SOBRE MORTES

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Com cara na parede, mãos imobilizadas para atrás do corpo, ouvia aquela voz, que já tinha me xingado algumas vezes, justificar o porquê de tanta agressividade e ódio: – Vocês são o câncer do mundo, deviam todos morrer.

Dia 12 de junho. O ato que marcou a abertura da Copa na capital mineira foi campo de luta e resistência em todo país. Em Belo Horizonte os participantes concentraram-se na Praça 7 e antes mesmo do início da manifestação foram abordados pela PM de forma truculenta durante o procedimento de revista. Iniciamos a transmissão por volta de 12h, quando vários movimentos já estavam reunidos no local. A passeata percorreu as ruas de Belo Horizonte até chegar a praça da liberdade, onde o relógio da FIFA – monumento que fazia a contagem regressiva dos dias para o evento – permanecia isolado e escoltado pela tropa de choque da Polícia Militar.

Na chegada ao relógio, a tropa nos atacou com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Ficou claro o nível de despreparo, ou talvez a má intenção da PM mineira, que usou a força e praticou uma violência desmedida para “manter a ordem” de uma manifestação que até então era totalmente pacífica. Após o ataque, os grupos que participavam do ato se dispersaram, e foram divididos pela policia. Não consegui encontrar os membros da equipe de cobertura do NINJA e segui transmitindo o confronto da tropa de choque contra os manifestantes, que neste momento já eram minoria em relação ao contigente policial.

A violência começou a se intensificar entre PM e manifestantes, mas segui transmitindo ao vivo e narrando os acontecimentos, fazendo o que estava lá para fazer.

Segui um longo trajeto entre a Praça da Liberdade e a Praça Raul Soares e ao chegar na Av. Paraná 10 policiais correram para me imobilizar junto a outras pessoas que eu não conhecia. Depois de ser imobilizada fui alvo de agressão física e verbal. Tapas na cara, golpes de cassete na perna e nas costas – foi esse o protocolo da Polícia Militar ao fazer a abordagem.

No áudio da transmissão ouve-se facilmente ofensas machistas direcionadas à mim. Sou mulher, sou ativista, sou mídia e sou livre. Estava no direito de cumprir o meu trabalho documentando o que via nas ruas.

Fui conduzida à um posto policial próximo ao local que fui abordada com mais 3 pessoas. Chegando no local, mais agressão. Tapas, chutes, pancadas de cassetes e dessa vez até cuspe para nos dar as boas vindas. Quando me identificaram como a narradora do live, me tomaram o celular que estava transmitindo. Mandaram eu fazer o desbloqueio do celular para a “averiguação” do aparelho, mas como eu não sabia a senha, pois o celular era de outra NINJA, fui isolada do grupo e colocada sobre uma mesa, onde 05 políciais – homens e mulheres – que me bateram para forçar que eu dissesse a senha.

No momento do espancamento, um deles me acertou o lado esquerdo da cabeça. Desmaiei por um tempo. Quando me dei conta, estava acordando à base de mais tapas com os gritos de “Acorda, filha da puta!”, e quando recuperei a consciência, estava novamente junto aos 3 manifestantes que também foram recolhidos. Em seguida, fomos algemados e mantidos de pé por cerca de 2 horas, onde ouvimos calados os xingamentos, recebemos de olho aberto os cuspes e empurrões. Além de ter que aguentar isso, tive que escutar cantadas fajutas que me chamavam de “Gostosa!”, sendo declaradas em baixo tom para que não fosse ouvido por muita gente. Nojo Define!

Depois de consultarem minha ficha no sistema, descobriram que meus pais exercem a função de policiais civis, no Amapá – meu estado natal. Constatado isso, passaram a ironizar a minha participação no ato. Como se a profissão dos meus país fosse um motivo para inviabilizar minhas lutas e o exercício de minha atividade como midiativista.

