SALVAR TODXS

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No dia em que o governo anunciou multa de R$ 250 milhões por danos decorrentes do maior desastre ambiental de Minas Gerais, a mineradora Samarco recebeu outra sanção: por determinação da Justiça Federal, a empresa terá de providenciar, imediatamente, o resgate da maior quantidade possível de peixes no Rio Doce. Os rejeitos de mineração mudaram a paisagem por onde passaram e estão a caminho de Baixo Gandu, Colatina e Linhares (ES). As informações são da agência Folhapress.

A decisão ainda responsabiliza a empresa por analisar as espécies do ambiente fluvial e marinho, antes e depois da passagem da onda de lama. Os peixes recolhidos devem ser levados para tanques onde sejam mantidos vivos até a redução do nível de poluição que permita que os animais sejam devolvidos ao rio.

A determinação resulta de ação civil do Ministérios Público do Espírito Santo e do Ministério Público Federal. Além da Samarco, empresa controlada por Vale e BHP – a maior mineradora do mundo –, Agência Nacional de Águas (ANA), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) são réus na ação.

SAMARCO/VALE E O MUNDO – PARECER DE OPERAÇÃO

LINK!

SOBRE ROLEZINHOS

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Todo verão é a mesma merda: uma hora, a temperatura ultrapassa os quarenta graus e os 197 km de litoral da cidade do Rio de Janeiro bombam sinistramente. Um trecho em especial, Copacabana e Ipanema, concentra a maior parte da malha hoteleira da cidade, multiplicando sua já numerosa população. Os preços extorsivos de qualquer coisa comercializada nas areias, de cadeiras e sombrinhas a cerveja e outras drogas, se multiplicam na mesma escala. Por consequência, a chapa esquenta; assim, os assaltos, as arbitrariedades policiais e as brigas que ocorrem todo fim de semana ficam mais evidentes e expressivas. Neste ano, o verão chegou mais cedo: após alguns fins de semana de chuva e tempo ruim, o clima finalmente abriu – e, no domingo, dia 20, a praia lotou. Além dos gringos de sempre, somou-se àquela multidão no local gente vinda de outros estados que colara na cidade para o Rock in Rio e resolveu dar aquela esticadinha. No inicio do dia, estava tudo tranquilão, mas, à medida que ia entardecendo, começaram a circular, via Facebook e WhatsApp, notícias e imagens das tretas. Só que, desta vez, além dos “arrastões”, circulavam imagens de ações aparentemente organizadas de justiceiros. A mais notória delas mostra um menor sendo tirado de dentro de um ônibus e espancado.

O cenário não é novidade: nos anos 90, enquanto Royce Gracie consagrava a superioridade do jiu-jítsu brasileiro no estreante UFC, seus discípulos davam demonstrações grátis disso nas areias. S, 45 anos, cria de Copacabana, conta como era: “A rapaziada ficava de bicho na praia. Se rolasse arrastão, a gente revidava e logicamente metia a porrada, porque as galeras do subúrbio não tinham condições de enfrentar um time de 20, 30 lutadores treinados. Não tinha justiceiro. Era só legítima defesa mesmo”. O termo cunhado na época para essa galera era “pit boy”.

