SOBRE ROLEZINHOS

[texto original]

Todo verão é a mesma merda: uma hora, a temperatura ultrapassa os quarenta graus e os 197 km de litoral da cidade do Rio de Janeiro bombam sinistramente. Um trecho em especial, Copacabana e Ipanema, concentra a maior parte da malha hoteleira da cidade, multiplicando sua já numerosa população. Os preços extorsivos de qualquer coisa comercializada nas areias, de cadeiras e sombrinhas a cerveja e outras drogas, se multiplicam na mesma escala. Por consequência, a chapa esquenta; assim, os assaltos, as arbitrariedades policiais e as brigas que ocorrem todo fim de semana ficam mais evidentes e expressivas. Neste ano, o verão chegou mais cedo: após alguns fins de semana de chuva e tempo ruim, o clima finalmente abriu – e, no domingo, dia 20, a praia lotou. Além dos gringos de sempre, somou-se àquela multidão no local gente vinda de outros estados que colara na cidade para o Rock in Rio e resolveu dar aquela esticadinha. No inicio do dia, estava tudo tranquilão, mas, à medida que ia entardecendo, começaram a circular, via Facebook e WhatsApp, notícias e imagens das tretas. Só que, desta vez, além dos “arrastões”, circulavam imagens de ações aparentemente organizadas de justiceiros. A mais notória delas mostra um menor sendo tirado de dentro de um ônibus e espancado.

O cenário não é novidade: nos anos 90, enquanto Royce Gracie consagrava a superioridade do jiu-jítsu brasileiro no estreante UFC, seus discípulos davam demonstrações grátis disso nas areias. S, 45 anos, cria de Copacabana, conta como era: “A rapaziada ficava de bicho na praia. Se rolasse arrastão, a gente revidava e logicamente metia a porrada, porque as galeras do subúrbio não tinham condições de enfrentar um time de 20, 30 lutadores treinados. Não tinha justiceiro. Era só legítima defesa mesmo”. O termo cunhado na época para essa galera era “pit boy”.

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Pra quem olha de fora, pode ser difícil entender, mas essa história vai muito além de uma simples luta polarizada entre zona sul e zona norte ou entre favela e asfalto. Os anos 90 foram marcados pela evolução e consolidação do funk carioca, que ecoava dos bailes em praticamente toda favela do Rio até os walkmans nos pátios das escolas particulares mais tradicionais. Copacabana e Ipanema vistas de cima são uma tripa de prédios espremidos entre favela e praia – e, nesses extremos, muitos laços se formaram. Amizades forjadas no surf ou nas peladas na areia continuavam à noite nos bailes do Chapéu Mangueira, Tabajara e Cantagalo. Era a época em que rolava baile de corredor em clubes como o Pavunense, na Baixada; no entanto, nos bailes de comunidade nunca pôde ter briga (inclusive, galeras rivais podiam frequentar), mas na rua era diferente. M, 34 anos, frequentador do Baile do Chapéu Mangueira, conta como aquilo funcionava: “Naquela época, você era Lado A ou Lado B: não tinha nada a ver com facção, talvez com torcida de futebol, mas cada galera era de um lado. Aqui, no Lido (Copacabana), nossa galera era Lado B. A galera do Rajah (em Botafogo) era Lado A. Quando o ônibus deles cruzava o túnel, já levava pedrada. Se a gente se encontrava na praia, dava briga: era certo de todo fim de semana rolar briga ali, na altura da Prado Júnior”. Quando a briga começava, quem não tinha nada a ver saía correndo, deixando seus pertences pra trás. Aí já viu: não sobrava nada. Um dia, a Rede Globo resolveu escalar um câmera para registrar o episódio que se repetia todo fim de semana – e daí ela cunhou o termo “arrastão”. M insiste que é tudo balela. “Aquilo não era arrastão, era briga de galeras. O que acontece hoje também não é arrastão, é roubo! Arrastão é quando as facções fecham a Linha Vermelha ou Amarela e assaltam todos os carros.”

