SOBRE MORTES

[texto original]

Com cara na parede, mãos imobilizadas para atrás do corpo, ouvia aquela voz, que já tinha me xingado algumas vezes, justificar o porquê de tanta agressividade e ódio: – Vocês são o câncer do mundo, deviam todos morrer.

Dia 12 de junho. O ato que marcou a abertura da Copa na capital mineira foi campo de luta e resistência em todo país. Em Belo Horizonte os participantes concentraram-se na Praça 7 e antes mesmo do início da manifestação foram abordados pela PM de forma truculenta durante o procedimento de revista. Iniciamos a transmissão por volta de 12h, quando vários movimentos já estavam reunidos no local. A passeata percorreu as ruas de Belo Horizonte até chegar a praça da liberdade, onde o relógio da FIFA – monumento que fazia a contagem regressiva dos dias para o evento – permanecia isolado e escoltado pela tropa de choque da Polícia Militar.

Na chegada ao relógio, a tropa nos atacou com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Ficou claro o nível de despreparo, ou talvez a má intenção da PM mineira, que usou a força e praticou uma violência desmedida para “manter a ordem” de uma manifestação que até então era totalmente pacífica. Após o ataque, os grupos que participavam do ato se dispersaram, e foram divididos pela policia. Não consegui encontrar os membros da equipe de cobertura do NINJA e segui transmitindo o confronto da tropa de choque contra os manifestantes, que neste momento já eram minoria em relação ao contigente policial.

A violência começou a se intensificar entre PM e manifestantes, mas segui transmitindo ao vivo e narrando os acontecimentos, fazendo o que estava lá para fazer.

Segui um longo trajeto entre a Praça da Liberdade e a Praça Raul Soares e ao chegar na Av. Paraná 10 policiais correram para me imobilizar junto a outras pessoas que eu não conhecia. Depois de ser imobilizada fui alvo de agressão física e verbal. Tapas na cara, golpes de cassete na perna e nas costas – foi esse o protocolo da Polícia Militar ao fazer a abordagem.

No áudio da transmissão ouve-se facilmente ofensas machistas direcionadas à mim. Sou mulher, sou ativista, sou mídia e sou livre. Estava no direito de cumprir o meu trabalho documentando o que via nas ruas.

Fui conduzida à um posto policial próximo ao local que fui abordada com mais 3 pessoas. Chegando no local, mais agressão. Tapas, chutes, pancadas de cassetes e dessa vez até cuspe para nos dar as boas vindas. Quando me identificaram como a narradora do live, me tomaram o celular que estava transmitindo. Mandaram eu fazer o desbloqueio do celular para a “averiguação” do aparelho, mas como eu não sabia a senha, pois o celular era de outra NINJA, fui isolada do grupo e colocada sobre uma mesa, onde 05 políciais – homens e mulheres – que me bateram para forçar que eu dissesse a senha.

No momento do espancamento, um deles me acertou o lado esquerdo da cabeça. Desmaiei por um tempo. Quando me dei conta, estava acordando à base de mais tapas com os gritos de “Acorda, filha da puta!”, e quando recuperei a consciência, estava novamente junto aos 3 manifestantes que também foram recolhidos. Em seguida, fomos algemados e mantidos de pé por cerca de 2 horas, onde ouvimos calados os xingamentos, recebemos de olho aberto os cuspes e empurrões. Além de ter que aguentar isso, tive que escutar cantadas fajutas que me chamavam de “Gostosa!”, sendo declaradas em baixo tom para que não fosse ouvido por muita gente. Nojo Define!

Depois de consultarem minha ficha no sistema, descobriram que meus pais exercem a função de policiais civis, no Amapá – meu estado natal. Constatado isso, passaram a ironizar a minha participação no ato. Como se a profissão dos meus país fosse um motivo para inviabilizar minhas lutas e o exercício de minha atividade como midiativista.

Somente depois de uma hora e meia reclusa neste posto policial (fato que não consta nos autos do processo) fui conduzida até a “Delegacia da Copa” como se referiam os policiais. A principio, esta delegacia especial foi criada para receber todos os cidadãos que forem presos durante as manifestações. Chegamos por volta de 19h30, e fomos recepcionados por um grupo de advogados voluntários e da defensoria pública que foram muito atenciosos, e nos instruíram e apoiaram o tempo todo. Com a presença dos doutores, o tratamento mudou completamente, a tal ponto que os mesmo policiais que me chamaram de filha da puta, pediram desculpas quando fizeram um pouco de força ao tirar as minhas algemas.

Na delegacia desde o começo da noite, só consegui comer depois que os advogados – que me acompanhavam o tempo todo – conseguiram levar um sanduíche até a sala onde eu estava. Fui agredida por volta das 18h, e mesmo me queixando das dores que sentia logo que cheguei a delegacia, só fui levada ao hospital às 3h da manhã. Felizmente não quebrei nada, o que eu apresentava eram lesões leves, segundo os médicos de plantão. Saindo do hospital fui ao IML fazer o exame de corpo de delito , e quando voltei a delegacia fui encaminhada para prestar depoimento. Na presença de dois advogados, relatei exatamente o que aconteceu, mas mesmo diante do meu relato e da intervenção dos advogados, o delegado afirmou que as declarações dos policiais eram soberanas as nossas e que eu seria presa e indiciada.