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Pra quem olha de fora, pode ser difícil entender, mas essa história vai muito além de uma simples luta polarizada entre zona sul e zona norte ou entre favela e asfalto. Os anos 90 foram marcados pela evolução e consolidação do funk carioca, que ecoava dos bailes em praticamente toda favela do Rio até os walkmans nos pátios das escolas particulares mais tradicionais. Copacabana e Ipanema vistas de cima são uma tripa de prédios espremidos entre favela e praia – e, nesses extremos, muitos laços se formaram. Amizades forjadas no surf ou nas peladas na areia continuavam à noite nos bailes do Chapéu Mangueira, Tabajara e Cantagalo. Era a época em que rolava baile de corredor em clubes como o Pavunense, na Baixada; no entanto, nos bailes de comunidade nunca pôde ter briga (inclusive, galeras rivais podiam frequentar), mas na rua era diferente. M, 34 anos, frequentador do Baile do Chapéu Mangueira, conta como aquilo funcionava: “Naquela época, você era Lado A ou Lado B: não tinha nada a ver com facção, talvez com torcida de futebol, mas cada galera era de um lado. Aqui, no Lido (Copacabana), nossa galera era Lado B. A galera do Rajah (em Botafogo) era Lado A. Quando o ônibus deles cruzava o túnel, já levava pedrada. Se a gente se encontrava na praia, dava briga: era certo de todo fim de semana rolar briga ali, na altura da Prado Júnior”. Quando a briga começava, quem não tinha nada a ver saía correndo, deixando seus pertences pra trás. Aí já viu: não sobrava nada. Um dia, a Rede Globo resolveu escalar um câmera para registrar o episódio que se repetia todo fim de semana – e daí ela cunhou o termo “arrastão”. M insiste que é tudo balela. “Aquilo não era arrastão, era briga de galeras. O que acontece hoje também não é arrastão, é roubo! Arrastão é quando as facções fecham a Linha Vermelha ou Amarela e assaltam todos os carros.”

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TEXTO-MEIO

De lá pra cá, muito mudou: a virada do século marcou um período de expansão e lucros astronômicos no mercado carioca de drogas. Embora os confrontos entre facções e policiais não fossem incomuns, essas facções sempre souberam que chamar muita atenção, sobretudo na zona sul, atrapalhava os negócios. Sendo assim, as lideranças daquela época coibiam crimes como assalto ou estupro – não só dentro das comunidades como no asfalto (em áreas próximas à entrada dos morros). Com o advento da política de pacificação das favelas, as facções não deixaram de controlar e comercializar drogas nas comunidades, porém perderam esse poder de polícia. Como consequência, ondas de roubos e “arrastões” voltaram a ocupar as manchetes. Com os morros “babados”, bocas de estica começam a se multiplicar: hoje em dia, praticamente toda esquina de Copacabana tem um estica ou um avião, fora toda a rapaziada que opera sistemas de “delivery” de drogas de dentro de seus apartamentos. Nenhum desses caras está muito feliz com a onda de assaltos, sobretudo com o policiamento reforçado que ela acarreta. Corre pelo bairro o boato de que, no último fim de semana, galeras do Tabajara e do PPG (Pavão-Pavãozinho-Cantagalo) também patrulharam o bairro, lado a lado dos chamados justiceiros. E eles pretendem repetir a dose no próximo fim de semana.

No verão passado, após uma onda de assaltos a ciclistas no Aterro do Flamengo, um menor, supostamente infrator, foi espancado e preso a um poste por uma tranca de bicicleta. A imagem do menino negro nu remetia às ilustrações de pelourinhos dos livros de história, circulando o mundo com todos os tipos de legendas imagináveis. Ninguém nunca foi condenado, mas tudo indica que os autores desse ato foram uma quadrilha que controla o tráfico de drogas na Praça São Salvador, point frequentado por estudantes boêmios e midiativistas. Essa quadrilha coleciona condenações por homicídio e latrocínio, além de ser suspeita de agressões contra homossexuais na região. Alguns membros dela já foram presos algumas vezes, embora sempre acabem voltando ao mesmo bat-local.

Como dono de um pequeno negócio em Ipanema, fiquei sabendo de uma reunião que rolaria para avaliar as ações recentes de vigilantismo no bairro e estabelecer parâmetros a fim de que não se repitam as cagadas do último fim de semana. A reunião foi cancelada em cima da hora, porém uma dúzia de moradores acabou se encontrando de qualquer maneira no local combinado. Não seria ético – nem saudável – revelar muitos detalhes, muito menos as táticas combinadas, mas vou tentar transmitir o clima pra vocês.