Somente depois de uma hora e meia reclusa neste posto policial (fato que não consta nos autos do processo) fui conduzida até a “Delegacia da Copa” como se referiam os policiais. A principio, esta delegacia especial foi criada para receber todos os cidadãos que forem presos durante as manifestações. Chegamos por volta de 19h30, e fomos recepcionados por um grupo de advogados voluntários e da defensoria pública que foram muito atenciosos, e nos instruíram e apoiaram o tempo todo. Com a presença dos doutores, o tratamento mudou completamente, a tal ponto que os mesmo policiais que me chamaram de filha da puta, pediram desculpas quando fizeram um pouco de força ao tirar as minhas algemas.

Na delegacia desde o começo da noite, só consegui comer depois que os advogados – que me acompanhavam o tempo todo – conseguiram levar um sanduíche até a sala onde eu estava. Fui agredida por volta das 18h, e mesmo me queixando das dores que sentia logo que cheguei a delegacia, só fui levada ao hospital às 3h da manhã. Felizmente não quebrei nada, o que eu apresentava eram lesões leves, segundo os médicos de plantão. Saindo do hospital fui ao IML fazer o exame de corpo de delito , e quando voltei a delegacia fui encaminhada para prestar depoimento. Na presença de dois advogados, relatei exatamente o que aconteceu, mas mesmo diante do meu relato e da intervenção dos advogados, o delegado afirmou que as declarações dos policiais eram soberanas as nossas e que eu seria presa e indiciada.

Às 5h da manhã, fui oficialmente declarada uma presidiária do estado de Minas Gerais e às 7h cheguei ao CERESP, mas tive que voltar ao IML para fazer o exame de corpo delito, necessário para minha inclusão no presídio, porque o laudo feito anteriormente tinha misteriosamente “desaparecido”. Ao voltar a outra DP para fazer o exame, o segundo médico sequer tocou em alguma região dos machucados pelo meu corpo.

Sem notícias de nada do que estava acontecendo, da mobilização nas redes e do próprio processo jurídico, ao chegar novamente ao CERESP Centro-Sul, por volta das 9h da manhã, encontrei meus companheiros do Fora do Eixo e o deputado federal Nilmário Miranda, que estavam ali para garantir que os atos de agressão não voltassem a se repetir no presídio.

À tarde, fui levada até ao Ministério Público para prestar depoimento para a Promotora Nívea Mônica na presença do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MG, William Santos e da Defensora Pública Fernanda que naquele momento já estavam responsáveis pelo caso e gentilmente me atualizaram do processo judicial em curso. Ao cruzar os corredores do MP pude novamente rever os companheiros da Casa FDE Minas, e mesmo com o coração dilacerado, e o corpo exausto, tive a certeza que existia um cuidado e uma mobilização enorme para que a Justiça fosse feita e eu pudesse sair daquela situação. Este breve contato fez eu sair do MP e voltar para o presídio com a força necessária para dar conta de um dia que ainda seria longo.

Depois de chegar e passar por todos os procedimentos, ali estava eu, encarcerada, de uniforme, numa cela com outras 6 detentas, pensando que agora fazia parte das estatísticas. Durante todo o dia não foi possível para de imaginar que esse era só mais um caso de injustiça, como centenas e centenas de outros escondidos e invisibilizados. O conforto que tinha ao lembrar das pessoas que junto comigo constroem uma rede de comunicação e cultural no Brasil, e buscam a partir dela combater estas mesmas injustiças, misturava-se com a indignação de saber que muitas mulheres que estavam naquela mesma situação que a minha não tem este conforto, e por isso não teriam a mesma sorte.

Por volta das 2 da manhã, quando já pensava que passaria a noite na prisão, fui chamada e avisada que seria solta. Ao sair, e novamente reencontrar meus parceiros de vida e retornar a Casa Fora do Eixo Minas é que tive consciência de todo o movimento e de toda a mobilização em torno da minha liberdade. Mais do que nunca tive a certeza que mesmo com as injustiças ainda prática das contra novas formas de vida e organização, eu estava no lugar certo, com as lutas certas.

Tenho que agradecer muito a todos os que se mobilizaram, em especial aos fora do eixo e ninjas espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Tenho a plena convicção, que mesmo com toda a tentativa de impor o medo, a coragem de todas estas pessoas juntas são de extrema importância para que possamos seguir lutando contra o machismo, injustiças, desigualdades e pelos direitos fundamentais da liberdade de imprensa e a possibilidade de termos uma nova policia, desmilitarizada e cidadã.