Às 5h da manhã, fui oficialmente declarada uma presidiária do estado de Minas Gerais e às 7h cheguei ao CERESP, mas tive que voltar ao IML para fazer o exame de corpo delito, necessário para minha inclusão no presídio, porque o laudo feito anteriormente tinha misteriosamente “desaparecido”. Ao voltar a outra DP para fazer o exame, o segundo médico sequer tocou em alguma região dos machucados pelo meu corpo.

Sem notícias de nada do que estava acontecendo, da mobilização nas redes e do próprio processo jurídico, ao chegar novamente ao CERESP Centro-Sul, por volta das 9h da manhã, encontrei meus companheiros do Fora do Eixo e o deputado federal Nilmário Miranda, que estavam ali para garantir que os atos de agressão não voltassem a se repetir no presídio.

À tarde, fui levada até ao Ministério Público para prestar depoimento para a Promotora Nívea Mônica na presença do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MG, William Santos e da Defensora Pública Fernanda que naquele momento já estavam responsáveis pelo caso e gentilmente me atualizaram do processo judicial em curso. Ao cruzar os corredores do MP pude novamente rever os companheiros da Casa FDE Minas, e mesmo com o coração dilacerado, e o corpo exausto, tive a certeza que existia um cuidado e uma mobilização enorme para que a Justiça fosse feita e eu pudesse sair daquela situação. Este breve contato fez eu sair do MP e voltar para o presídio com a força necessária para dar conta de um dia que ainda seria longo.

Depois de chegar e passar por todos os procedimentos, ali estava eu, encarcerada, de uniforme, numa cela com outras 6 detentas, pensando que agora fazia parte das estatísticas. Durante todo o dia não foi possível para de imaginar que esse era só mais um caso de injustiça, como centenas e centenas de outros escondidos e invisibilizados. O conforto que tinha ao lembrar das pessoas que junto comigo constroem uma rede de comunicação e cultural no Brasil, e buscam a partir dela combater estas mesmas injustiças, misturava-se com a indignação de saber que muitas mulheres que estavam naquela mesma situação que a minha não tem este conforto, e por isso não teriam a mesma sorte.

Por volta das 2 da manhã, quando já pensava que passaria a noite na prisão, fui chamada e avisada que seria solta. Ao sair, e novamente reencontrar meus parceiros de vida e retornar a Casa Fora do Eixo Minas é que tive consciência de todo o movimento e de toda a mobilização em torno da minha liberdade. Mais do que nunca tive a certeza que mesmo com as injustiças ainda prática das contra novas formas de vida e organização, eu estava no lugar certo, com as lutas certas.

Tenho que agradecer muito a todos os que se mobilizaram, em especial aos fora do eixo e ninjas espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Tenho a plena convicção, que mesmo com toda a tentativa de impor o medo, a coragem de todas estas pessoas juntas são de extrema importância para que possamos seguir lutando contra o machismo, injustiças, desigualdades e pelos direitos fundamentais da liberdade de imprensa e a possibilidade de termos uma nova policia, desmilitarizada e cidadã.

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DRONES E O DESENHO DO MUNDO

[texto original]

Bondi Beach

Port Grimaud

Córdoba Olive Trees

Niagra Falls

Stelvio Pass

La Plata, Argentina

Viareggio, Italy

Central Park, NYC
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WHY DETROIT MATTERS

[texto original]

por Sueli Andrade

A alteridade é a experiência comum pela qual todos nós passamos, não importa a medida da mudança, deslocamento. Acompanha todos os seres humanos desde a sua primeira interação com o mundo, fora do útero materno. Do unheimlich freudiano (1919) às esferas de Sloterdijk (1998,1999 e 2003), a alteridade tem sido debatida nas suas diversas camadas de experimentação. Estranhamento consigo próprio, com a casa, a família e com a sociedade num crescente incremental das nossas interações com o mundo.

Essa breve introdução é para nos dar conta da importância do encontro com o outro e principalmente para o desenvolvimento intelectual-cognitivo e maturação do sujeito enquanto ser social. Dito isso, a oportunidade de poder estudar fora do Brasil, amplia-se muito além da experiência acadêmica-intelectual e justifica plenamente a importância de termos um programa público de financiamento para pós-graduação sanduiche. Outra língua, outros costumes, outros climas, outras roupas, outros sabores, outras pessoas. Tudo é da ordem do outro. E o outro é vital à existência do ser.

Meu destino, de intercâmbio e de desejo, foi Detroit. Interessada no tema do pós-humano, suspeitava que a cidade seria um recorte precioso do imaginário sobre a questão, a partir de um ponto de vista distópico. Minha expectativa imaginária transformou-se em um real sem mediação simbólica.

Na década de 1930, a cidade chegou a ser responsável por 40% da produção automobilística mundial, tempos áureos. Digite hoje na rede “Detroit” e encontrará principalmente informações sobre a(s) crise(s) ao longo das últimas décadas que derrubaram a economia local, culminando em grandes e constantes levas migratórias para os subúrbios nas últimas décadas e que, por si só, proporcionaram um vazio urbano-existencial em cerca de 2/3 do território habitável. Por conta disso, 100 mil lotes e cerca de 40 mil imóveis residenciais, comerciais e fábricas foram abandonados configurando visualmente a chamada “ruin porn”.