O papo foi rápido e informal: primeiro, o pessoal ficou conversando sobre o fim de semana passado, quase uma retrospectiva dos “melhores momentos”. Um dos episódios lembrados foi a invasão do ônibus 474 para, segundo eles, tirar de lá de dentro um menor que havia sido visto roubando um pouco antes. “Os próprios caras lá do ônibus não fizeram nada para conter a gente porque sabiam que ele tinha vacilado.” Algumas risadas depois, acabaram concordando que aquilo foi errado e que eles não estavam lá para quebrar ônibus. Também criticaram uma situação em que um menor foi posto pra correr de um McDonald’s, sendo que ele havia inclusive comprado um lanche. A descrição da cena era quase um esquete de Os Trapalhões.

Apesar de essas pessoas estarem em contato através de grupos de Facebook e WhatsApp, deu pra sacar que não existe uma organização vertical ou mesmo uma ideologia definida entre os chamados justiceiros. Vários desses grupos de Facebook foram criados originalmente para denunciar roubos e assaltos nos bairros da Zona Sul, mais ou menos da mesma maneira que moradores de favelas criam grupos para denunciar abusos cometidos pela polícia e pelas forças de ocupação. Mesmo assim, como qualquer outro grupo de Facebook, o povo gosta mesmo é de ficar tretando online. Dia desses, um pateta postou no grupo “Copacabana Alerta” um texto dizendo que algo deveria ser feito para reprimir a Marcha da Maconha (que acontece em maio) e os maconheiros, pois “eles financiam o tráfico”. Felizmente, o cara foi esculhambado sumariamente nos comentários por internautas maconheiros e caretas.

Antes de a reunião terminar, cheguei a escutar alguns áudios do grupo de WhatsApp: num deles, um cara de uma academia de jiu-jítsu da zona norte falava que ia descer até a praia com seu bonde para reforçar o patrulhamento. Em outro áudio, um sujeito descrevia que estava a bordo de um 474 ouvindo uns moleques tirando onda, falando que eram do #Coreto e iam roubar na praia no fim de semana: “Eles eram franzinos e magrinhos!!! A gente vai ter de ter cuidado para não matar nenhum desses caras, mas tem de os mandar de volta pra casa maquiados”.

Bairrismo, interesses financeiros, ódio social ou simplesmente um vício pela violência? É difícil dizer qual delas – se não todas – é a motivação que leva à formação desses grupos, seja ela espontânea ou organizada. O que eu posso afirmar é que isso não começou semana passada, não vai acabar nesta semana e provavelmente vai se repetir durante as Olimpíadas.

EQUADOR E O BEM VIVER: RELACIONAMENTOS

[texto original]

Oil and gas blocks in Ecuador

Ecuador is planning to auction off three million of the country’s 8.1 million hectares of pristine Amazonian rainforest to Chinese oil companies, Jonathan Kaiman of The Guardian reports.

The report comes as oil pollution forced neighbouring Peru to declare an environmental state of emergency in its northern Amazon rainforest.

Ecuador owed China more than $7 billion — more than a tenth of its GDP — as of last summer.

In 2009 China began loaning Ecuador billions of dollars in exchange for oil shipments. It also helped fund two of the country’s biggest hydroelectric infrastructure projects, and China National Petroleum Corp may soon have a 30 per cent stake in a $10 billion oil refinery in Ecuador.

“My understanding is that this is more of a debt issue – it’s because the Ecuadoreans are so dependent on the Chinese to finance their development that they’re willing to compromise in other areas such as social and environmental regulations,” Adam Zuckerman, environmental and human rights campaigner at California-based NGO Amazon Watch, told the Guardian.

The seven indigenous groups who live on the land are not happy, especially because last year a court ruled that governments must obtain “free, prior, and informed consent” from native groups before approving oil activities on their indigenous land.

“They have not consulted us, and we’re here to tell the big investors that they don’t have our permission to exploit our land,” Narcisa Mashienta, a leader of Ecuador’s Shuar people, said in a report.

