-e-a-constituicao-selvagem-da-multidao/. E também “When lulism gets out of control”, Bruno Cava, South Quarterly, 2014, 113 (4). http://saq.dukejournals.org/content/113/4/846.abstract.

[52] “A misteriosa curva da reta lulista”, Bruno Cava, blogue autoral, 2014. http://www.quadradodosloucos.com.br/4751/a-misteriosa-curva-da-reta-lulista/

[53] “O PT se reduziu a um partido da ordem e pela ordem?”, editorial Universidade Nômade, Revista Lugar Comum n.º 40, dezembro de 2013. http://uninomade.net/lugarcomum/40/

[54] “Kicking away the ladder”, Ha-Joon Chang, Anthem, 2002.

[55] “La utopía coreana nos Andes”, Pablo Stefanoni, Rebelión, 2013. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=171279

[56] “Ecuador pone a rumbo a la economia del bien comun”, Bernardo Gutiérrez, blogue autoral. http://codigo-abierto.cc/ecuador-pone-rumbo-a-la-economia-del-bien-comun/

[57] Um trabalho de fôlego que problematiza a resolução de tensões entre governos e movimentos no Equador e Bolívia, na direção do projeto desenvolvimentista, é o livro de Salvador Schavelzon: “Plurinacionalidad y Vivir Bien/Buen Vivir; dos conceptos leídos desde Bolivia y Ecuador post-constituyentes”, CLACSO, 2015. Ver, também, “O Buen Vivir, uma oportunidade de imaginar outro Mundo”, Alberto Acosta, br.boell.org/sites/default/files/downloads/alberto_acosta.pdf
[58] “CONAIE retira bastón de mando al presidente Rafael Correa”, Ecuador Noticias, 2011. http://www.ecuadornoticias.com/2011/04/conaie-retira-baston-de-mando-al.html

[59] “America Latina cambia de piel”, Bernardo Gutiérrez, blogue autoral. http://codigo-abierto.cc/america-latina-cambia-de-piel/

[60] “O modelo desenvolvimentista é um projeto inconcluso”, entrevista com Marcio Pochmann pelo IHU On-Line, 2015. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/547577-o-modelo-desenvolvimentista-e-um-projeto-inconcluso-entrevista-especial-com-marcio-pochmann

[61] “Cinco teses sobre o comum”, Gigi Roggero, Tradução de Silvio Pedrosa, Revista Lugar Comum n.º 42, 2014. http://uninomade.net/lugarcomum/42/

[62] “Our situation is Quixotic and Machiavellian”, op. cit.

[63] “A crise da economia global”, Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra, Record, 2011. Ver também “A morte da democracia e a farsa neoliberal da moeda”, entrevista com Andrea Fugalli pelo IHU On-Line, 2015. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/546918-a-morte-da-democracia-e-a-farsa-neoliberal-da-neutralidade-da-moeda-entrevista-especial-com-andrea-fumagalli; e “O capital que neutraliza e a necessidade de outra esquerda”, entrevista com Giuseppe Cocco pelo IHU On-Line, 2015. http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6019&secao=468

[64] A situação é zizekiana, é preciso jogar não a água suja, mas tirar o bebê que suja a água. É preciso levar ao pé da letra o pessimismo alegre de Celso Furtado nos anos 1970, para quem o desenvolvimento não passa de um mito.

[65] “Spinoza atlantico”, Augusto Illuminati, ed. Ghilbi, Milano, 2008, p. 15.

SITES

[texto original]

The annual list of the ten best planning, design, and development websites, representing only some of the top online resources for news, information, and research on the built environment.

Every yearPlanetizen recognizes ten websites as the best online resources for urban planning, design, and development.

When Planetizen first began compiling lists of top websites in 2002, we included 50 websites on the list. Even with that many sites on the list, the collection offered very little of the variety and innovation available online in 2015.

In 2015, the Internet includes apps in addition to websites, enabled by additional layers of technology, like the Cloud, smartphones, and GPS. Websites today include sub-genres like crowdsourcing, crowdfunding, social media, and data viz, in addition to the traditional news and institutional sites. Meanwhile news and institutional sites can often be found using the technologies of crowdsourcing, crowdfunding, social media, and data viz. Excellence online in 2015 isn’t always a radical new technology or tool—sometimes it’s a well chosen blend of the many possibilities available.

After collecting nominations from readers and staff, the Planetizen editorial staff selected the “2015 Top Websites” list based on a common set of criteria, including content, design, and usability, choosing ten websites representing a variety of uses and focuses. We’ve listed the websites alphabetically, not in order of rank.

Chicago Cityscape

Not all systems for tracking development and planning are created equal, but they all have some catching up to do compared to the example set by Chicago Cityscape. For the uninitiated, the website offers access to open data on building permits—providing tangible evidence about how the neighborhoods of Chicago are changing. Chicago Cityscape relies on a simple design to present copious amounts of open data—from renovations to demolitions to violations and more. Searching a specific property also produces information on Census tracts, planning and zoning overlays, and neighborhood info. Much of the data available on the site requires a subscription to access, but a quick poke around the free version of the site is all it takes to see the tremendous power of open data to provide access to information about the development process.

City Observatory

City Commentary, the blog and news analysis feed on the City Observatory website has achieved something truly rare in the planning and urbanism media landscape: every single post is essential reading. Well argued and well researched—City Observatory has become one of Planetizen‘s most trusted sources for reasoned perspective on the news and ideas of contemporary times. The kinds of urbanists that could benefit from the knowledge shared on City Observatory: advocates, policy makers, journalists, students, and citizens. That’s just about everyone, right?

Civic Crowdfunding Sites ioby and Neighborly

We stretched the rules a little on this one and acknowledged two websites—both examples of crowdfunding but each with a significantly different approach.

Neighborly provides access to public finance by connecting users to municipal bonds—that critical mechanism for capital investment that sums to a market of $3.7 trillion. The big idea: in choosing specific municipal bonds for investment, people also choose causes to support (like education or infrastructure).

By contrast, ioby works more the well known model found on Kickstarter—users present a project for fundraising and the public can decide a level of support for the project. Because projects are civic in nature, ioby has proven to have beneficial effects for local efforts of placemaking and community building. If you’re looking for more on ioby and Neighborly, an article by Bloomberg Business highlights both.

Esri Story Maps

Few technology companies are as essential to the practice and study of planning as Esri, makers of, among many other things, ArcGIS. Esri Story Maps offers a free, easy-to-use tool for creating effective, visual stories. By offering Story Maps with free access, Esri leverages its significant firepower in the world of mapping into the world of storytelling, creating a welcome and valuable addition to the toolbox of anyone who cares about places, the planet, or people. For an example of the power of the platform, check out the “Atlas for a Changing Planet,” created by the Esri Story Maps team on the occasion of the United Nations Climate Summit. Bright, interactive, engaging, imaginative—the possibilities for Story Maps are as boundless as the world itself.

Greater Places

Built on the premise that communities need new types of resources for design, Greater Places provides “organized, visual examples, networked communities of peers and great ideas…” Think of Greater Places as a compendium of case studies, ranging in subject from plan making, resilience, equitable development, street design, water, and many more. While the Greater Places website is in itself a tremendous resource worthy of this list of best websites, Greater Places also deserves credit for creating a new level of conversation as one of the creators of Cards Against Urbanity and a forthcoming planning game.

Social Media Sites Pinterest and Instagram

It’s impossible to stress the importance of thinking beyond the confines of an organization’s official platform for the benefits of the Internet. Social media integration has a been a buzzword for a long time, especially for planners and designers faced with the daunting tasks of pitching projects to the public, but obviously some have done a better job of others of rising above the noise and clutter of the contemporary social media landscape. Two platforms in particular have shown a surprising knack for facilitating better planning and design understanding: Instagram and Pinterest.

Instagram is well acknowledged for its celebration of the visual delights of all kinds of environments—from rural to urban and international to domestic. The city of Mobile, Alabama took the platform a step further, using the app’s geotagging function to create an initial database of blighted and vacant properties. In effect, Instagram provided a cheap and easy tool that made it much easier to take the initial tentative steps in a large planning effort.