Pois bem, ocorre que muito da expectativa de quem opta por fazer um intercambio é se deparar com uma cultura e estrutura exemplares, nas quais possa coletar exemplos, incrementar o repertório pessoal e intelectual com todas as benesses do primeiro mundo em particular. Importante ressaltar que, independente de como se configuram essas expectativas, ninguém escapa à experiência da alteridade, quando se depara com o outro.

Mas onde se dá o encontro particular entre alteridade e Detroit que se pretende discutir brevemente neste artigo? Dá-se no não-encontro como se dão todos os verdadeiros encontros, aceitando-se a não-relação entre dois. Imagine por um instante vivenciar esta experiência em um lugar que é corpo-estranho de si próprio, no qual a falta aparece em toda esquina e a ausência é a grande presença na cidade. Como lidar com o vazio, aquele que insistimos em deixar quieto, justamente para não nos aborrecermos com as agruras pessoais e do mundo?

Digo que a experiência de alteridade neste caso é um pouco mais traumática. E traumas podem inaugurar sentidos nunca antes experimentados pelo sujeito, o que pode abrir de fato para uma transformação verdadeira. Em um sentido mais amplo, levando em conta o cenário exposto, a pergunta vira: a crise é minha ou é do lugar no qual hoje existo? Como se resolve um impasse desses? Aproprio-me de Sloterdijk : “se não puder mudar o mundo, mude a si mesmo”. Em seu livro Du musst dein Leben ändern (Você precisa mudar sua vida), o filosofo alemão defende que, a partir da Revolução Francesa e Russa, a Modernidade trouxe maior repressão e um sofrimento impossível de mensurar ao invés de trazer as mudanças ligadas ao ideal de liberdade. Leio este recorte como uma atualização do mal-estar freudiano.

Mudar a si mesmo é questão de sobrevivência em contexto de crise. Mas como evitar a radicalidade da mudança através do outro a ponto de deixar de ser o que lhe define enquanto tal? Enquanto sujeito, a quais semblants pode-se agarrar em território desconhecido para não ser extirpado da sua sustentação neurótica?

Do ponto de vista que se pretende para esta narrativa específica, dou como resposta a arte. Denominador comum a todas as culturas do planeta, mas com poder de afetação muito particular em cada um. Arte enquanto experimentação estética, possibilidade de provocar a ordem e despertar reflexões em nível social, econômico, político e singular.

mural rivera

No Detroit Institut of Arts, está a obra mais famosa de Diego Rivera: Detroit Industry(1932). A convite do empresário Edson Ford, o pintor mexicano passa uma temporada na cidade, acompanhado de sua esposa e brilhante artista Frida Kahlo, para produzir o mural e retratar dessa forma a pungência da indústria automobilística. Mas o contexto vivido e experimentado pelos artistas é do embate da luta de classes, com forte tensão social nas relações entre empresários e trabalhadores. E é esse disparate que fica evidenciado na obra final de Diego. Estar diante dessa pintura de arte revela o comum a toda sociedade contemporânea: a divergência das relações, a inviabilidade do encontro e o sim à violência. Triste constatação identificatória.

Já pela percepção mais singular, revela-se para a predominância de uma representação de universo maquínico ainda orgânico, dado o grande número de trabalhadores ilustrados, bem como pelas tonalidades mais pasteis na composição da obra e máquinas posicionadas como coadjuvantes em cena. Se fosse hoje, como Diego ou qualquer outro artista retrataria a indústria automobilística e mesmo a cidade de Detroit?

Proporia dois vieses diferentes. De um lado, plantas de produção de carros equipadas com altíssima tecnologia, pouca força humana trabalhadora, hipernível de organização e segmentação: a utopia do maquinário e proposta de modernidade para o século XXI. Do outro, a completa distopia nas milhares de casas abandonadas e no vazio urbano de uma cidade que abriga em torno de 1/3 da ocupação demográfica possível.

Aconteceu aqui, pode acontecer em qualquer grande metrópole capitalista e este é um dos motivos pelos quais olhar para a cidade é tão importante, por mais incômoda que seja a sensação de estranhamento. Mas não é só por isso que Detroit importa. O exemplo da cidade está nos rearranjos que a cidade tem feito para não se desmantelar, assim como faz o sujeito na sua experiência mais radical de alteridade para não se despedaçar.

Detroit articula novas redes, amarrações e sentidos nos quais destacaria a arte urbana e instalação de complexos artísticos em casarões abandonados. A arte tem se apropriado da cidade, território selvagem e em estado in natura para aqueles que pretendem livre exploração e experimentação no mundo. Um raro espaço no planeta, especialmente nos EUA onde tudo é altamente regulamentado.