Dan Collyns of The Guardian reports that “indigenous people living in the Pastaza river basin near Peru’s border with Ecuador have complained for decades about … pollution,” which has been caused by high levels of petroleum-related compounds in the area. The Argentinian company Pluspetrol has operated oil fields there since 2001.

ARSENIO

A lavra principal da mina de ouro se estende até perder de vista. / GUSTAVO BASSO

Bruna Gomes Calda, de sete anos, costuma se refrescar no córrego Rico durante os dias quentes de Paracatu, noroeste de Minas Gerais. “Eu gosto de nadar no rio e pegar pedra no fundo”, diz a menina. O riacho, que corta a cidade ao meio, passa a um par de metros dos fundos de sua casa, no bairro Cidade Nova. Dezenas de residências, a maioria de famílias de baixa renda, foram construídas nas margens de terra do curso d’água, que também servem de área de lazer para Bruna: lá ela brinca, corre e ajuda a mãe, Queila, 28, a pendurar roupas no varal. Nenhuma das duas sabe, porém, que as águas do Rico e o solo do entorno estão altamente contaminadas com arsênio, um dos elementos químicos mais tóxicos da natureza.

A Prefeitura da cidade sabe dos riscos. Mas, segundo moradores, nada fez para alertar a população. “Ninguém nunca me disse nada sobre a possibilidade de contaminação”, diz Queila, que afirma desconhecer o que é arsênio. Em 2010 o Executivo municipal encomendou um estudo ao Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) do Governo Federal, com o objetivo de analisar os impactos que a mineração em larga escala provoca na saúde da população e no meio ambiente de Paracatu. Desde 1987 a cidade abriga a maior mina de ouro a céu aberto do mundo, que hoje é operada pela companhia canadense Kinross, que responde por 25% da produção nacional do minério. A companhia diz em seu site gerar “cerca de 1.300 empregos diretos e mais de 2.500 terceirizados” que totalizam “22% dos postos de trabalho formais do município”, além de ser “a principal geradora de impostos” para a cidade. Em 2014 a companhia obteve receitas de 3,4 bilhões de dólares. A área total das instalações supera a de Paracatu, que tem 8.232 km² – em alguns pontos, a empresa é dona de tudo o que a vista alcança.

O arsênio, que é abundante nas rochas da região (leia abaixo), é liberado no ar e na água quando elas são explodidas para processamento nas instalações da empresa. Em dezembro de 2013 o relatório final do Cetem foi entregue à Prefeitura, e um resumo do documento foi tornado público e colocado na Internet. Nele foi destacado que “mais de 95% da população amostrada apresentou baixos teores de arsênio em urina”.

Sem informação sobre a contaminação dos rios, moradores usam a água. /GUSTAVO BASSO

Uma cópia da íntegra do estudo obtido pelo EL PAÍS com fontes que preferiram o anonimato – o Cetem se negou a fornecer o relatório – mostra um cenário mais preocupante do que fazem crer as 34 linhas do resumo apresentado. O solo ao redor do córrego Rico, onde Bruna costuma brincar, possui em alguns trechos uma concentração de arsênio cinquenta vezes maior do que a permitida pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente(Conama) para uso residencial. Sergio Ulhoa Dani, médico do departamento de Oncologia Médica do hospital da Universidade de Berna, na Suíça, afirma que as consequências do acúmulo da substância nos seres humanos são devastadoras: “Diversos tipos de câncer, diabetes, problemas na pressão arterial, alterações endocrinológicas e vários problemas respiratórios estão entre as doenças provocadas pelo arsênio no corpo”, afirma. Dani já  morou em Paracatu, e há anos acompanha os efeitos da mineração na saúde dos moradores – até hoje examina laudos e exames médicos da população local.