The power of Pinterest is exemplified by Slow Ottawa’s Pinterst page, which gathers and presents ideas about how to improve planning and design outcomes. Slow Ottawa’s Pinterest board includes visual presentations of ideas for streets for everyone, street furniture, hydrology, and even planning failures. Pinterest is so well suited for organizations looking for an accessible, cheap, and sharable platform for ideas—it’s a wonder we don’t see more doing it.

Streetmix

For a “side project” by a group of 2013 Code for America fellows, Streetmix has managed to attract a lot of attention from Planetizen readers. Streetmix allows site visitors to “design, remix, and share” street ideas, by providing an interactive street diagram easily manipulated by dragging and dropping and pulling and removing. The menu includes car lanes, bike lanes, landscaping, bus lanes, bus shelters, and rail transit. Streetmix earns its place on this list for seamless functionality as well as broad appeal: it’s easy to imagine the use of Streetmix as a tool for academic instruction, outreach, and advocacy (and we’ve already noticed Streetmix-created diagrams popping up all over the web), and also as a habit-forming and entertaining tool for seasoned urban designers.

Strong Towns

Mainstream media outlets have noticed, as have we at Planetizen, how successful Charles Marohn has become at spreading the gospel of Strong Towns. Strong Towns is one of the few essential reads focused on planning, offering unwavering excellence in advocacy, reportage, and rhetoric. Not to mention that the annual #BlackFridayParking event is a model of online engagement. If you’re looking for a gold standard of presenting and supporting ideas about how to improve the built environment: Strong Towns is it.

Surging Seas

Climate Central created an interactive map to illustrate the catastrophic threat to coastal communities presented by sea level rise. Even oil companies agree that we will have to prepare for rising sea levels—this tool just shows you how difficult a challenge that represents. A quick tour around the United States using the Surging Seas interactive map is all it take to see that it will take a larger project than anything humans have imagined thus far to stem this tide. Surging Seas provides more than just a scare tactic, however, deriving its power from information instead of fear. The website provides several different tools for risk identification and reduction, additional layers of data, like population, income, and ethnicity, to create a holistic picture of the challenge, and, finally, a constant reminder that the coastal environment of the future will be a result of the choices we make now.

WALKScope

WALKscope is the rare example of crowd-sourced public engagement that actually works. WalkDenver and PlaceMatters created the platform to engage the public in gathering information about the pedestrian environment in Denver. The color-coded map that results from all this collaboration quickly and clearly identifies the gaps in the pedestrian network. Unlike many platforms with similar goals, WALKscope is well-trod: 6,717 sidewalk quality reports populate the map, along with 1,817 intersection quality reports, and 227 pedestrian counts. The information is visible at specific locations as well as in the aggregate for the city. Not that anyone needs another reason to visit the beautiful city of Denver—but using this app to contribute to this cause seems worth a trip.

THE PROBLEM OF SELF-ORGANISING

[texto original]

Michael Hardt is an American literary theorist and political philosopher best known as co-author, with Antonio Negri, of the influential trilogy EmpireMultitude and Commonwealth. He recently sat down with ROAR editor Jerome Roos to talk about the question of organization, the idea of social unionism and the challenges and opportunities for the movements today.


ROAR: This fall marked the fourth anniversary of Occupy. In hindsight, the movement appeared like a kind of flash mob: it took everyone by surprise when it first arose, and then it quickly dissipated back into the social fabric. What do you think is the reason for this? And what is the main challenge that movements face in moving beyond this initial phase of mobilization?

Michael Hardt: I have two contradictory things to say on this. The first is that it is important to recognize all the lasting effects of Occupy: the way it transformed a very wide sector of public opinion in the United States, the way it rendered visible the situation of inequality, the role of finance, and so on. In some ways Occupy profoundly transformed economic common sense in the United States.

Events like Occupy also leave traces in the activist memory, so that the next moment always takes up where the last one left off. So it’s not simply a flash that’s then forgotten, but rather like a leap that then, after a moment of pause, takes off again with another leap from that new space. So, on the one hand, I think it’s important to articulate the profound and lasting effects of Occupy in a country like the US, and of similar movements elsewhere.

One of the most important challenges facing social movements today is how to construct continuity in time and also continuity or extension in space.

On the other hand, and maybe this is the contradictory nature of what I was going to say, I do think that one of the most important challenges facing social movements today is how to construct continuity in time and also continuity or extension in space. The restriction on Occupy has not only been temporal, in that the encampments only lasted a few months, but it has also been spatial and social —in that the occupation of a square for a few months is not like occupying the whole city, let alone the national space.

This question of expansion—also of social expansion—is one of the things that struck me when talking with activists in Turkey on the one-year anniversary of the Gezi Park encampment. Despite the fact that there were quite a few different social components involved in the movement in cities throughout Turkey, Gezi didn’t have that kind of expansion that would extend to traditional forms of labor, or towards the Turkish population as a whole. So there was a kind of social restriction also there.

These seem to me the most important organizational challenges that the movements face at present, and they are organizational challenges precisely because I don’t believe that the traditional solutions would be successful here, let alone desirable. In other words, the formation of a traditional party structure, the operation of traditional union structures—I don’t see these as solutions.

It’s not only that I don’t think these traditional solutions are desirable, that they go against some of the foundational democratic principles of the movements themselves; I also don’t think that they would work. Some of the people who propose a return to traditional party structures might say—and some of them do say—‘look, you have to accept this limitation on democratic participation because this is what it takes to be effective’—I just don’t think that’s true.

And that’s precisely why this is such a large challenge to the movements today: because the traditional solutions have been disqualified and new, effective forms of organization must be invented.

One of the ways in which contemporary movements differ from these more traditional forms of organizing is in their horizontality. You seem to be quite sympathetic towards these horizontal forms of organization, but I have also heard you highlight the need for a kind of self-critique of horizontalism. Why? What do you consider to be the main shortcomings of horizontalism, and how can we move beyond them?

Some of the obvious limitations of the forms of horizontalism that we practice so far are the ones that you mentioned in the first question: the temporal, spatial and social limitations of the movements themselves. And I guess I’m taking for granted—and I’m not sure everyone would take for granted—the desirability of the struggles to become generalized; of them not to be minority experiences but rather to invest in the entire social terrain for the long-term.

I wouldn’t say that this disqualifies horizontalism and it certainly doesn’t disqualify democracy in movements, or the construction of democratic modes of participation. But it does pose a challenge that we have to confront.

Here’s another way of approaching it: we—and I should implicate myself in this too—we have a tendency to insist on how we’re winning, to always focus in a kind of compensatory way on what’s been a success and what has potential for the future. Why do I say in a “compensatory” way? Because we’re always bombarded with the notion that we’ve failed, that nothing is possible, that nothing will work, that nothing is happening.

But while you can recognize what people are already doing, and how they are already transforming their lives, that we’re not so weak, you can also at the same time recognize the set-backs and obstacles you face—the many ways in which we’re not winning. And that’s what I mean by the need for a certain kind of self-critique of the practices of horizontalism: that we have to recognize the limitations we have encountered so far.

I don’t know what the result of that will be. I’m not someone who is sympathetic to those who would say that horizontalism has failed and therefore we need to retreat to the old forms of leadership and organization—I would argue against that solution.

We have to recognize that the traditional institutions of the left, however much we might hate or criticize them, did in many historical situations act as an effective counterpower to the ruling class.

But I do think one has to take seriously the qualities that those traditional forms of organization did carry for a while. We have to recognize that the traditional and hierarchical institutions of the left, however much we might hate them or criticize them, did in many historical situations act as an effective counterpower to the ruling class, they did operate continuously over a long period, they did bring a wide social population within.

So my reason for bringing up the traditional institutions of the left is not to say that we should return to them, but rather that we should recognize ways in which we could accomplish some of their effects by different means—maybe by horizontalism conceived or practiced somewhat differently.

I’m also not tied to horizontalism in a way that I feel dogmatic about it. If we can figure out other practices of democracy that would accomplish those results that the traditional leftist organizations achieved, that’s precisely what I have in mind for this type of self-critique.

Speaking of such alternative forms of democratic organization, maybe we could talk about the notion of “social unionism” you have been discussing within the Euronomade network of late. What is social unionism? And why does this concept gain relevance in our current context?