O projeto de arte urbana com maior destaque é o já internacionalmente conhecidoHeidelberg Project (1986). Um artista local, chamado Tyree Guton, começou a intervir em um quarteirão abandonado, fazendo sua arte a partir de objetos encontrados em lixo reciclável e reconfigurando assim as casas abandonadas. O mais interessante é que uma das vertentes deste trabalho é discutir a relação do tempo e suas transformações. Há centenas de relógios, ao estilo Salvador Dali, desenhados e/ou esculpidos no quarteirão e pregados nas casas, árvores, postes. “A efemeridade, mas não imparcialidade do efeito do tempo na vida e seus efeitos”, segundo o próprio Tyree. O projeto hoje é uma instituição sem fins lucrativos, com sede própria e que apoia novos artistas made in Detroit, além de promover ações educativas junto a comunidade.

heidelberg

Ainda sobre as novas tramas que compõem o tecido atual da cidade, é impossível não mencionar a existência de diversas fazendas comunitárias urbanas, com produção de alimentos 100% orgânicos; organizações civis sem fins lucrativos que assumem responsabilidades públicas como manutenção de parques e até mesmo transporte público escolar. Mas e o poder público? A prefeitura decretou falência em 2013. Atualmente esta esfera de poder concentra-se nas políticas econômicas na medida em que facilita subsídios para empreendimentos imobiliários e grandes, médias e pequenas empresas. Ou seja, busca-se uma opção dentro do próprio sistema para sair da crise que o próprio sistema gerou. Discutir este não-encontro valeria um outro artigo.

Poder vivenciar alteridade neste contexto é um privilégio. Especialmente em um contexto de tendência normativa e pasteurizante-paralisante em um mundo no qual todos sabemos exatamente o que iremos encontrar around the world (mesmas lojas, mesmos estilos de arte, mesmas grandes redes, mesmos hipsters etc). Jim Jarmusch em “Only Lovers Left Alive” (2013) representa este sentimento ao fazer de Detroit a moradia de Adam, um charmoso vampiro-músico que se encontra deprimido e cansado por conta do rumo que a humanidade tomou nos últimos séculos.

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Temos ainda, a partir do título do filme, uma especulação naive, mas não menos possível sobre como ultrapassar a crise, seja ela de ordem singular, generalizada no mundo ou em Detroit: a saída pelo viés do amor. Este é o componente não citado até então, mas que precisa ser vivenciado principalmente na relação de respeito ao próximo, seja ele um igual ou representante de um outro.

No mais, acredito que uma experiência de alteridade que, de fato, produza sentidos muito além dos horizontes da ladainha neurótica de cada um, é uma possibilidade edificante de se transformar o mundo. Só assim exercitamos dois importantes preceitos psicanalíticos de forma socializante: a premissa da escuta e o olhar para o outro. E nesta fronteira do imaginário com o simbólico na qual se articula o desejo, passei a correr atrás de o “um” que me incite a ser menos eu, e mais o outro. Por finalmente me fazer compreender isto, digo: “obrigada Detroit: ain’t no mountain high enough, ain’t no valley low enough, ain’t no river wide enough to keep me from getting to you babe[1].

Referências bibliográficas

Freud, S. (1919/1996). O estranho. Obras completas, ESB, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago Editora.

SLOTERDIJK, Peter. 2003. Esferas I. Burbujas. Madrid: Siruela.

Referências da rede

http://www.dw.de/sloterdijk-sugere-mudança-individual-em-era-de-crise-global/a-4256196

http://www.nytimes.com/2014/05/28/us/detroit-task-force-says-blight-cleanup-will-cost-850-million.html?_r=0

Imagens

Mural Rivera: https://www.google.com/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0CAUQjhw&url=http%3A%2F%2Fobserver.com%2F2014%2F11%2Fdetroit-institute-of-arts-holdings-safe-as-judge-rules-in-favor-of-grand-bargain%2F&ei=nzM0VceCCcnNsAXP3oCgCw&bvm=bv.91071109,d.cGU&psig=AFQjCNEVzvTARsOaxS4BvILLRFY8Os_JAw&ust=1429570720955123

Heidelberg Project:

https://www.google.com/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0CAUQjhw&url=http%3A%2F%2Flittlemissdetroit.com%2F%3Fp%3D473&ei=NDk0VZLRDsTjsAWazYCICw&bvm=bv.91071109,d.cGU&psig=AFQjCNHzuYCi9L3DZeWGFBPgDnwkXBB_6A&ust=1429572270487046

Only Lovers Left Alive:

Shot screen de cena do filme

Videografia

Only Lovers Left Alive (2013)

Detropia (2012)

Searching for Sugar Man (2012)

[1] “Ain’t No Mountain High Enough” (1967) , Marvin Gaye e Tammy Terrel – hit mundial oriundo da Motown, a gravadora originária de Detroit.

O BRASIL DE FAZ-DE-CONTA

[texto original]

Sociólogo Jessé Souza, que assumiu o cargo este mês, diz estar disposto a traçar um retrato inédito dos brasileiros

Quais são os planos para o Ipea?

Como órgão da Secretaria de Estudos Estratégicos (SAE), queremos municiar a ação do governo a curto, médio e longo prazo. Manter o que vem sendo bem produzido e criar mais dois projetos estratégicos. Um deles está com título provisório de “Radiografia do Brasil Moderno — onde estamos e para onde podemos ir”.

É uma nova pesquisa?

É um estudo importante e inédito, porque vai unir três perspectivas que sempre andaram apartadas. A primeira é o conhecimento estatístico dos grandes dados. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, os números não falam por si, precisam ser interpretados. E, para serem adequadamente interpretados, é necessária a dimensão compreensiva, têm que ser enriquecidos por uma perspectiva muito mais difícil de ser percebida, que é como as pessoas pensam e interpretam o mundo. E elas fazem isso de modo muito distinto, a partir da sua classe social.

É uma espécie de super censo?