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TATICAS POLICIAIS IV

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Na semana passada, as tarifas de ônibus subiram em cidades de todo o país, principalmente nas capitais. Em São Paulo, onde também o governo do Estado reajustou as tarifas de metrô, o valor da passagem de ônibus foi de R$ 3,50 para R$ 3,80, mesmo valor adotado no Rio de Janeiro.

Já em Belo Horizonte, o preço passou de R$ 3,40 para R$ 3,70, o segundo aumento em menos de seis meses. O anúncio dos reajustes, em pleno mês “morto” de janeiro, foi acompanhado por protestos convocados pelo MPL (Movimento Passe Livre). Assim como em Junho de 2013, as manifestações foram e continuam sendo violentamente reprimidas pela polícia, sem respeito aos princípios e direitos envolvidos no protesto.

A justificativa oficial para o aumento é o equilíbrio das contas dos municípios e Estados, a “conta” que precisa fechar. A tese por trás deste cálculo é simples: a tarifa deve cobrir o custo –e o lucro– das empresas que operam o transporte (São Paulo é uma das poucas cidades do Brasil em que subsídios do orçamento municipal entram na composição do preço da passagem). E são os usuários pagantes que arcam com este acréscimo, já que as gratuidades para estudantes e idosos, entre outras, incidem sobre a mesma conta. Se à primeira vista o raciocínio parece muito fácil de entender, alguns pontos importantes são encobertos por este tipo de argumento.

O primeiro deles é o impacto do aumento da tarifa na renda dos usuários de transporte público. Se pegarmos o caso da cidade de São Paulo, pagar R$ 3,80 por trajeto vai significar, em um mês, um gasto de 19% sobre o salário mínimo, já reajustado para R$ 880,00. E isso se considerarmos apenas uma passagem de ida e outra de volta por dia, o que não é a realidade da maioria dos passageiros.

A porcentagem aumenta ainda mais se considerarmos que o transporte público não é utilizado apenas em dias úteis e para locomoção para o trabalho ou escola, mas também para acessar equipamentos de consumo, lazer e outros. Moral da história: esta é certamente uma “conta que não fecha” para os usuários de baixa renda.

O segundo ponto importante é a questão da inflação. É muito comum ouvirmos que a tarifa sobe de acordo com a inflação, o que levaria a concluir que o reajuste será sempre necessário a cada aumento do nível geral de preços. Entretanto, um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que, para o período de 2000 a 2012, o aumento das tarifas de ônibus foi acima da inflação, enquanto que o crescimento de itens associados ao transporte privado foi abaixo do patamar inflacionário.

Pesquisas feitas pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 2012 mostram que, se comparadas com outras grandes cidades do mundo, São Paulo e Rio estão no topo do ranking de peso dos gastos com transporte em relação ao salário mínimo. Medido dessa forma, são as cidades com o transporte público mais caro do mundo.

A comparação com cidades de outros países ainda nos leva ao terceiro ponto. Em nenhuma grande cidade do mundo o custo do transporte público é coberto apenas pela tarifa. Os subsídios –ou seja, a participação de recursos dos orçamentos públicos e de outras fontes de receitas–, chegam, segundo dados das European Metropolitan Transport Authorities para 2012, a 70% em cidades como Praga, 64% em Turim e superam os 50% em Varsóvia, Budapeste, Helsinque e Copenhague.

Em média, estes mesmos dados indicam que mais da metade do custo unitário do transporte público é custeado pelo governo. Essa comparação mostra que o preço da tarifa é uma questão de política pública, e é uma decisão sobre quem deve pagar pela locomoção nas cidades e para onde o dinheiro público deve ir.

Em São Paulo, no final de 2015, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou um pacote de concessões, especialmente para rodovias e aeroportos, no valor de R$ 13,4 bilhões, em regime de parceria público-privada e em que serão gastos R$ 690 milhões de repasses federais apenas para pagar desapropriações.