A starting point for me is to think of how the term social unionism has been used in the English-speaking world for the last decades, which sets up—both in a positive and in a negative sense—how we use the concept within Euronomade.

Positively, social unionism—sometimes called “social movement unionism”—was conceived in South Africa in the 1980s, and in the United States, Canada and Britain, at the moment of the decline of the traditional trade unions and as an alternative to what could be called political unionism, which meant an alliance between party and union; one in which the union took political direction from the party. Instead, social unionism was conceived as a relationship in which the trade union makes alliance with the social movements—which ends up reinvigorating both.

Social unionism is a relationship in which the trade union makes alliance with the social movements—which ends up reinvigorating both.

On one hand, in such an alliance the social movement gains the organizational structures and lasting abilities of the trade union, and on the other hand the trade union is renovated by both the expansive social issues of the social movements, moving from labor to forms of life, but also by the antagonistic methods of social movements—the forms of activism that are outside typical trade union activity.

That reasoning seems to me a positive basis for thinking of social unionism in our context today, but what seems to me fundamentally different is that the older notion of social unionism thinks of political and economic struggles as in some sense external to each other. The alliance between the trade union and the social movement is one of two separate and two differently structured organizations, whereas in the context of Euronomade we’re trying to think of social unionism as an internal relationship.

This internal relationship passes in part through the notion of the common, which has also been central to our thinking, in that struggles over the common involve both economic struggles for the re-appropriation of the means of production and also more directly political or social struggles for the transformation of modes of life.

This fits with certain theorizations of recent social movements, for instance in Turkey and Brazil, in that we can conceive of these movements as struggles for the common—or struggles over the city, really, but conceiving the city as a common space, so that the struggle over transport in Brazil or the struggle over Gezi Park are really struggles to make urban space common, to make urban life common. And because we can conceive of them as both economic struggles and as political or social struggles, this poses an internal relation to what was traditionally conceived of as an external relation.

Over the past year, the Black Lives Matter movement has been leaving a clear mark on US politics. What do urban uprisings like the one in Ferguson last year or in Baltimore earlier this year tell us about the complex relationship between class and race in contemporary America? And where do you see this struggle going?

It’s long been true in the United States, for at least the last 150 years, that one can’t think class without thinking race, or understand racial dynamics without understanding class dynamics. One thing that Ferguson revealed was the kind of volcanic magma that’s just beneath the surface, the willingness to rebel—when the conflictuality that’s normally held in check suddenly explodes.

What isn’t very clear are the possibilities of organization. Once again, with Black Lives Matter there are all kinds of voices on the left in the United States saying that they need traditional leaders. Like they said surrounding Occupy: ‘without their Martin Luther King they’ll never amount to anything.’ And similarly with Ferguson and Baltimore there were calls for leaders in the black community to step forward, which often means religious figures like Baptist preachers.

My feeling is that this is neither desirable nor effective, and it points toward the same situation we were talking about earlier, which is that we are in need of, I wouldn’t necessarily call it new thinking about organization, but at least a recognition that we haven’t solved our problems of organization yet, and that that’s precisely what’s required at this point.

We haven’t solved our problems of organization yet, and that’s precisely what’s required at this point.

I’m not satisfied with these periodic explosions and I feel the need—and I think this is a reasonably generalized feeling—for modes of organization that both allow for democratic expression but also for the establishment of long-lasting and effective counterpowers.

The Black Lives Matter movement, like many other struggles, points towards that. I wish I were in the position to say that I had the answer, although that would also be stupid. Rather, I think the only way such problems can be resolved lies within the movements themselves, through a kind of collective theorizing that goes on over a significant period of time. I think the best we can do—as people who write about these struggles—is to recognize that we’re in a period where the question of organization is most centrally on the agenda.

Speaking of organization, what do you think of recent evolutions like the creation of Podemos in Spain? Is this simply a retreat into the old party-form, or is there something more to it?

I don’t think Podemos is just the same old party. I see Podemos, together with the municipal electoral projects of Barcelona en Comù and Ahora Madrid, as experiments by the movements with new tactics.

They are a kind of wager on the part of activists coming out of the 15-M movement to see if they can enter the field of electoral politics and preserve the aspirations and dynamism of the movements. Whether they will ultimately succeed or fail, I don’t know. Entering into electoral contests like that is always risky. If the electoral experiment fails it could be destructive for the movements, having invested so much energy in it.

On the other hand, if Podemos and the newly elected municipal governments could provide a kind of opening to the movements, that could be extremely important. It reminds me of something Deleuze said in his Abécédaire when he is asked about the left and he says: ‘there’s no such thing as a government of the left. There can be, perhaps, a government that opens spaces for the left.’

And that, I think, is what we can hope for. If we can think of Podemos as something like that, that could be a success—as long as it opens up new spaces for the movements.

AULA II

[texto original]

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Nas ocupações, alunos valorizam escolas contra um discurso de ataque à coisa pública

Observatório da Sociedade Civil – Menos de 20 dias depois do início da primeira ocupação de uma escola estadual, em Diadema, o movimento de estudantes que tentam impedir o fechamento de 94 unidades de ensino segue forte em várias cidades de São Paulo. A ação obrigou o governo do estado a cancelar o Saresp nas escolas tomadas, mudar locais de provas da Fuvest e enfrentar uma contundente derrota no Judiciário, que entendeu que, de fato, faltou diálogo com estudantes e professores que sofreriam os impactos da medida e, por isso, as reintegrações de posse não seriam adequadas.

O governo ainda resiste em dar aos estudantes o que eles querem e insiste na “reorganização”, inclusive gastando R$ 9 milhões para tentar encucá-la na população por meio de publicidade.

Dado o histórico pouco afeito ao diálogo do governador Geraldo Alckmin (PSDB), talvez, as escolas realmente sejam fechadas. Mas para educadores ouvidos pelo Observatório, as lições que ficam do movimento já são perenes.

Nas escolas ocupadas, os estudantes têm manifestado satisfação em aprender novos conteúdos a partir da experiência política, cultural e colaborativa. Eles assumem várias facetas do protagonismo. Além de terem de cuidar da rotina, o que inclui se reunir, deliberar e cuidar da segurança, alimentação, limpeza, programação, comunicação e solução de conflitos internos, ainda assumiram papel político de peso na atual conjuntura.

“É uma mobilização ímpar. Ultrapassa tudo que poderíamos pensar em planos de ensino”, avalia a pedagoga e doutoranda em educação Crislei de Oliveira Custódio. “Mais que qualquer proposta construtivista, é uma experiência política de fato. Nas escolas construtivistas, há toda uma programação para o protagonismo, mas que acaba sendo um simulacro do que seria uma experiência democrática em um espaço público. Nesse caso, é mais interessante porque partiu dos alunos, eles estão se organizando nessas coisas cotidianas. Nas escolas construtivistas, ainda é preciso uma permissão do adulto, que decide o que será democratizado”, pondera.

Para o educador Ruivo Lopes, da Ação Educativa, o movimento deixa claro que não se deve subestimar nenhuma criança ou adolescente ao se pensar em políticas públicas, especialmente na educação. “A mensagem que fica é que esses estudantes têm projeção de vida, desejos próprios e condições de intervir na sua própria realidade. Eles já venceram todo o aparato de subestimação”, argumenta.

Os dois educadores ainda ressaltam como a iniciativa dos secundaristas é carregada de valorização das escolas, em um momento em que há um discurso deliberado contra as coisas públicas. A explicitação de um senso de pertencimento fortalece as unidades mobilizadas como equipamento público, fincado no coração das comunidades, que vão além da sala de aula. São locais de encontro, de troca, de lazer. Educativas em sentido muito mais amplo.

Além disso, o movimento conseguiu realizar um dos grandes objetivos de currículos escolares: trazer a comunidade para dentro da escola. Isso fica explícito na mobilização de pessoas para colaborar com aulas e oficinas, que têm mantido efervescente o ambiente das escolas ocupadas, mesmo nos finais de semana.