Sim, mas não é censo, porque o censo só dá o dado. Vai ter o tratamento estatístico refinado, junto com um estudo compreensivo sobre as classes sociais. Interessa descobrir como capacitar essa classe de trabalhadores, que cresceu muito nos últimos anos, para que ela seja capaz de assimilar novas tecnologias e aumentar sua produtividade. Para isso, é necessário entender como se dão as várias dimensões da sociedade. É preciso ter em mente que cada classe nem é uma coisa só, nem é composta de indivíduos diferentes entre si, mas um meio termo. Sem uma noção articulada disso, a gente não consegue conhecer a realidade e modificá-la.

Parece bastante ambicioso…

O Ipea é um instituto de pesquisa aplicada, não adianta só saber dados estatísticos e ter a compreensão das classes sociais. O Ipea tem que produzir para a sociedade. Para mim, a pesquisa só faz sentindo se é aplicada, se melhora a vida das pessoas. Se não, é blá blá blá, serve para enfeite, vaidade individual, mas não é ciência efetiva. A ciência existe para melhorar a vida das pessoas ou não merece esse nome. A gente quer compreender quem são os brasileiros para melhorar a vida deles. O terceiro eixo será inovação institucional.

A melhora seria via instituições?

Exatamente, construindo uma inteligência institucional. As pessoas estão sempre dentro de alguma instituição, que são os grandes elementos para melhoria da vida de homens e mulheres comuns. É isso que a gente quer. Se não conseguir isso, a gente fracassou. A ideia é dotar a instituição educativa, a de saúde, a de treinamento profissional de uma inteligência para adaptá-las às necessidades das pessoas. Fazer com que diminua o que se poderia chamar de má-fé institucional. O que é isso? As instituições normalmente prometem uma coisa e frequentemente entregam outra. Não tem nenhuma maldade das pessoas, elas não dizem: ‘vou produzir mal, vou educar mal’. Não é isso. Acontece que a lógica institucional faz com que o resultado seja diferente da intenção original. A gente quer melhorar esse quadro. A sociedade brasileira sempre fez política para a classe média. Nos últimos dez ou 15 anos, houve ascensão enorme de pessoas que estão entrando em novas instituições, nas universidades e que vêm de uma vivência muito distinta da de classe média. Há 70% da população que não são de classe média e só são conhecidos de forma fragmentada.

Até pouco tempo, o discurso da SAE e do Ipea era que a ascensão desse grupo fez o Brasil ter mais da metade da população na classe média. O senhor é um crítico da definição de classe média apenas com base na renda. E agora? O Brasil deixa de ser país de classe média?

O termo não é o principal. É inegável que houve ascensão. Foram pessoas que estavam excluídas da sociedade e entraram no mercado competitivo, como trabalhadores e consumidores. Entrar no consumo é a dimensão mais importante. Só não se pode dizer que sejam classe média, porque a classe média é rigorosamente uma classe privilegiada, e essas pessoas não são privilegiadas. É uma classe que luta para se manter onde está e precisa ser capacitada. É o que a gente quer fazer. Se ao fim e ao cabo, terminar por se constituir, a longo prazo, um país de classe média, ótimo.

Então, pode mudar o nome, mas este grupo continua no foco?

Este grupo é o foco central da capacitação, e esta é uma agenda capacitadora. Para atender às demandas das empresas, mas antes de tudo, para ter um trabalhador mais produtivo, um pequeno empresário que possa achar seu nicho de negócio, compreender as variáveis complexas da economia. Como fazer? Esse é o desafio que a gente quer encarar de frente.

Seu conceito de produtividade não deve ser o mesmo dos que reclamam do descasamento entre a alta da renda e o da produtividade do trabalhador…

É claro que não, você não pode reclamar da baixa produtividade, imaginando que todos os seres humanos são como você, da sua classe. Mas é assim que as pessoas pensam: “se consegui fazer meu curso de Economia em Havard, por que essa pessoa não consegue ao menos manejar uma máquina direito?” No fundo, nós todos universalizamos o sujeito de classe média e, cheios de preconceito, dizemos: por que o cara é tão burro e preguiçoso que não consegue nem montar o negócio dele? Não é a nossa perspectiva. Vamos entender essas pessoas pelo modo como foram construídas e abandonadas, não só pelo governo, mas pela sociedade. As pessoas têm que ser compreendidas em todas as dimensões, para que a escola funcione, a saúde seja melhor. Não adianta fazer cursos-padrão como se servissem a todos. O Brasil não conhece o Brasil, só faz de conta que conhece, o que é muito pior.

Como o senhor vê os protestos de 2013 e as passeatas deste ano?

Este é um dos pontos que a gente precisa compreender, quais são as demandas dessas pessoas. O Brasil desconhece o Brasil, em especial o Brasil que sempre foi ocultado, que são esses 70%. As pessoas normalmente chutam, acho que é isso, que é aquilo. A gente quer responder perguntas sem “achismo”. Não é só ouvir as pessoas, é conhecer e, em certa medida, reconstruir o sentido da sua ação, porque elas, muitas vezes, não sabem o que são. Não é pesquisa quantitativa, é qualitativa, acompanha muito mais coisas. Os mais pobres, por exemplo, tendem a fantasiar a vida porque, se a realidade é intragável, a única saída é a fantasia. Então, temos que compreendê-las para além da fantasia. Tem uma certa forma de etnologia vulgar que pega a fantasia das pessoas e apresenta como a verdade delas. A gente quer fazer um trabalho melhor, sofisticado, para que quando houver a manifestação a gente possa entender.