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TEXTO-MEIO

De lá pra cá, muito mudou: a virada do século marcou um período de expansão e lucros astronômicos no mercado carioca de drogas. Embora os confrontos entre facções e policiais não fossem incomuns, essas facções sempre souberam que chamar muita atenção, sobretudo na zona sul, atrapalhava os negócios. Sendo assim, as lideranças daquela época coibiam crimes como assalto ou estupro – não só dentro das comunidades como no asfalto (em áreas próximas à entrada dos morros). Com o advento da política de pacificação das favelas, as facções não deixaram de controlar e comercializar drogas nas comunidades, porém perderam esse poder de polícia. Como consequência, ondas de roubos e “arrastões” voltaram a ocupar as manchetes. Com os morros “babados”, bocas de estica começam a se multiplicar: hoje em dia, praticamente toda esquina de Copacabana tem um estica ou um avião, fora toda a rapaziada que opera sistemas de “delivery” de drogas de dentro de seus apartamentos. Nenhum desses caras está muito feliz com a onda de assaltos, sobretudo com o policiamento reforçado que ela acarreta. Corre pelo bairro o boato de que, no último fim de semana, galeras do Tabajara e do PPG (Pavão-Pavãozinho-Cantagalo) também patrulharam o bairro, lado a lado dos chamados justiceiros. E eles pretendem repetir a dose no próximo fim de semana.

No verão passado, após uma onda de assaltos a ciclistas no Aterro do Flamengo, um menor, supostamente infrator, foi espancado e preso a um poste por uma tranca de bicicleta. A imagem do menino negro nu remetia às ilustrações de pelourinhos dos livros de história, circulando o mundo com todos os tipos de legendas imagináveis. Ninguém nunca foi condenado, mas tudo indica que os autores desse ato foram uma quadrilha que controla o tráfico de drogas na Praça São Salvador, point frequentado por estudantes boêmios e midiativistas. Essa quadrilha coleciona condenações por homicídio e latrocínio, além de ser suspeita de agressões contra homossexuais na região. Alguns membros dela já foram presos algumas vezes, embora sempre acabem voltando ao mesmo bat-local.

Como dono de um pequeno negócio em Ipanema, fiquei sabendo de uma reunião que rolaria para avaliar as ações recentes de vigilantismo no bairro e estabelecer parâmetros a fim de que não se repitam as cagadas do último fim de semana. A reunião foi cancelada em cima da hora, porém uma dúzia de moradores acabou se encontrando de qualquer maneira no local combinado. Não seria ético – nem saudável – revelar muitos detalhes, muito menos as táticas combinadas, mas vou tentar transmitir o clima pra vocês.

O papo foi rápido e informal: primeiro, o pessoal ficou conversando sobre o fim de semana passado, quase uma retrospectiva dos “melhores momentos”. Um dos episódios lembrados foi a invasão do ônibus 474 para, segundo eles, tirar de lá de dentro um menor que havia sido visto roubando um pouco antes. “Os próprios caras lá do ônibus não fizeram nada para conter a gente porque sabiam que ele tinha vacilado.” Algumas risadas depois, acabaram concordando que aquilo foi errado e que eles não estavam lá para quebrar ônibus. Também criticaram uma situação em que um menor foi posto pra correr de um McDonald’s, sendo que ele havia inclusive comprado um lanche. A descrição da cena era quase um esquete de Os Trapalhões.

Apesar de essas pessoas estarem em contato através de grupos de Facebook e WhatsApp, deu pra sacar que não existe uma organização vertical ou mesmo uma ideologia definida entre os chamados justiceiros. Vários desses grupos de Facebook foram criados originalmente para denunciar roubos e assaltos nos bairros da Zona Sul, mais ou menos da mesma maneira que moradores de favelas criam grupos para denunciar abusos cometidos pela polícia e pelas forças de ocupação. Mesmo assim, como qualquer outro grupo de Facebook, o povo gosta mesmo é de ficar tretando online. Dia desses, um pateta postou no grupo “Copacabana Alerta” um texto dizendo que algo deveria ser feito para reprimir a Marcha da Maconha (que acontece em maio) e os maconheiros, pois “eles financiam o tráfico”. Felizmente, o cara foi esculhambado sumariamente nos comentários por internautas maconheiros e caretas.

Antes de a reunião terminar, cheguei a escutar alguns áudios do grupo de WhatsApp: num deles, um cara de uma academia de jiu-jítsu da zona norte falava que ia descer até a praia com seu bonde para reforçar o patrulhamento. Em outro áudio, um sujeito descrevia que estava a bordo de um 474 ouvindo uns moleques tirando onda, falando que eram do #Coreto e iam roubar na praia no fim de semana: “Eles eram franzinos e magrinhos!!! A gente vai ter de ter cuidado para não matar nenhum desses caras, mas tem de os mandar de volta pra casa maquiados”.

Bairrismo, interesses financeiros, ódio social ou simplesmente um vício pela violência? É difícil dizer qual delas – se não todas – é a motivação que leva à formação desses grupos, seja ela espontânea ou organizada. O que eu posso afirmar é que isso não começou semana passada, não vai acabar nesta semana e provavelmente vai se repetir durante as Olimpíadas.

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