“Tanto já se falou em trazer as pessoas para a escola, usando festas, criação de conselhos e outros mecanismos. Sempre foi muito difícil, porque em geral a gente identifica como instituição do Estado e não como coisa pública, nossa. Um milhão de pessoas já escreveram sobre isso. E aí, numa coisa super de uma hora para outra, que não era um projeto do governo, se consegue”, ressalta Crislei. “Fico pensando como serão essas escolas depois da ocupação. Certamente é um divisor de águas”, aponta a pedagoga.

“Eles não voltam a ser os mesmos. E se as escolas derem espaço, elas serão transformadas para aquilo que sempre desejamos nos processos educativos”, acredita Ruivo.

AULAS I

[texto original]

Alunos ocupam a escola Professor Alberto Conte, na zona sul de São Paulo, em dia de provas do Saresp

“1. Plano de Ação

O objetivo deste texto é explicar o plano de ação escolhido para a luta dos estudantes secundaristas da cidade. Nossa estratégia deve permitir vencer a luta por uma educação pública e de qualidade. As ocupações massivas de colégios são uma das ferramentas dentro dessa estratégia.”

Assim começa o manual “Como ocupar um colégio?”, documento que orientou (e ainda orienta) estudantes paulistas a tomar, até esta terça-feira (24), ao menos 151 escolas da rede estadual.

Foi no final de outubro que a cartilha começou a circular em grupos de WhatsApp compostos por estudantes que protestavam contra a reorganização dos ciclos de ensino anunciada pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB).

O governo quer dividir parte das unidades por ciclos únicos (anos iniciais e finais do fundamental e o médio). Para isso, pretende transferir 300 mil alunos e fechar 92 colégios que ficariam sem estudantes com a mudança.

Esse manual é uma compilação de dicas de estudantes chilenos e argentinos sobre como entrar em um colégio público e nele permanecer, em forma de protesto.

O documento foi inspirado, principalmente, em movimento de secundaristas chilenos que ocuparam mais de 700 escolas em 2011, em protesto por passe livre e melhorias na educação pública. As ações ocorreram cinco anos após a chamada “revolta dos pinguins”, referência ao uniforme das escolas do país.

Primeiro, diz o manual, os alunos devem fazer uma assembleia geral para organizar a entrada. “A assembleia é o órgão mais importante de uma ocupação”, orienta a cartilha. Todas as decisões importantes devem ser tomadas em conjunto.

Depois, “o mais recomendável é que se nomeie comissões para cada tema e tarefa, como comida, segurança, imprensa, limpeza”, diz o manual, na primeira parte.

Esses preceitos foram rigidamente seguidos nos dois primeiros colégios a serem tomados, a escola estadual Diadema (Grande SP) e a Fernão Dias Paes, em Pinheiros, zona oeste paulistana.

Alunos caminham pelas escolas usando plaquinhas penduradas no pescoço. Em uma delas, está escrito “porta-voz” –o responsável por falar com jornalistas.

A comissão da segurança, segundo o manual, é uma das mais importantes das ocupações escolares. Quem faz parte dela usa uma placa com a palavra “milico”, uma ironia aos policiais militares.

“Durante todo o dia, deve haver três companheiros na entrada principal, que anotem em uma lista quem entra e sai e o horário. Depois, essa lista deve ser destruída.”

Nas unidades de Diadema e de Pinheiros, a regra é seguida à risca -os alunos da portaria se comunicam por rádio com quem está dentro.

Outro preceito da cartilha é a publicidade. Faixas de protesto devem ser colocadas na frente do colégio. Também deve-se evitar o consumo de álcool e drogas.

ORGANIZAÇÃO

Até o fim de outubro, os protestos contra a medida de Alckmin estavam restritos a passeatas de rua, com carro de som e faixas. Eram organizados por pais, alunos e membros da Apeoesp, o sindicato dos professores.

Os manifestantes reclamavam da “falta de diálogo” com a secretaria, que não revogava a ação. O governo, por sua vez, sempre afirmou “estar aberto à discussão”.

“A gente viu que os protestos não estavam dando certo. Resolvemos radicalizar”, contou outra estudante do Fernão, em Pinheiros.

Alunos de escolas diferentes –e que se conheceram nas passeatas– criaram grupos de Whatsapp para discutir maneiras de tentar barrar a reorganização dos ciclos.

“Foi aí que surgiu esse manual num dos grupos”, conta Fernanda Freitas, 17, aluna do 2º ano da escola estadual Diadema.

A adolescente chamou uma reunião com amigos para decidir se ocupariam ou não. “Era uma ideia louca? Sim. Era ilegal? Era. Era perigoso? Era. Mesmo assim, decidimos que sim”, conta.

Na noite do dia 9, cerca de 20 alunos entraram na escola como se fossem para a aula. Só que levavam mochilas com roupas, barracas e comida. Montaram acampamento no pátio, e estão lá até hoje.

“O principal é o planejamento, você não vai ocupar uma escola sem levar as correntes para fechar o portão”, diz Rafaela Boani, 16, também de Diadema.

Cerca de nove horas depois da ocupação da escola da Grande SP, mais de 100 alunos entraram na Fernão Dias Paes, em Pinheiros. O planejamento durou duas semanas. No dia 10, chegaram uma hora antes das aulas e convenceram o caseiro de que era uma reunião.

“A gente conversava com o pessoal de Diadema [pelo Whatsapp]. Sabíamos que ia acontecer lá também”, disse um estudante da Fernão –os alunos do colégio não quiseram que seus nomes fossem revelados nesta reportagem.

“Ocupar era uma vontade de todos, mas acontecer quase na mesma hora foi uma coincidência”, diz Fernanda.
cursinho?

Já “experientes”, estudantes dos dois primeiros colégios que foram ocupados agora ensinam e até ajudam alunos de outras escolas sobre como ocupá-las.

“Nessa semana, a gente recebeu 15 alunos que queriam entrar na deles. Estavam com medo e nós explicamos como fazer”, conta Fernanda Freitas, de Diadema.

Sua colega Rafaela explica: “A gente chama de cursinho intensivo de ocupação”.

SOBRE IMPERIO E MULTIDAO

[texto original]

Michael Hardt é um filósofo político e teórico de literatura ligado à Universidade Duke e ao Instituto Europeu de Pós-Graduação. Ele é mais conhecido por sua colaboração com Antonio Negri, com quem escreveu a trilogia que inclui Império, (2000),  Multidão (2004) e Commons (2009). Seu trabalho tem sido relacionado ao marxismo autônomo. Seu livro mais recente é Declaration, em coautoria com Toni Negri, e refere-se ao Occupy e outros movimentos sociais. Atualmente é editor da South Atlantic Quarterly [revista da Duke University].

Como mudou a sua compreensão do mundo no decorrer do tempo, e o que (ou quem) exigiu as mudanças mais significativas no seu pensamento?

Talvez o mais significativo para mim seja uma coisa que não mudou. Quando Toni Negri e eu estávamos escrevendo Império, no final dos anos 1990, nossa primeira intuição era de que os Estados Unidos logo não seriam mais capazes de controlar os negócios globais, que eles não poderiam mais “ficar sozinhos”, agir unilateralmente. Contudo, não pensamos que algum outro Estado-nação, como a China, fosse ocupar aquela posição ou mesmo que uma aliança multilateral entre Estados-nações dominantes teriam condições de controlar os negócios globais. Nossa hipótese, ao contrário, era de que uma rede de poderes estava emergindo – incluindo os Estados-nações dominantes, junto com instituições supranacionais, corporações, OnGs e outros atores não-estatais – para controlar as relações globais de maneira contingente e transformadora.

Isso pode ser visto como um desafio para a hipótese “realista” de que os Estados são os atores centrais da política internacional. Os Estados certamente continuam importantes, mas nosso questão era que se você foca apenas nas ações estatais, perde o que realmente está acontecendo.

A premissa básica não mudou. Mas a composição do Império, isto é, a composição das estruturas do poder global está constantemente em fluxo. As hierarquias e interações entre Estados, a posição de atores não-estatais, o jugo do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial – esses e outros fatores devem ser continuamente acompanhados e avaliados.

Você tem sido associado principalmente com o marxismo autônomo, e as pessoas ligadas a essa tendência adotaram recentemente o slogan do século 16, de Thomas Muntzer “omnia sunt communia”, que pode ser traduzido como “tudo deveria ser comum”. O que pensa dessa sentença e como explicaria seu sentido?