Segundo ele, alguém que entra no córrego se “expõe ao arsênio que está na água, já que a substância pode passar pela pele. Mas a mais perigosa forma de exposição é via oral – muito comum em se tratando de crianças – e respiratória”. Dani, que analisou dezenas de amostras de sangue e urina de pacientes de Paracatu, afirma que a maioria delas possuem arsênio: “Não existe nível seguro dessa substância no corpo. Apenas a presença dela já indica contaminação”. De acordo com o médico, alguns pacientes saíram da cidade há décadas, mas continuam contaminados, já que o “arsênio é liberado no sangue por anos após a exposição, pois se acumula nos ossos.”

A Kinross afirma, em nota, que “a presença de arsênio em Paracatu se dá de forma natural”, e que os rios que estão contaminados “se tratam de cursos d’água que no passado, principalmente na década de 80, sofreram impactos gerados pelas atividades garimpeiras que têm ocorrido desde os anos 1700 na cidade”. Estas atividades, segundo a empresa, teriam sido “executadas sem nenhum acompanhamento técnico e causaram impactos não controlados à época”.

Em cinco das oito amostras coletadas pelo Cetem no entorno do rio Rico, a terra não poderia nem mesmo ser usada com finalidades industriais

A aposentada Maria Helena Gonçalves Nunes, 66, acabou de receber o resultado do seu exame de arsênio feito em um laboratório particular. “Estou muito triste. Estou com um índice muito alto [de arsênio] no corpo”, diz. Moradora de uma chácara localizada no pé da barragem de resíduos [local onde a mineradora despeja os dejetos químicos da atividade], ela diz que evitava tomar a água dos córregos que cortam a região, por medo de contaminação. “Quando eu ia da cidade para lá eu sempre levava água, para não ter que usar aquela. Mas às vezes não dava, e eu acabava cozinhando com o que tinha lá”, afirma. O exame de Maria apontou 14,2 ug/g da substância, quando o valor de referência é até 10ug/g.

“Tenho pressão alta, meu corpo dói e coça, meu couro cabeludo também e fico com um mal estar”, diz ela. Para Dani, os sintomas apresentados são condizentes com um quadro de arsenicose, que é a intoxicação aguda pela substância. A fazenda de Maria é cortada pelo rio Santo Antônio, cujo sedimento tem uma concentração de arsênio 189 vezes superior à permitida pela Conama, de acordo com o Cetem. A água do rio é imprópria para o consumo, e em alguns trechos o solo do entorno não poderia abrigar nem mesmo indústrias. Maria agora pensa em vender o terreno, que está com a família há mais de 40 anos: “Não dá para ficar, se eu me contaminar mais não sei o que vai acontecer comigo. Agora penso em vender minha terra, não tem mais jeito. Antes tinha água limpinha lá, hoje a nossa nascente é só lama”.

Em cinco das oito amostras coletadas pelo Cetem no entorno do rio Rico, a terra não poderia nem mesmo ser usada com finalidades industriais – que tolera concentrações maiores de arsênio. O sedimento do fundo do córrego – onde Bruna gosta de pegar seixos no leito – tem, em alguns trechos, uma concentração da substância 252 vezes maior do que o permitido pelo Conama: são 4297,2 miligramas do mineral por quilo, ante os 17 mg/kg permitidos pela legislação em vigor. E a água do rio é imprópria para o consumo humano em diversos pontos analisados – em um deles não poderia ser usada nem mesmo para irrigação ou consumo animal.

A barreira de rejeitos, construída sobre um quilombo. / GUSTAVO BASSO

Um dos trechos do estudo,publicado apenas em inglês na Internet, conclui que “o arsênio não oferece riscos [de doenças] não-carcinogênicas [diabetes, pressão alta, problemas respiratórios, etc] para adultos, mas as crianças estão em risco. Já os efeitos carcinogênicos [risco de câncer por contaminação], crianças e adultos correm risco”. Mais adiante, o relatório afirma que a principal via de contágio é pela “ingestão de água e inalação de partículas”. O EL PAÍS solicitou diversas vezes sem sucesso entrevistas com o prefeito Olavo Remígio Condé, do PSDB. Posteriormente a assessoria informou que a reportagem seria atendida pelos secretários da Saúde e do Meio-Ambiente de Paracatu, o que também não se concretizou.