Já o prefeito Fernando Haddad (PT) acaba de anunciar a construção de duas novas avenidas para desafogar as marginais. O valor do projeto é estimado em R$ 2 bilhões, também no formato de parceria público-privada, o que certamente não impedirá que uma grande quantia do erário público seja gasta.

Foram escolhas sobre onde e como gastar –e não uma conta genérica– que orientaram a decisão dos prefeitos e do governador. Onerar os usuários de ônibus e metrô é uma escolha política. É, portanto, absolutamente necessário que se abra um diálogo sobre estas opções

TATICAS POLICIAIS II

[texto original]

 

 

TATICAS POLICIAIS I

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O segundo ato expressivo contra a alta das tarifas de ônibus, trens e metrô em São Paulo foi marcado pela mudança de estratégia da Polícia Militar, que reprimiu a manifestação de forma mais intensa antes mesmo de haver confronto com “black blocs” e usou bombas para dispensar os participantes.

A polícia decidiu bloquear a avenida Paulista e revistar manifestantes antes do começo do protesto e impedir que eles avançassem pela avenida Rebouças. Após empurra-empurra, lançou bombas de gás que acabou dividindo os grupos por diferentes ruas e provocando correria.

No começo da noite, quatro manifestantes estavam feridos. Bombas de gás também chegaram a ser lançadas em jornalistas e pedestres que não participavam no ato.

A nova estratégia da PM foi adotada depois de a primeira manifestação contra a tarifa, na última sexta-feira (8), ter sido marcada por atos de vandalismo de “black blocs”.

Nesta terça (12), a confusão começou quando integrantes do MPL (Movimento Passe Livre) tentaram seguir pela avenida Rebouças. Um cerco da polícia foi formado impedindo a passagem do grupo.

A PM queria que eles seguissem por outro trajeto, pela rua da Consolação, sob a justificativa de que os manifestantes não informaram a rota com antecedência.

O impasse causou tumulto e alguns manifestantes tentaram furar esse bloqueio. A polícia então, lançou dezenas de bombas de efeito moral e spray de pimenta, provocando correria na Paulista.

O metroviário Eber Veloso Carlos, 28, foi ferido e ficou com a cabeça sangrando. Ele disse ter sido agredido pelo cassetete de um policial. “É a primeira vez que eu apanho gratuitamente”, disse ele, que participava do protesto.

A confusão dividiu os manifestantes. Enquanto um grupo seguia pela rua da Consolação, outro caminhava por dentro do bairro de Higienópolis, área nobre da cidade.

SITES

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The annual list of the ten best planning, design, and development websites, representing only some of the top online resources for news, information, and research on the built environment.

Every yearPlanetizen recognizes ten websites as the best online resources for urban planning, design, and development.

When Planetizen first began compiling lists of top websites in 2002, we included 50 websites on the list. Even with that many sites on the list, the collection offered very little of the variety and innovation available online in 2015.

In 2015, the Internet includes apps in addition to websites, enabled by additional layers of technology, like the Cloud, smartphones, and GPS. Websites today include sub-genres like crowdsourcing, crowdfunding, social media, and data viz, in addition to the traditional news and institutional sites. Meanwhile news and institutional sites can often be found using the technologies of crowdsourcing, crowdfunding, social media, and data viz. Excellence online in 2015 isn’t always a radical new technology or tool—sometimes it’s a well chosen blend of the many possibilities available.

After collecting nominations from readers and staff, the Planetizen editorial staff selected the “2015 Top Websites” list based on a common set of criteria, including content, design, and usability, choosing ten websites representing a variety of uses and focuses. We’ve listed the websites alphabetically, not in order of rank.

Chicago Cityscape

Not all systems for tracking development and planning are created equal, but they all have some catching up to do compared to the example set by Chicago Cityscape. For the uninitiated, the website offers access to open data on building permits—providing tangible evidence about how the neighborhoods of Chicago are changing. Chicago Cityscape relies on a simple design to present copious amounts of open data—from renovations to demolitions to violations and more. Searching a specific property also produces information on Census tracts, planning and zoning overlays, and neighborhood info. Much of the data available on the site requires a subscription to access, but a quick poke around the free version of the site is all it takes to see the tremendous power of open data to provide access to information about the development process.