Vejo demandas relacionadas ao comum emergindo de uma ampla gama de setores, hoje. No sentido mais básico, o comum nomeia formas de riqueza que partilhamos e gerimos democraticamente. E isso o torna fundamentalmente oposto, por um lado, à propriedade privada e, por outro, à propriedade pública (ou estatal). Um campo de demandas para o comum envolve, por exemplo, formas imateriais de riqueza tais como conhecimento científico, informação, produtos culturais, código e similares. Outro campo refere-se à terra e seus ecossistemas e prevê soluções democráticas para nossas interações compartilhadas e o cuidado com o meio ambiente. Finalmente, reconheço todos os recentes movimentos sociais que envolvem acampamentos e ocupações urbanas, da Praça Tahrir ao Parque Gezi, passando pela Puerta del Sol e o Zuccotti Park, como desejando (em parte) tornar comum a própria cidade, ou seja, tornar o espaço urbano aberto a todos e sujeito a formas democráticas de gestão.

É chave para qualquer dessas discussões do comum enfatizar a necessidade de democracia nas tomadas de decisão. Em outras palavras, sistemas de acesso aberto e mecanismos de compartilhamento de riqueza não são espontâneos e precisam ser gerenciados para durar. Enquanto a propriedade privada estabelece um monopólio sobre as tomadas de decisão, o comum requer mecanismos democráticos.

Desde a publicação de Império, o significado que você e Antonio Negri imprimiram ao conceito de multidão mudou. Você poderia explicar brevemente o que quer dizer com multidão e traçar a evolução desse significado, no seu pensamento?

Por multidão entendemos um projeto plural de organização política. Isso pode ser melhor entendido como uma extensão – ou, de fato, uma pluralização – de três conceitos tradicionais: o povo, a classe e o partido. Multidão não é realmente oposto a esses três conceitos, mas, antes, designa versões plurais, internamente heterogêneas de cada um deles. Frequentemente “o povo”, por exemplo, tem sido usado para referir-se a uma população relativamente homogênea, com a exclusão de outros. O termo “povo inglês”, como usado em discursos políticos, por exemplo, tem designado implícita ou explicitamente uma população branca. De modo semelhante, o termo “classe trabalhadora” tem servido com frequência para nomear todos os trabalhadores, mas principalmente homens que trabalham na indústria.

Finalmente, o partido geralmente se refere a uma forma de organização política centralizada, unificada e hierarquizada. Multidão pretende reconciliar esses termos numa chave plural e democrática: um povo que é heterogêneo internamente e aberto àqueles que estão fora; uma classe que compreende todas as formas de trabalho, assalariado e não assalariado; e uma forma partido horizontal e democrática.

Os chamados movimentos sem líderes dos últimos anos estão certamente trilhando esse terreno, mas nenhum deles chegou ainda a criar formas de organização efetivas e duradouras. A multidão não é espontânea e o termo não foi cunhado para nomear alguma coisa que já existe. Ele antes designa as linhas de um projeto a ser construído.

Nos últimos anos temos visto uma interação crescente entre movimentos sociais e partidos políticos na Europa — por exemplo o Podemos, na Espanha. Como vê estes partidos-movimentos evoluindo nos próximos anos?

Vejo o Podemos como uma aposta ou um experimento que irá medir em que extensão projetos eleitorais podem ajudar movimentos sociais a florescer. Por um lado, é verdade que o Podemos nasceu, em muitos aspectos, do movimento 15M, ou seja, dos acampamentos realizados nas principais cidades espanholas no verão de 2011, e das muitas formas de ativismo que se seguiram, tais como as “marés” em educação e saúde. (As vitórias eleitorais do governo municipal, em 2015, do Barcelona em comum e Agora Madri são demonstrações importantes do poder desses movimentos na política eleitoral.) Por outro lado, o Podemos também tem algumas estruturas centralizadas dos partidos políticos tradicionais.

A aposta, então, é dupla. Primeiro, é simplesmente que os movimentos sociais podem levar o Podemos a uma posição de poder nas eleições nacionais. Segundo, a aposta é que um partido eleitoral como Podemos não pode representar os movimentos — mas, ao contrário, criar espaço para eles florescerem. Nenhum desses resultados está assegurado, mas a aposta certamente me parece valer os riscos.

Qual a sua opinião sobre o PKK dos curdos e a sociedade que eles criaram no norte da Síria? Um grupo que adotou a linguagem da autonomia e da democracia direta, nascido a partir um background mais tradicional de política marxista-leninista.

Como tantos outros, me senti inspirado pela defesa de Kobane em 2014-15 pelas forças curdas contra o Estado Islâmico. Mas heroísmo e façanhas militares me interessam menos que inovações políticas, tanto na Turquia como em Rojava (norte da Síria). Um dos mais significativos desenvolvimentos, a meu ver, teve lugar em nível teórico uma década atrás, quando o movimento curdo mudou seu objetivo de “liberação nacional” para “autonomia democrática”. A mudança conceitual de soberania para autonomia é extremamente importante. (A relação entre esses dois conceitos poderia ser objeto de um estudo muito interessante em teoria política.) E ainda mais importante é como a noção de autonomia democrática é articulada, na prática. As comunidades curdas têm de fato experimentado novas formas democráticas. Por exemplo, para combater desigualdade de gênero, cada posto da estrutura de governo de Rojava precisa ser ocupado por um homem e uma mulher como co-responsáveis. Esse tipo de experiência faz do movimento curdo, um dos principais pioneiros, hoje, em novas formas de democracia.

Como acadêmico, você tem sido bastante ativo politicamente. O que pensa da relação entre academia e ativismo político? Os acadêmicos teriam certa responsabilidade quanto ao engajamento político, por causa da sua posição relativamente privilegiada?

Não acho que “responsabilidade” seja o conceito correto para pensar sobre isso. E uma vez que acadêmicos em geral não são mais capazes de engajamento político que outras pessoas, então não ajudaria em nada considerá-los responsáveis.

Na verdade, penso que é importante romper com a suposição-padrão de uma divisão entre teoria e prática, pela qual intelectuais são autores de teoria e ativistas comprometidos com a prática. A meu ver, algumas das teorizações mais inovadoras, hoje, surgem coletivamente em movimentos. Acadêmicos têm muito a aprender, não só com o que os ativistas fazem, mas também com o que eles pensam e os saberes que produzem.

MUNICIPALISMO, SAO PAULO E DESCENTRALIZAÇÃO: POSSIBILIDADES

[texto original]

No mês passado, em entrevista a um programa de rádio, o prefeito Fernando Haddad anunciou que está considerando a possibilidade de implementar um processo de eleição direta para escolha dos subprefeitos da capital. Tradicionalmente, isso tem sido feito por indicação de vereadores dos partidos que compõem a base aliada do prefeito. Na atual gestão, inicialmente buscou-se indicar funcionários de carreira da Prefeitura em uma combinação complexa com chefes de gabinete indicados por vereadores. Durante o governo Kassab, coronéis da polícia militar assumiram estes cargos.

A discussão a respeito das subprefeituras – e do seu comando – na verdade faz parte de um debate lançado na cidade de São Paulo desde a elaboração de sua lei orgânica (a chamada “constituição” municipal), em 1990. Na época, a ideia de descentralizar a administração da cidade, criando subprefeituras, estava também vinculada à proposta de aumentar a relação direta dos cidadãos com a administração, através da implementação de conselhos de representantes dos moradores de cada região junto a esses órgãos descentralizados.

De lá para cá, essa ideia não saiu do papel. Em primeiro lugar, os tais conselhos de representantes – que na versão da lei orgânica seriam eleitos diretamente pela população – nunca foram plenamente implementados. Vários projetos de lei já tramitaram na Câmara Municipal com o objetivo de regulamentá-los, mas sempre esbarraram em divergências profundas entre os vereadores, que alegam que conselhos não podem fazer o que a câmara já faz.

No fundo, a maioria dos vereadores tem receio de perder poder em seus bairros com a eleição direta de representantes que não teriam necessariamente vínculos partidários. Um projeto de lei que chegou a ser aprovado em 2004 tentava “resolver” a questão, introduzindo uma cota de representantes partidários nos conselhos, mas a nova lei foi considerada inconstitucional.