Ativistas locais de direitos humanos e acadêmicos colocam, ainda, sob suspeita o estudo do Cetem e a divulgação parcial dos resultados, alegando que o Centro não teria isenção para investigar a poluição da Kinross, já que teria negócios com a empresa. Dados obtidos pelo EL PAÍS via Lei de Acesso à Informação apontam que a entidade recebeu mais de 500.000 reais em pagamentos da mineradora por serviços como consultorias e estudos.

Jorêncio Pereira dos Santos, 47, é outro morador que vive às margens do Rico. Sua principal atividade é a coleta de materiais recicláveis na cidade. Aposentado por invalidez após um acidente de trabalho na lavoura, ele depende de doações de alimentos para sobreviver. Sem acesso à água encanada, Santos se vê obrigado a utilizar a água de um dos braços do Rico para tomar banho e cozinhar. “Não tenho água nem luz aqui na minha casa. Se não fosse pela água do rio, eu não teria como fazer”, diz. Ele reclama da poeira e da poluição do ar, mas diz nunca ter ouvido falar do arsênio. Enquanto aponta para dois peixes pendurados em um varal na área externa da casa, ele garante: “Não foram pescados aqui. Se tivessem, eu não comeria”.

Da rocha para a cidade

Santos exibe um pedaço de rocha com arsênio. / GUSTAVO BASSO

O geólogo Márcio José dos Santos, mestre em Planejamento e Gestão Ambiental pela Universidade Católica de Brasília, explica como ocorre a liberação do arsênio na mina de Paracatu. “Quando a rocha é explodida com dinamite na lavra[área principal da mineração] o arsênio, que antes estava preso e não oferecia risco para a saúde, é liberado no ar e reage com a água e outras substâncias do ar, tornando-se ativo e perigoso”, diz. Segundo ele, na cidade os ventos sopram do sentido nordeste para o sudeste, o que contribui para que esta poeira venenosa vá da mina para a cidade. Em outra etapa da mineração, os fragmentos de rocha são tratados com produtos químicos, o que libera mais arsênio. “Estes produtos são jogados na barragem de rejeitos, que é uma grande represa altamente tóxica onde todas as ‘sobras’ do processo são armazenadas”, afirma.

A mineradora informou que o durante o processamento do minério ele “é separado usando cianeto e vai para um recipiente próprio com medidas de múltipla proteção”, e que a empresa “segue rigorosos e modernos monitoramentos ambientais que atestam junto as agências reguladoras e órgãos ambientais a eficiência dos seus controles”. Quanto à poeira liberada, a companhia afirma aspergir as vias de acesso com água, para evitar que os grãos se espalhem no ar, e diz aplicar “polímeros, [e promover a] revegetação das áreas de entorno”.

A Kinross construiu duas barragens de rejeitos – restos de produtos químicos e rochas no processo de exploração – em Paracatu, que dominam grande parte do horizonte da cidade. A mais recente, construída em 2006, inundou o vale do Machadinho, que era lar da comunidade quilombola de mesmo nome. De acordo com o Ministério Público Federal, os descendentes de escravos forampressionados pela mineradora a venderem suas terras. Outro quilombo foi ‘comprado’ para que suas terras fossem usadas na construção da barreira no vale. Hoje os enormes ‘lagos’ tóxicos ocupam uma área de mais de 3.000 hectares, que comportam quase dois bilhões de toneladas de rejeitos. Santos acredita que, como as barragens ficam em uma área de fratura geológica, os resíduos tóxicos se infiltrem no lençol de água subterrâneo.