City Observatory

City Commentary, the blog and news analysis feed on the City Observatory website has achieved something truly rare in the planning and urbanism media landscape: every single post is essential reading. Well argued and well researched—City Observatory has become one of Planetizen‘s most trusted sources for reasoned perspective on the news and ideas of contemporary times. The kinds of urbanists that could benefit from the knowledge shared on City Observatory: advocates, policy makers, journalists, students, and citizens. That’s just about everyone, right?

Civic Crowdfunding Sites ioby and Neighborly

We stretched the rules a little on this one and acknowledged two websites—both examples of crowdfunding but each with a significantly different approach.

Neighborly provides access to public finance by connecting users to municipal bonds—that critical mechanism for capital investment that sums to a market of $3.7 trillion. The big idea: in choosing specific municipal bonds for investment, people also choose causes to support (like education or infrastructure).

By contrast, ioby works more the well known model found on Kickstarter—users present a project for fundraising and the public can decide a level of support for the project. Because projects are civic in nature, ioby has proven to have beneficial effects for local efforts of placemaking and community building. If you’re looking for more on ioby and Neighborly, an article by Bloomberg Business highlights both.

Esri Story Maps

Few technology companies are as essential to the practice and study of planning as Esri, makers of, among many other things, ArcGIS. Esri Story Maps offers a free, easy-to-use tool for creating effective, visual stories. By offering Story Maps with free access, Esri leverages its significant firepower in the world of mapping into the world of storytelling, creating a welcome and valuable addition to the toolbox of anyone who cares about places, the planet, or people. For an example of the power of the platform, check out the “Atlas for a Changing Planet,” created by the Esri Story Maps team on the occasion of the United Nations Climate Summit. Bright, interactive, engaging, imaginative—the possibilities for Story Maps are as boundless as the world itself.

Greater Places

Built on the premise that communities need new types of resources for design, Greater Places provides “organized, visual examples, networked communities of peers and great ideas…” Think of Greater Places as a compendium of case studies, ranging in subject from plan making, resilience, equitable development, street design, water, and many more. While the Greater Places website is in itself a tremendous resource worthy of this list of best websites, Greater Places also deserves credit for creating a new level of conversation as one of the creators of Cards Against Urbanity and a forthcoming planning game.

Social Media Sites Pinterest and Instagram

It’s impossible to stress the importance of thinking beyond the confines of an organization’s official platform for the benefits of the Internet. Social media integration has a been a buzzword for a long time, especially for planners and designers faced with the daunting tasks of pitching projects to the public, but obviously some have done a better job of others of rising above the noise and clutter of the contemporary social media landscape. Two platforms in particular have shown a surprising knack for facilitating better planning and design understanding: Instagram and Pinterest.

Instagram is well acknowledged for its celebration of the visual delights of all kinds of environments—from rural to urban and international to domestic. The city of Mobile, Alabama took the platform a step further, using the app’s geotagging function to create an initial database of blighted and vacant properties. In effect, Instagram provided a cheap and easy tool that made it much easier to take the initial tentative steps in a large planning effort.

The power of Pinterest is exemplified by Slow Ottawa’s Pinterst page, which gathers and presents ideas about how to improve planning and design outcomes. Slow Ottawa’s Pinterest board includes visual presentations of ideas for streets for everyone, street furniture, hydrology, and even planning failures. Pinterest is so well suited for organizations looking for an accessible, cheap, and sharable platform for ideas—it’s a wonder we don’t see more doing it.

Streetmix

For a “side project” by a group of 2013 Code for America fellows, Streetmix has managed to attract a lot of attention from Planetizen readers. Streetmix allows site visitors to “design, remix, and share” street ideas, by providing an interactive street diagram easily manipulated by dragging and dropping and pulling and removing. The menu includes car lanes, bike lanes, landscaping, bus lanes, bus shelters, and rail transit. Streetmix earns its place on this list for seamless functionality as well as broad appeal: it’s easy to imagine the use of Streetmix as a tool for academic instruction, outreach, and advocacy (and we’ve already noticed Streetmix-created diagrams popping up all over the web), and also as a habit-forming and entertaining tool for seasoned urban designers.