Em 2013, o prefeito Fernando Haddad criou por decreto o Conselho Participativo Municipal, como um órgão transitório. Em dezembro daquele ano, pela primeira vez a população pôde eleger, de forma direta, cerca de 1.100 representantes que têm a atribuição de atuar junto às subprefeituras no planejamento e fiscalização de ações e gastos públicos. As próximas eleições ocorrerão no dia 6 de dezembro.

Mas, ao longo desse período, as subprefeituras, ao invés de ganharem autonomia, orçamento e capacidade de gestão, mostraram que são órgãos muito frágeis, com pouca ou nenhuma condição de dar respostas às demandas dos cidadãos. Elas são uma espécie de zeladoria sem recursos até mesmo para exercer essa função…

Conto essa história toda para dizer que a forma de escolha do subprefeito – e seu perfil – é apenas um pedaço da equação. A ideia de descentralizar para aumentar a eficiência da administração, e também para democratizá-la, requer que as subprefeituras tenham autonomia e capacidade de gestão, com participação direta da população local.

Hoje, um dos grandes limites para a implementação deste projeto é a lógica dos governos de coalizão, que constroem maiorias nas Câmaras Municipais através da distribuição de cargos e poderes para acomodar os interesses de cada partido, mas mantêm centralizadas as principais políticas e decisões.  Sem enfrentar essa lógica, ainda que eleições diretas sejam implementadas, as subprefeituras continuarão esvaziadas de seu verdadeiro papel.

RANCIERE E A DEMO-CRACIA (a ler vagarosamente)

[texto original]

Querido Jacques Rancière,

Fonte: http://goo.gl/nnVc1C

com um pouco de vergonha pela repetição do gesto [já é a quarta vez que ocupo Rancière com  perguntas], encorajo-me a lhe propor uma nova entrevista.

A questão é que me parece que em seu trabalho existem contribuições muito valiosas para pensar o 15-M (o movimento dos “indignados”) e suas diferentes implicações, prolongações e metamorfoses (“mareas”, movimento contra os despejos, etc). E, de fato, você é um dos poucos filósofos (digo entre os muito conhecidos) que prestou atenção e deu valor ao movimento, sem considerá-lo a partir de suas “limitações”, mas a partir de suas “potências”.

Para além dos acampamentos, com o 15-M emergiu fortemente a possibilidade de se pensar uma nova política, cidadã e não partidarista, que se estende um pouco por todas as partes (mesmo que sem se nomear como 15-M) e que abriu muitos questionamentos para todos. E justamente em torno delas é que preparei o questionário, sem esperar tanto respostas, mas muito mais inspiração para repensar as próprias perguntas.

Eu posso imaginar a carga de trabalho que você terá e da quantidade de solicitações desse tipo que receberá. A única coisa que me atrevo a dizer, para animá-lo, é que poucas vezes houve, na Espanha dos últimos tempos, tanta necessidade e desejo de ler, conversar e pensar. Tomara que as perguntas estejam em sintonia com as questões que você está trabalhando, nesse momento, e que respondê-las possa lhe ser útil de alguma maneira.

Saudações,
Amador

A entrevista é de Amador Fernández-Savater, publicada por ElDiario.es, 24-01-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

1. Sobre a inclusividade e a “política do qualquer um”O primeiro 15-M das praças chamou de “inclusividade” a algo que poderia ecoar naquilo que você nomeou como uma “política do qualquer um”. Em suas formas de agir e dizer, sempre procurou encaixar qualquer um, de interpelar a qualquer um, sem se dirigir aos blocos ou grupos determinados (sociológicos ou ideológicos), mas, sim, em pessoas singulares e a um 99% simbólico. As bandeiras e as siglas (e, em geral, todos os sinais de identidade que provocavam divisão) ficaram, desde o primeiro momento, fora da Puerta del Sol.

Entretanto, há quem pense que esse “nós aberto” foi conquistado ao preço de apagar ou ocultar as diferenças e os conflitos internos. Por exemplo, as diferenças de acesso a esse “nós” entre cidadãos legalizados e imigrantes em situação irregular. O qualquer um que você menciona é abstrato? Nas manifestações da “política do qualquer um”, que você pesquisou, como se pensa e se elabora essa relação entre o qualquer um e as identidades-diferenças particulares?

É importante compreender que há duas imagens do “qualquer um”. Em primeiro lugar, o sujeito da política é o sujeito criado pela própria ação política, o sujeito criado por uma manifestação e uma enunciação coletiva, o sujeito que se cria quando a ação política diz “nós”.

Isso significa que uma subjetivação não é definida por uma identidade prévia, mas pelos atos que gera, pela modificação que esses atos ocasionam no tecido normal das identidades, os lugares e as ocupações [o que Rancière chamou a “partilha do sensível”].

Assim, o “nós” se distingue do sujeito político concebido na forma clássica da classe e da vanguarda, porque não se define por um conjunto de propriedades, nem por uma interioridade compartilhada que se traduziria em ações exteriores. Não preexiste, são, sim, suas próprias ações as que o criam.

Em segundo lugar, essa afirmação coletiva se dirige a indivíduos qualquer, aos quais se propõe incluir sem se preocupar em conhecer sua pertença social. Aqueles que se incluem podem fazer isso tanto como “pessoas”, membros de um grupo de afinidades pessoais ou como militantes desse ou daquele coletivo. O essencial é que o “nós” possa estar aberto a qualquer um que o deseje. De fato, a suspensão das identidades particulares marca geralmente o início dos movimentos, assim como o retorno dos conflitos entre grupos indica muitas vezes seu declive.

Por outro lado, é claro que nem todo o mundo é igual de entrada, no que se refere à possibilidade de se manifestar e a disponibilidade para ocupar a rua. A questão é que não se sintam excluídos pela forma das ações.

Em todo caso, é preciso evitar tratar a relação entre os 99% e o 1% em termos estatísticos. E, sem dúvida, podemos discutir inclusive sobre a pertinência da fórmula. Não são 99% contra 1%, mas uma imagem do povo contra outra. A imagem de um povo a ser construída sobre a base da pressuposição igualitária contra o povo que nossos governantes administram, assim como também contra as “maiorias silenciosas” para as quais apelam ou contra o povo identitário que se concentra em manifestações como a “mani para todos”, convocada pelos que se opõem ao casamento homossexual na França.

2. Sobre a imagem do inimigo. O 15-M estreitou muitíssimo a figura do inimigo: é o 1% da oligarquia financeira, política e midiática. E isso não apenas “teoricamente” ou nos discursos, mas também nas ruas. Por exemplo, na prática do “Stop despejos”, a interpelação firme, mas humana em relação ao outro (bombeiro, chaveiro, também o policial), produziu numerosas fissuras sob os uniformes e as funções atribuídas.

Como pensar, hoje, a imagem do inimigo para além da lógica da luta de classes? Quem é, atualmente, o inimigo? É preciso confrontá-lo, destruí-lo ou simplesmente esquivar dele? Em resumo, como entender esta frase sua: “(a política cria) cenários de interlocução que reconhecem o inimigo como parte integrante da mesma comunidade”?

A pergunta contém vários problemas. Em primeiro lugar, a diferença entre a política e a guerra. A política é uma maneira de incluir o inimigo. Não se trata de generosidade. A própria forma da ação política institui uma esfera de universalidade, e a constituição dessa esfera serve de teste sobre a capacidade própria das partes em luta.

Um exemplo. Pesquisei, especialmente, essas situações que pertencem ao nascimento da greve no século XIX, onde os operários instituíam com os patrões um cenário de discussão pública que, para os patrões, não existia, porque a negociação das condições de trabalho era para eles um assunto privado entre pessoas. Os patrões não tinham nenhuma razão para aceitar esse cenário de discussão, mas essa rejeição significava uma inversão dos papéis: o coletivo operário afirmava sua potência como sujeito intelectual frente aos que não viam nele mais do que uma matilha brutal, ao passo que a capacidade dos patrões simplesmente ficava reduzida às armas da polícia.