Qual é o outro projeto estratégico?

O segundo pretende estudar países em situação semelhante ao Brasil e países diferentes, como EUA e Alemanha, para aprender porque, algumas coisas neles deram certo e aqui não, e vice-versa. Aprender e ensinar, porque não é uma via de mão única, há coisas que o Brasil faz melhor do que a Alemanha etc. Obviamente, isso está em consonância com a dimensão política. Temos a sorte de ter um ministro como o Mangabeira Unger, na SAE, e uma presidente que o estimula na produção de alternativas. São propostas de interesse do governo.

O senhor combinou com o Joaquim Levy (ministro da Fazenda)?

Risos.

Porque pesquisa custa dinheiro, e recentemente, vimos o IBGE cancelar projetos por corte no orçamento.

É claro que é melhor ter dinheiro que não ter, mas, ao mesmo tempo, dinheiro não é tudo. Uma coisa mais importante, e estou citando o ministro Mangabeira, são ideias. Ideias são o que há de mais importante no mundo. Com dinheiro e sem ideias você não faz nada. E com ideias e um pouco de dinheiro você faz muita coisa. Se é algo importante, que a sociedade e o governo precisam, não vai faltar dinheiro. Minha vida inteira mostrou isso. Com muito pouco dinheiro, a gente fez coisas relevantes, fez o primeiro estudo sobre os excluídos do Brasil. Agora, temos a estrutura do Ipea, com o que já vi do trabalho fiquei encantado. São centenas de técnicos extremamente bem treinados, alguns dos melhores do país. E usaremos a capacidade instalada da inteligência nacional e internacional.

Esse projeto coincide com a fala do ministro Mangabeira sobre a agenda estratégica pós-ajuste?

Não por acaso. O que estamos tentando é fornecer elementos para que o ministro Mangabeira possa montar essa estratégia pós-ajuste, que tem a ver com melhoria coordenada das instituições brasileiras. É uma grande ambição, mas seremos humildes. Ambição e humildade são duas coisas que as pessoas imaginam antagônicas, mas não são, porque se você é humilde, você ouve as pessoas, aprende, aceita ajuda e consegue um resultado importante.

Qual será o ponto de partida?

Isso é que estamos fazendo agora, o esboço do projeto, mas não vamos ficar seis meses montando. Espero em um mês estar com o projeto pronto e apresentar resultados a cada três meses. No início, ele precisa maturar, mas acredito que em seis meses a gente possa ter resultados práticos.

O QUE SE QUER ESQUECER NO LITORAL DO MUNDO

[texto original]

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Mais de 400 pessoas por mês, 14 por dia e uma a cada 100minutos. Mais de 1600 só nestes primeiros quatro meses de 2015 (até 20 de abril). Estas são as fotos de (apenas) algumas delas. Elas são as vítimas dos naufrágios com imigrantes ilegais vindos do norte de África. No ano passado, em 2014, entraram 220 194 pessoas na Europa nestas condições, e 3800 morreram ao tentá-lo.

As fotos, muitas delas premiadas no World Press Photo, são fortes e elucidativas. A poucas horas (esta quinta-feira à tarde) dos líderes da União Europeia tomarem algumas decisões (estão reunidos em Bruxelas para discutir a crise do Mediterrâneo), o Observador selecionou dez imagens que (os) obrigam a pensar.

De acordo com as declarações de Donald Tusk ao The Washington Times, a União Europeia quer tomar “medidas muito práticas”. Por enquanto,sabe-se que está a preparar uma intervenção militar para destruir as embarcações dos traficantes de imigrantes. Contudo, oThe Guardian noticiou na noite de quarta-feira que a Europa só está disponível para abrigar 5 mil por cada 150 mil imigrantes africanos que cheguem ao continente.

Apesar de tudo, sobretudo do risco de vida, de acordo com as Organização das Nações Unidas, até ao final do ano, meio milhão de imigrantes ilegais atravessarão o mar Mediterrâneo, segundo a Lusa.

O GOVERNO DOS ALGORITMOS

[texto original]

Na semana passada, o Facebook mudou o algoritmo. Mudou o que define o que aparece na sua TL, o que será valorizado, ignorado, escanteado. Bem mais sorrateiro do que a censura direta, um algoritmo é uma função. Você fornece um input e ele calcula um output. Uma rede social como o Facebook opera milhares de algoritmos, cada um processando milhões de bits numa velocidade enorme. Seria impossível substituir os algoritmos por operadores humanos. Perceber os algoritmos que determinam a sua presença numa rede social é um bom começo para entender como funciona o capitalismo.

O sistema financeiro global depende de softwares de previsão, negociação, otimização de lucro, que inclusive agem diretamente nas bolsas, sem passar por humanos. Mega-redes logísticas como Amazon ou Walmart estão organizadas por algoritmos, assim como cadeias de montagem transnacionais (fração significativa da produção mundial), em que cada componente é fabricado num lugar diferente, às vezes em continentes diferentes. O serviço de inteligência de nações, como o PRISM da NSA, se baseia em algoritmos que peneiram o colossal volume de dados digitais e telefônicos, o big data. Em 2015, já existem algoritmos que geram outros algoritmos, campo de estudo da meta-heurística. A ideia é desenvolver algoritmos evolucionários, de segunda ordem, que otimizam os processos de otimização e são considerados condição para o surgimento da “inteligência artificial”. No fundo, ela já existe.