Strong Towns

Mainstream media outlets have noticed, as have we at Planetizen, how successful Charles Marohn has become at spreading the gospel of Strong Towns. Strong Towns is one of the few essential reads focused on planning, offering unwavering excellence in advocacy, reportage, and rhetoric. Not to mention that the annual #BlackFridayParking event is a model of online engagement. If you’re looking for a gold standard of presenting and supporting ideas about how to improve the built environment: Strong Towns is it.

Surging Seas

Climate Central created an interactive map to illustrate the catastrophic threat to coastal communities presented by sea level rise. Even oil companies agree that we will have to prepare for rising sea levels—this tool just shows you how difficult a challenge that represents. A quick tour around the United States using the Surging Seas interactive map is all it take to see that it will take a larger project than anything humans have imagined thus far to stem this tide. Surging Seas provides more than just a scare tactic, however, deriving its power from information instead of fear. The website provides several different tools for risk identification and reduction, additional layers of data, like population, income, and ethnicity, to create a holistic picture of the challenge, and, finally, a constant reminder that the coastal environment of the future will be a result of the choices we make now.

WALKScope

WALKscope is the rare example of crowd-sourced public engagement that actually works. WalkDenver and PlaceMatters created the platform to engage the public in gathering information about the pedestrian environment in Denver. The color-coded map that results from all this collaboration quickly and clearly identifies the gaps in the pedestrian network. Unlike many platforms with similar goals, WALKscope is well-trod: 6,717 sidewalk quality reports populate the map, along with 1,817 intersection quality reports, and 227 pedestrian counts. The information is visible at specific locations as well as in the aggregate for the city. Not that anyone needs another reason to visit the beautiful city of Denver—but using this app to contribute to this cause seems worth a trip.

SOBRE NARRATIVAS EMBALADAS

[texto original]

Os atos pelo Brasil contra o aumento de tarifas de transporte padecem de um deslocamento estrutural. Embora haja quem faça testemunhos, relatos específicos do que aconteceu por ali (uma impressão sutil, uma descrição objetiva), mostre uma imagem diferente, uma denúncia, um vídeo inusitado, a repercussão na internet e na imprensa parte de ideias já estabelecidas sobre os protagonistas, de uma narrativa pronta, previsível – diante da qual outros relatos serão derrotados de antemão. Pior que isso: boa parte dos protagonistas – como a PM e os black blocs – sabe disso e torna o cenário dos atos um campo de batalha midiático. E repetitivo.

Quem quiser fugir dessa sina binária estará destinado a narrativas periféricas. Mesmo que tenham sido a maioria nos atos. O Movimento Passe Livre (MPL) e manifestantes comuns pela tarifa zero, ou contra o aumento de tarifas, passaram apenas a fazer número. Secundaristas, feministas e sindicalistas que ali estavam podem até contar algo que a gente não sabia; reclamar que não estão sendo ouvidos, que a imprensa não está repercutindo como deveria. Serão ignorados. A estratégia de PMs e black blocs está definida, e ela passa fortemente pela conquista sem nuances dos corações midiáticos. Ou pela satisfação das torcidas. O Brasil assiste a protestos de rua essencialmente virtualizados.

Vejamos essa imagem da Globo News, que abre o texto. Ou a foto que estampa a capa da Folha. Elas dizem muita coisa. Temos a transmissão da própria Globo, temos (ainda que não se veja nesse recorte congelado da TV) os fotógrafos registrando a depredação do ônibus. Temos o manifestante – tudo indica que seja mesmo um black bloc – fazendo tudo aquilo com a plena consciência de que está sendo fotografado e que haverá repercussão midiática. Sabendo que será chamado de vândalo por um setor expressivo da sociedade, defendido por parte da esquerda e que outro setor à esquerda seguirá perplexo. E é isso o que ele quer: ser o protagonista. Que a sua imagem seja a mais comentada.