É correto que esta imagem de interlocução estava muito vinculada a uma lógica da política como luta de classes. Hoje, existe uma política da luta de classes desenvolvida pela classe capitalista sob a bandeira da economia e a necessidade econômica, mas por outro lado não existe nada que corresponda ao que foi a política operária da luta de classes. É esta situação a que traduz exatamente, ao seu modo, a fórmula dos 99% contra o 1%, a partir do ponto de vista estatístico.

Isto significa, concretamente, que não há na atualidade uma imagem forte de inclusão do inimigo. Por um lado, há uma figura de separação que outorga maior importância à afirmação de autonomia que às estratégias do conflito e, por outro lado, existe uma imagem das ações violentas simbólicas (de tipo enfrentamento com a polícia e destruição de caixas eletrônicos no final das manifestações) que, inversamente, outorga maior importância à designação do inimigo do que à afirmação coletiva. Contudo, também existem essas ações que sua pergunta evoca, no curso das quais se fissura a frente dos representantes da autoridade.

Não há resposta geral. É na própria ação que podemos conhecer o inimigo e saber como nos comportar em relação a ele. Não se pode “evitar” o inimigo. A questão é como nos diferenciarmos dele: privilegiando uma visão estratégica dos golpes que lhe dirigimos ou privilegiando a diferença de formas de pensamento, de vida e de ação que lhe opomos. Eu considero que é possível adquirir mais força por esta segunda via.

3. Sobre a subjetividade e subjetivação. Você colocou muita ênfase na importância da subjetivação. A política não “expressa” um sujeito latente ou pré-constituído (como ocorre, por exemplo, na teoria de Toni Negri sobre as “multidões”), mas o cria. Cria um “espaço de sujeito” onde qualquer um pode ser contado.

Como pensar a relação entre nossa vida cotidiana e esse processo de subjetivação? A subjetivação é ruptura e criação, mas criamos a partir de nossa experiência cotidiana (no trabalho, na cidade, nas redes). O filósofo Cornelius Castoriadis utilizava o termo “elaboração” para pensar a mesma questão no movimento operário: a subjetivação operária, dizia Castoriadis, “elabora criativamente” a experiência cotidiana do trabalho na fábrica.

Para você, faz sentido pensar que relação há entre experiência cotidiana e subjetivação? Serve para algo estudar as situações de vida para pensar a política?

É claro que a subjetivação política não nasce como uma emergência radical, se concordamos que ela não opõe um grupo a outro, mas um mundo a outro. A formação desse mundo tem uma dupla origem. Por um lado, é fruto do processo de separação que a própria ação produz ao criar outro uso do tempo e do espaço, outros laços entre os indivíduos, outros possíveis no pensamento. Porém, também é o resultado de uma multiplicidade de transformações nas práticas e nas formas de vida e de pensamento.

Há dois grandes tipos de transformações “subjetivadoras” deste tipo. Em primeiro lugar, a criação de laços por meio das experiências concretas de solidariedade no trabalho, na luta, mas também por meio das formas de troca que as pessoas podem experimentar na vida cotidiana ou por meio dos diferentes serviços que podem prestar entre si. E, em segundo lugar, as diferentes maneiras pelas quais as pessoas escapam dos rigorismos de sua identidade, mediante a aprovação de uma cultura diferente, como, por exemplo, entre os autodidatas que estudei, ou atualmente mediante a experiência das viagens e da multiplicidade de culturas.

Uma subjetivação política é o encontro destes dois componentes: o laço que se opõe à separação dos indivíduos e o tornar-se outro, que rompe com a atribuição identitária. Pensar as transformações e as interações entre esses dois componentes nos permite sair das oposições rígidas entre o individual e o coletivo, entre o cotidiano e a política. Não há oposição entre esses dois termos, mas sempre certo trançado do individual e o coletivo, do tempo cotidiano e o tempo do mundo.

4. Deixar de ser, politizar o que se é. A política como subjetivação consiste, de alguma maneira, em “deixar de ser o que há que ser” e inventar um corpo novo, capaz de outras coisas. Por exemplo, você estudou como a subjetivação operária inventou novos corpos capazes de falar ou escrever, deixando de ser, assim, simples “mulas de carga”.

Em meio ao 15-M e seus desdobramentos, vimos médicos, professores ou jornalistas que, mais do que deixar de ser o que são, ativavam-se politicamente a partir de sua posição. Mais do que abandonar seu lugar e função, politizavam-no, defendendo o direito universal à saúde ou à educação. Podemos entender essas formas de politização como subjetivações?

“Politizar uma função” é uma expressão ambígua. A defesa do direito universal à saúde ou à educação não é uma reivindicação específica da profissão médica ou docente, mas uma reivindicação igualitária geral.

É claro, o exercício da medicina, do ensino, do jornalismo ou da magistratura, coloca-nos questões muito específicas de opressão e liberdade, de igualdade e desigualdade, que suscitam energias militantes. No entanto, um médico que milita pelo direito ao aborto, contra o confinamento psiquiátrico ou que participa de um consultório gratuito, não realiza isso unicamente como médico, mas vinculando sua prática da medicina a uma ideia de igualdade dos sexos, de liberdade dos indivíduos ou de solidariedade social.

Entre os militantes dos movimentos sociais e revolucionários, sempre existiram médicos, advogados ou professores que participaram da ação política sobre a base de sua experiência profissional. Portanto, não se deve fazer desses compromissos uma novidade que significaria o alcance do movimento operário em novas categorias sociais ou o alcance da militância universal em uma militância das especificidades.

5. Sobre o comum e as comunidades. Você escreveu que a ideia de socialismo contém a ideia de uma gestão associativa e democrática dos bens comuns (a educação, a saúde, os transportes, a água, etc.).

Que formas de comunidade são necessárias para isso? São suficientes essas “comunidades de emergência, fortuitas e aleatórias” que, segundo você, surgem nos “momentos políticos”?

Pensar formas cotidianas de gestão democrática e associativa do comum, não nos obriga a pensar em um tecido social sólido, com relações duradouras, compromissos fortes e instituições estáveis? Isso é compatível com as subjetivações móveis, intermitentes e não identitárias das comunidades de emergência?

Em definitivo, pode se estabilizar um “poder de qualquer um” (ou dos 99%)? Isso pode acontecer sem se recair nas formas hierárquicas de divisão do trabalho e distribuição das funções? Você tem experiências disso em mente?

De imediato, não é minha tarefa encontrar a solução dos problemas em torno dos quais tantos movimentos coletivos, de ontem e de hoje, tropeçaram.

Há um primeiro nível da questão sobre o qual se pode responder o seguinte: a experiência demonstrou que as formas de gestão comum dos problemas que atingem a comunidade não podem ser adiadas sem prejuízo a um futuro subordinado às estratégias de tomada e ocupação do poder. Não se pode separar a luta pelo comum e a organização do comum.

Uma vez dito isso, surgem outros problemas. Por um lado, a questão de quais formas alternativas de sociedade igualitária podem ser estabelecidas no próprio seio da sociedade desigual. E, por outro, a questão de quais são as formas de organização que isso requer.

Sabemos que no passado existiram – por exemplo, nos movimentos anarquistas ou comunistas e, especialmente, no movimento anarquista espanhol – formas fortes de sociedades alternativas: cooperativas de produção, formas de vida coletivas, instituições educacionais e culturais. É evidente que tudo isso fazia parte de uma força coletiva que se traduzia também em meios poderosos de luta e em uma visão clara do futuro.

Os movimentos democráticos recentes voltaram a colocar na ordem do dia o aspecto das instituições alternativas, mas parece que é como se incumbisse a eles constituir, do nada, o terreno do comum, ao passo que no passado era o terreno do comum que fundava as instituições alternativas. É um problema que não será resolvido apelando à espontaneidade ou à organização, nem querendo substituir uma militância de classe por uma militância das comunidades.

Os compromissos estáveis de ontem dependiam mais da solidez dos horizontes de esperança do que das disciplinas de organização. As “comunidades de emergência” estão atravessadas pela oposição entre identidade e subjetivação. E a constituição de um comum vivido vai além, forçosamente, da acumulação de forças que os objetivos militantes específicos requerem.

6. Sobre política e tecnologia. O “clima” político dessa nova política cidadã se comunica, estende e se amplia por meio da Internet e suas redes sociais (as mais vulgares e massivas, como Twitter e Facebook).