Então, o que fazer? quando estamos imersos nessa Cosmópolis financeira, logística e securitária? que nos excede em tal escala e intensidade que não podemos sequer ter uma noção do tamanho de nossa defasagem? Às vezes penso que as nossas preocupações ainda estão longe de tocar o problema. Que não é abstrato, pelo contrário, é o que define a nossa presença no mundo.

***

Três livros que tratam de uma “algorítmica da resistência”:

1) “A Vast Machine” (2010), Paul N. Edwards, sobre previsão de mudanças climáticas e política ambiental;
2) “Red plenty” (2010), Francis Spufford, ficção sobre uma sociedade organizada racionalmente pelo dirigismo cibernético, realizando assim o sonho/pesadelo soviético da planificação total — inspiração, por exemplo, do governo Allende no Chile, com o projeto CYBERSYN, que misturava psicologia da Gestalt com macroeconomia keynesiana;
3) “Gli algoritmi del capitale” (2014), org. por Matteo Pasquinelli, que assume a existência de um automaton tecnossocial globalizado e só enxerga linha de fuga na constituição de máquinas do comum para a desativação, sabotagem e reprogramação das biotécnicas de controle e produção.

REMOÇOES MORADORES NO RIO DE JANEIRO

[texto original]

Livro mapeia remoções de moradores na gestão de Eduardo Paes

No contexto pré-olimpíada, 67 mil pessoas tiveram que se mudar, mais gente do que Pereira Passos e Lacerda removeram juntos

A pouco mais de um ano da Olimpíada no Rio de Janeiro, um livro chega às prateleiras para mostrar os efeitos desse evento e da Copa do Mundo de 2014 no planejamento urbanístico da cidade. SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro olímpico faz um mapeamento das remoções feitas pela gestão do prefeito Eduardo Paes (PMDB) entre os anos de 2009 e 2013 – mais de 65 mil – e conclui que Paes promoveu mais despejos do que Pereira Passos e Carlos Lacerda juntos.

O trabalho é fruto da pesquisa de conclusão da graduação em Arquitetura e Urbanismo de Lucas Faulhaber, formado pela Universidade Federal Fluminense. A convite da Mórula Editorial, a jornalista Lena Azevedo e o fotógrafo Luiz Baltar se juntaram ao projeto e nasceu o livro. Na segunda parte da obra, Lena conduz entrevistas com 12 moradores que tiveram que deixar suas casas. O prefácio é assinado por Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo e relatora das Nações Unidas para o direito à moradia adequada entre 2008 e 2014.

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Com a pesquisa, a intenção inicial de Faulhaber era provar que, enquanto muitos colocam a ausência de planejamento para justificar a dita cidade partida, a exclusão é resultado sobretudo de uma estratégia de planejamento urbanístico. ”Ao investigar a produção dos planos, leis e projetos estruturantes do Rio, pude perceber um elevadíssimo número de desapropriações e posteriormente de remoções que estavam sendo consideradas fundamentais para a realização de projetos, principalmente nos últimos anos”, explica.

Para o arquiteto, há um processo de violação de direitos, que fica ofuscado pela Olimpíada. “A retirada dos mais pobres do seu local de moradia é sempre considerada preceito fundamental para a valorização do território, os ovos que devem ser quebrados para se fazer um omelete. Foi assim no bota-baixo de Pereira Passos, nos incêndios das favelas da Zona Sul durante o governo Lacerda e agora não é diferente na preparação da Copa do Mundo e Olimpíadas”, ressalta.

Prefeitura. Desde o início das obras para a Copa e a Olimpíada, Eduardo Paes tem sido questionado sobre as remoções. Ele repete que as obras estão sendo feitas não em função dos eventos esportivos, mas para beneficiar a população. Em 2014, quando recebeu da Anistia Internacional um abaixo-assinado pelo fim das remoções compulsórias, Paes admitiu que a prefeitura manteve “pouco diálogo” com moradores removidos em função da construção dos BRTs (linhas expressas de ônibus) Transcarioca e Transolímpica.

Antes, em 2013, em entrevista à revista Carta Capital, o prefeito justificou as remoções. “A maior parte das remoções são desapropriações formais, em áreas de classe média, classe média baixa. As remoções em favelas, normalmente, ocorrem em áreas de risco. A gente oferece aluguel social de 400 reais, indenizações ou uma unidade do Minha Casa, Minha Vida. É verdade, boa parte dos apartamentos fica na zona oeste. Mas a pessoa pode optar. Dizem que o valor do aluguel é baixo, mas eu tenho 9 mil famílias inscritas no programa. Se ele não concorda com o valor da indenização, pode recorrer à Justiça. Aliás, as indenizações que oferecemos estão superfaturadas, mas como é por uma boa causa ninguém reclama”, afirmou na ocasião. (Maria Eduarda Chagas; colaborou Fábio Grellet)

NO COMPLEXO DA MARÉ, UM CELULAR POE MAIS MEDO QUE UM FUZIL

[texto original]

FELIPE LAROZZA
MAURICIO FIDALGO

Quinta-feira, 9 de abril, o sol está a pino. Descendo a passarela, um morador do Complexo da Maré pressente algo errado. Ainda falta mais 20 minutos de caminhada até a sua casa e as ruas estão completamente vazias, muito diferente do vaivém normal da favela.