“Os rejeitos químicos da lama despejada lá reagem com a argila do fundo da barragem, aumentando ainda mais a fratura. Por isso os córregos situados abaixo da barragem estão contaminados”, explica o professor. O relatório do Cetem embasa a conclusão do geólogo: dos 11 rios da cidade analisados, seis apresentaram amostras de água e solo contaminadas com arsênio.

A companhia nega que haja vazamento da barragem e afirma que “controles e monitoramentos garantem a estabilidade da estrutura da barragem e a qualidade da água devolvida ao ambiente”. Na nota enviada à redação, a empresa afirma ainda que “as águas captadas nos barramentos da nossa barragem (…) passam por um sistema de tratamento antes de serem devolvidas aos córregos com qualidade e conformidade com os parâmetros legais”.

Funcionários em risco

Pela cidade é possível encontrar outdoors onde funcionários da Kinross aparecem sorridentes sob a hashtag orgulhodeserkinross. Um trecho do pequeno resumo executivo do relatório do Cetem, no entanto, afirma que “os empregados da mineradora de ouro (…) não participaram da pesquisa [que envolveu coleta de sangue e urina dos moradores], embora tenham sido convidados”. O estudo diz ainda que “as razões para a não participação deles [na pesquisa] são incertas”, mas que “pode-se afirmar que esse grupo é mais vulnerável à exposição ao arsênio do que a população em geral”.

A Kinross informou que “o escopo original do estudo Cetem não incluía os empregados da empresa”. Segundo a nota, a companhia “tem seu próprio programa de monitoramento como parte de seu programa ocupacional de saúde e segurança”, e que os resultados “mostram que todos empregados estão dentro de níveis aceitáveis de exposição”.

Trabalhadores da companhia que não quiseram se identificar disseram que a Kinross colhe sangue e urina dos funcionários a cada três meses. “Eles não informam os resultados, apenas dizem que está tudo bem”, diz um deles, que trabalha na lavra e diz aspirar “muita poeira que sai das rochas” diariamente. Quando perguntado por que não fazia um teste em outro lugar para detectar os níveis de arsênio em seu corpo, o funcionário diz apenas que tem “medo” do que pode descobrir.

A empresa negou que os resultados não sejam apresentados aos funcionários: “Os resultados dos exames realizados são apresentados e ficam disponíveis para nossos empregados e para as autoridades”.

PARQUE XINGU E O FOGO

XINGU

Desmatamento em torno do Parque do Xingu, em Mato Grosso. Áreas em vermelho, sem floresta. Áreas sem desmatamento: apenas o Parque.

GUERRA DA AGUA

[texto original]

Lúcia Rodrigues 

‘Painel sobre defesa’ organizado pelo Comando Militar do Sudeste tratou possibilidade de capital paulista ficar sem água a partir de julho deste ano como assunto de segurança nacional


Volume morto na represa Jaguari-Jacareí, no Sistema Cantareira, em janeiro desse ano

Por que o Comando Militar do Sudeste (CMSE) está interessado na crise da falta de água em São Paulo?

A resposta veio na tarde da última terça-feira, 28 de abril, durante o painel organizado pelo Exército, que ocorreu dentro de seu quartel-general no Ibirapuera, zona sul da capital paulista.

Durante mais de três horas de debate, destinado a oficiais, soldados e alguns professores universitários e simpatizantes dos militares que lotaram o auditório da sede do comando em São Paulo, foi se delineando o real motivo do alto generalato brasileiro estar preocupado com um assunto que aparentemente está fora dos padrões de atuação militar.

A senha foi dada pelo diretor da Sabesp, Paulo Massato, que ao lado de Anicia Pio, da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), e do professor de engenharia da Unicamp, Antonio Carlos Zuffo, traçaram um panorama sobre como a crise hídrica está impactando o Estado paulista.