Há dez anos, observamos uma correspondência entre a socialização das ferramentas comunicativas, para além do âmbito ativista (do Indymedia aos blogs e redes sociais), e a emergência de processos de nova politização protagonizados por gente comum (desde o “não à guerra” e a resposta social após o atentado do dia 11 de março de 2004 até o 15-M). É como se as redes tivessem ajudado a tornar mais participativa e móvel a coisa política.

Como pensar o uso político das tecnologias? Existe o ponto de vista da neutralidade: a tecnologia é um instrumento neutro que serve para o bem e para o mal. E existe o ponto de vista determinista: a tecnologia, por si só, suscita transformações sociais (revolucionárias ou catastróficas). Essa questão lhe interessa? Parece-lhe relevante? Poderia haver um terceiro ponto de vista?

Temos elementos suficientes para destacar os limites dos dois pontos de vista. Um instrumento técnico que serve como meio de comunicação nunca pode ser, simplesmente, um meio neutro para qualquer fim.

A questão dos “meios” [de comunicação] sempre foi sobredeterminado pela relação entre os que vivem no universo dos fins e os que estão confinados no universo dos meios: a quem eram chamados, por essa, razão homens “mecânicos”. Dito de outro modo, qualquer novidade técnica entra no seio de uma determinada partilha do sensível, onde a própria eficácia técnica é modulada por uma distribuição das capacidades e papéis sociais. De maneira tal que uma novidade técnica não basta a si mesma para definir uma nova partilha do sensível.

A tese catastrofista reaparece frente a cada novo meio: cinema, rádio, televisão, internet, redes sociais. Apesar do que se possa tomar emprestado das profundidades filosóficas heideggerianas ou do rigor científico e político do marxismo, essa tese sempre remete ao velho mito da caverna, que apresenta os ignorantes manipulados por aqueles que movem os fios.

Agora bem, apesar de todos aqueles que assimilam Internet à vigilância totalitária, as redes sociais serviram-na China, por exemplo, para construir formas de informação e circulação das ideias que se opõem ao monopólio do Estado policial. E em nossos países, supostamente entregues ao individualismo consumidor, permitiram que as pessoas, separadas entre si pelas novas formas de trabalho, comuniquem-se, encontrem-se e reconheçam o que lhes une e ganhem confiança. Desse modo, proporcionaram uma figura material ao poder dos anônimos.

Porém, esse efeito não é inerente ao meio técnico. A cada dia constatamos que o próprio meio é também uma via de expressão e difusão de todos os fantasmas identitários, racistas, sexistas e outros.

7. Sobre a subjetividade neoliberal. Se o poder consiste na produção de subjetividade, qual é a subjetividade que se produz hoje em dia? Existe algo como uma “subjetividade neoliberal”? Em que consiste? Poderíamos falar, nesse sentido, de um poder que não está fora de nós, mas que nos atravessa e conforma, no entanto, evitando os efeitos “despotenciadores” de “naturalização”, “vitimização” ou “culpabilização”?

É preciso resistir todas as descrições do mundo contemporâneo que o apresentam como um mundo homogeneizado pela lei do mercado, que constitui uma pequena burguesia globalizada. Muito ao contrário, o que chamamos neoliberalismo é um processo de diferenciação extrema.

Qual é a subjetividade “neoliberal” dos operários e as operárias de Bangladesh que fabricam – por um salário que recentemente alcançou os 65 dólares por mês – os suéteres que são vendidos em nossos supermercados? E dos operários migrantes chineses, submetidos a um regime de passaportes interno que recorda as cartilhas operárias do século XIX na Europa?

Em nossos próprios países europeus, o neoliberalismo não costuma produzir as formas de consciência “liberais”, supostamente homogêneas em relação ao culto da livre empresa e da livre circulação de capitais e mercadorias. A violência das manifestações contra o casamento homossexual na França, o furor evangélico dos anti-abortion nos Estados Unidos ou as recentes leis contra o aborto na Espanha provam a impostura das teses dominantes sobre a correspondência entre liberalismo econômico e liberdade sexual.

Há, de fato, formas múltiplas de conexão e desconexão entre diferentes tipos de liberdade. Por exemplo, as campanhas em favor do consumo instruído e responsável, que são desenvolvidas por diferentes associações de consumidores e grupos ambientalistas, que se apresentam como contrários ao sistema dominante, muitas vezes reforçam o modelo dominante de “liberdade” proposto pelo sistema: o da liberdade como instância de escolha, guiada pelo conhecimento.

Por outro lado, certa interiorização do modelo neoliberal teve como efeito – positivo, ao fim e ao cabo – o questionamento de uma fé muito simples das consciências progressistas de minha geração, que consideravam a potência coletiva como algo já dado e identificavam muito ligeiramente o socialismo e a gestão estatal dos meios de produção. E criou formas de consciência e de ação militantes para as quais a potência coletiva não é algo dado, mas a ser construída na própria ação.

8. O que é uma vitória ou um êxito na política? O 15-M produziu infinitos efeitos na sensibilidade e percepção de mundo, deslocando os limites do visível e o invisível, do possível e o impossível, do tolerável e o intolerável (o exemplo dos despejos é muito claro: agora é uma questão de rejeição social generalizada, ao passo que antes era completamente invisível e estava absolutamente normalizado e naturalizado).

No entanto, como (ainda) não se conseguiu nenhum grande “êxito tangível” (nas leis, na esfera macroeconômica ou do poder político), o discurso a respeito do 15-M é muito negativo, “despotencializador”, triste e pessimista (“não se conseguiu nada”, etc.). E esse relato tem efeitos depressivos terríveis.

Como podemos ver e valorizar (e fazer ver e valorizar, comunicar) essas outras “conquistas” ou “êxitos” da política, como a transformação da experiência vital e subjetiva, sensível e perceptiva (sem a qual, de fato, as demais mudanças não são possíveis)?

É uma contradição inerente às formas atuais dos movimentos democráticos. Inclusive, quando surgem de problemas muito concretos e localizados, como as árvores do parque Gezi, em Istambul. São movimentos fundamentalmente diferentes dos movimentos reivindicativos que podem contar suas vitórias em termos de modificações inscritas na lei.

Pode-se estar contente ou decepcionado com aquilo que os poderes públicos concedem, quando recebem a solicitação de alguma coisa concreta. Quando não lhes é pedido nada, quando se constrói a ação sobre a própria distância em relação a essas demandas, fica claro que, se o velho mundo não se afunda por si mesmo, espreita-nos a depressão que nos leva a dizer: nada pode mudar, ou melhor, é preciso voltar aos velhos modelos das organizações revolucionárias ou progressistas.

A questão que se apresenta aqui é saber o que entendemos por um movimento autônomo. Efetivamente, é muito importante insistir sobre o aspecto da transformação subjetiva e sobre a necessidade de preservar, por sua vez, a autonomia dos movimentos em relação às organizações político-sindicais e ao sistema de demandas dirigidas ao Estado que funciona como marco de sua ação.

No entanto, essa transformação não pode se manter por si só como propriedade de um coletivo. Deve se verificar constantemente. E isso se faz por meio das ações que desenvolve, como essas lutas contra os despejos, ou as formas concretas do comum que cria, mas também através de sua capacidade para realizar campanhas públicas pela transformação das leis e as instituições.

É possível atuar como uma força autônoma que consegue vitórias inscritas na lei e nas instituições, mantendo-se, ao mesmo tempo, distância da disputa que pretende obter lugares no aparato de Estado. Ou, em todo caso, é possível tentar unir a autonomia do movimento e a ação que define objetivos por alcançar na relação de forças, tal e como esta se inscreve também na lei e nas instituições.

Contudo, o problema mais importante é saber como a conquista de momentos de igualdade no mundo da desigualdade se articula com a perspectiva de um novo mundo de igualdade. Para além das banalidades sobre a espontaneidade e a organização, há um problema que já pode ser encontrado nos movimentos de emancipação do passado: a emancipação é uma maneira de viver como iguais no mundo da desigualdade. E essa maneira de viver bem pode ser autossuficiente. Quer dizer que, talvez, aqueles e aquelas que viveram esses momentos de igualdade não desejem mais nada.