Na página Maré Vive, a mensagem é clara: tiros na VJ (Vila do João). Os comentários logo vão completando a informação: os nomes das ruas onde os tiros estão ocorrendo são informados, assim como a triste notícia de outro baleado na guerra da Maré.

Maré Vive é uma das dezenas de páginas criadas, gerenciadas e mantidas por moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. Muitas vezes, essa é a única fonte de informação em tempo real.

O clima de tensão tem várias frentes. As facções que guerreiam entre si, Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro, Milicianos, Polícia Militar, e as forças do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, todos esses grupos estão presentes hoje no Complexo da Maré, uma das regiões mais instáveis da cidade.

Longe da comunidade, N., um dos criadores do Maré Vive, nos deu um papo reto de como tudo começou, e por que o fim se aproxima. A proposta inicial era acompanhar as forças de pacificação. Hoje, a página tem mais de 26 mil curtidas. Os administradores se mantêm anônimos, o que possibilitou uma crítica aberta e direta aos assuntos.

“Nossas pautas são orgânicas, têm vida, estamos aqui. Vejo uma foto legal, tiro e coloco lá. Quando um tema importante sai na TV a gente comenta”, explica.

Esse cenário de liberdade e agilidade de informação começou a se desmontar no último dia 5, quando uma página fake com o mesmo nome foi criada e passou a fazer denúncias com fotos de rostos de traficantes e a localização das bocas. O medo foi instantâneo.

Em poucos dias, os traficantes começaram a desconfiar de todo e qualquer morador, realizando abordagens e ameaças de morte.

Os criadores da página oficial começaram a receber ameaças de tortura, morte e perseguição de familiares pelas redes sociais. Quando um X-9 (delator) é pego ou vendido para os traficantes, as torturas deixam qualquer grupo terrorista do Oriente Médio no chinelo.

Parece simples diferenciar uma página de moradores de outra, com um logo influenciado pelo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, mas os desdobramentos e a confusão se intensificam em outra rede social, muito mais popular nas comunidades que possuem menos computadores e mais celulares, o WhatsApp. Lá, as imagens são compartilhadas sem a referência da página e somente com a hashtag #marevive. Até provar que focinho de porco não é tomada, cabeças podem rolar sem o menor pudor, ou qualquer receio de errar por parte do poder paralelo.

E a repressão não termina aí. Com essas fotos rolando, as blitze vêm de todos os lados. De um, os traficantes agora abordam os moradores para checar os celulares em busca do famigerado X-9. Do outro, o exército usa uma “ordem coletiva” que os permite entrar em qualquer casa, precisando apenas da suspeita por parte do comandante da operação. Até mesmo as ONGs que trabalham na comunidade pressionam a página, reclamando do anonimato.

No entanto, a Maré Vive rebate, já que é o seu único modo de defesa. “Nossa credibilidade vem da informação rápida. A galera sabe que moramos na favela. Sai um tiro aqui, agora, a gente posta. Isso gera credibilidade aqui dentro. Fora daqui é nosso discurso. Não precisamos aparecer”, frisa N., emocionado na frente de dois completos estranhos, nós.

Percebemos que a guerra também é psicológica. Sozinhos e contra todos, os administradores da página só contam com o apoio da população. “Antes da internet e do digital, quem tinha o poder da informação, de contar a história, era quem tinha o dinheiro. Agora é faroeste. Estamos na guerra da informação.”

Diante do medo pela própria vida e de seus familiares, uma coisa é certa: eles acreditam no que fazem. “Temos muito medo desde que a página foi criada. Se for para fazer uma página pela-saco, tapinha nas costas, não vamos fazer”, relata o administrador.

Os mais de dez colaboradores da página dizem não buscar fama nem acreditar na mídia convencional. Uma das principais referências e provavelmente a maior página do estilo no Rio, A Voz da Comunidade –que nasceu com a ocupação do Complexo do Alemão– deixou de ser um norte.

“A galera [da Voz da Comunidade] tem um alcance do caralho. Tira onda pagando de boyzinho, vai no Esquenta! [programa de TV da Rede Globo] e aí vira referência pra mídia comercial. Aí, em vez de o cara hackear a mídia convencional, ele é hackeado. Essa mesma mídia começa a usá-lo para legitimar o discurso dela”. N. ainda brinca sobre as respostas negativas que dão aos insistentes pedidos de entrevista vindos da Globo: “Temos até um texto padrão.”

As dúvidas sobre a página falsa ainda se mantêm. O clima no Complexo da Maré está mais quente do que nunca: os moradores são oprimidos de todos os lados e uma das poucas fontes de informação confiável também está sendo calada pelo medo.

A guerra pelo controle da Maré ganhou uma nova disputa: o controle da informação. Uma das principais defesas dos moradores eram os vídeos de celular denunciando abusos das Forças de Pacificação e da PM. Com essa página e a pressão do tráfico, as pessoas temem continuar filmando. Ninguém quer ser queimado dentro de pneus na frente dos seus familiares