Massato foi claro. Se as obras emergenciais que estão sendo feitas pela companhia não derem resultado e se chover pouco, São Paulo ficará sem água a partir de julho deste ano. O cenário descrito pelo dirigente da Sabesp é catastrófico e digno de roteiro de filme de terror.

“Vai ser o terror. Não vai ter alimentação, não vai ter energia elétrica… Será um cenário de fim de mundo. São milhares de pessoas e o caos social pode se deflagrar. Não será só um problema de desabastecimento de água. Vai ser bem mais sério do que isso…”, enfatiza durante sua intervenção, para na sequência lançar uma súplica de esperança: “Mas espero que isso não aconteça”.

Ele destaca que na região metropolitana de São Paulo vivem 20 milhões de pessoas, quando o ideal seriam quatro milhões. Destas, segundo Massato, três milhões seriam faveladas que furtariam água. “Furtam água ou pegam sem pagar”, conta, arrancando risos da platéia.

Blindagem

Nenhuma crítica, no entanto, foi dirigida ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) pelos presentes durante todo o evento. Apenas uma pessoa se manifestou durante a fala de Massato, afirmando que faltou planejamento estatal. Mas foi interrompido por uma espécie de mestre de cerimônias do comando militar  que ciceroneava o evento,  pedindo que ele deixasse a questão para as perguntas a serem dirigidas aos debatedores. A pergunta não voltou a ser apresentada.

Mas o resultado pela falta de investimento e planejamento do governo paulista já provoca calafrios na cervical do establishment do Estado. As cenas de Itu podem se reproduzir em escala exponencial na região metropolitana de São Paulo. E é contra isso que o Exército quer se precaver.

O dirigente da Sabesp citou um caso que ocorreu na região do Butantã, zona oeste da capital. De acordo com ele, houve uma reação violenta porque a água não chegou em pontos mais altos do bairro. “Não chegou na casa do ‘chefe’, e aí ele mandou incendiar três ônibus. Aqui o pessoal é mais organizado…”

Em sua intervenção, a dirigente da Fiesp, Anícia Pio, frisa que muito se tem falado sobre a crise de abastecimento da população, mas que não se pode desconsiderar o impacto sobre a indústria paulista. “A crise só não foi maior, porque a crise econômica chegou (para desacelerar a produção).”

De acordo com ela, o emprego de milhares de pessoas que trabalham no setor está em risco se houver o agravamento da crise hídrica.

Se depender das projeções apresentadas pelo professor Zuffo, da Unicamp, a situação vai se complicar.  Segundo ele, o ciclo de escassez de água pode durar 20, 30 anos.

Sarah Pabst

Moradores do Jardim Umuarama, em rodízio não oficializado pelo governo de SP

A empresária destaca ainda que não se produz água em fábricas e que, por isso, é preciso investir no reuso e em novas tecnologias de sustentabilidade. E critica o excesso de leis para o setor, que de acordo com ela é superior a mil.

O comandante militar do Sudeste, general João Camilo Pires de Campos, anfitrião do evento, se sensibilizou com as criticas da representante da Fiesp e prometeu conversar pessoalmente com o presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, deputado Fernando Capez (PSDB),  sobre o excesso de legislação que atrapalha o empresariado.

Ele também enfatiza que é preciso conscientizar a população sobre a falta de água e lamenta a grande concentração populacional na região. “Era preciso quatro milhões e temos 20 milhões…”, afirma se referindo aos números apresentados por Massato.

O general Campos destaca a importância da realização de obras, mas adverte que “não se faz engenharia para amanhã”. E cita para a plateia uma expressão do ex-presidente, e também general do Exército, Ernesto Geisel, para definir o que precisa ser feito. “O presidente Geisel dizia que na época de vacas magras é preciso amarrar o bezerro.”

“Não há solução fácil, o problema é sério”, conclui o comandante.

Sério e, por isso, tratado como assunto de segurança nacional pelo Exército. O crachá distribuído aos presentes pelo Comando Militar do Sudeste trazia a inscrição: Painel sobre defesa.