Batuques e cantorias e performances sorridentes das multidões nas ruas pelo transporte público e gratuito – ou quaisquer sinais dos momentos pacíficos da manifestações – motivam menos fotos e menos comentários. Até a violência policial contra manifestantes pacíficos acaba sendo escanteada. Quanto mais a criatividade. Sentimo-nos impelidos a comentar a situação limite, a violência à Tarantino, a violência MMA de policiais e black blocs. Alguns dos policiais, com câmera na mão. Black blocs com o rosto coberto, apenas o rosto coberto – pois todo o resto (do visual aos pontapés) está destinado à visibilidade extrema. Não há invisíveis de verdade nesse embate.

E cada pessoa que comenta as cenas de batalha se torna refém dessas cenas de violência, dessa brutalidade discursiva que se impõe. Cenas convenientes para os dois lados mais salientes – os governos estaduais e os manifestantes com esse afã de visibilidade. Péssimas para aqueles que rumam aos atos com propósitos pacíficos. Resta saber se conveniente para os organizadores dos atos, o Movimento Passe Livre, que não definiu ainda (ao menos verbalmente) se corrobora os atos dos manifestantes valentões, mas decidiu aderir – por inércia ou por omissão – a esse sequestro narrativo, ainda que terceirizando o próprio protagonismo. Valem a pena as menções aos R$ 0,30, em meio aos vidros quebrados e à caça policial de manifestantes pela cidade?

Para a imprensa graúda, sim, a polarização é mais do que conveniente. Que coisa melhor para o sistema ter mascarados que quebram ônibus, a catalisar o ódio dos telespectadores e atenuar a violência da polícia? Mais prático que fazer reportagens sisudas sobre o poder assassino das milícias e grupos de extermínio, que colocar em pauta o massacre indígena, a questão ambiental – temas que incomodam setores do poder. A batalha das ruas parece de mais fácil entendimento, a partir do momento em que é reduzida a uma sequência chave: um encapuzado quebra uma vidraça, a polícia reage (se for o contrário banca-se a versão da polícia), e a partir desse momento justifica-se cinicamente toda a batalha campal.

Sao Paulo- SP- Brasil- 08/01/2016- Movimento Passe Livre (MPL), realiza ato contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo. A concentração para o ato ocorre em frente ao Teatro Municipal, região central da cidade. Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas

ESQUERDA, VOLVER

Nas redes sociais, os posts à direita cada vez mais colocam todos os manifestantes no mesmo campo da violência vândalo-baderneira. “Esses black blocs e o MPL são todos iguais”, dizem. Ou pior: no mesmo campo da violência e da corrupção, agora associada unicamente à esquerda. “Esses black blocs e o MPL e os petistas são todos iguais”. Com variações sobre o mesmo tema, frases idênticas, como se cada um tivesse um cassetete na cabeça e uma ideia na mão. Esse grupo tem saudade das balas de borracha e faz a defesa intransigente da violência de Estado, a dos policiais, com estes tomados como misto de heróis e vingadores; os black blocs, como bandidos. E que se dane quem entrar no caminho.

Quem comenta à esquerda acaba também virando refém dessa metabatalha, dessa instantaneidade planejada, à margem de qualquer noção mais elaborada de estratégia – como deveria convir para quem está do lado mais fraco. Há um afã, de alguns, de justificar os atos dos black blocs, descritos como oprimidos que se cansaram de humilhações, afinal, dizem, “não se pode confundir a violência do oprimido com a violência do opressor”. Mesmo que essa opção marcial (confundida com uma reação espontânea) apenas potencialize a violência do opressor – encarada aqui com uma surpresa calculada. Esses não permitem críticas aos black blocs, percebidos como heróis e vítimas – mesmo que morra um policial. Ou um cinegrafista.

Ainda à esquerda, despontam comentários cada vez mais impacientes com a curiosa estratégia kamikaze dos black blocs. Este artigo não está excluído desse campo, ainda que busque alguma reflexão adicional. Gostaríamos de enxergar genialidade onde vemos adrenalina desperdiçada, sem que os resquícios de boas intenções representem um milímetro de conquistas para trabalhadores, apenas um convite adicional à repressão – a todos. Deploramos a violência policial, muito mais capilarizada que a dos black blocs, mas nos perguntamos: qual foi mesmo o território que esses supostos revolucionários obtiveram? (Os estudantes de São Paulo ocuparam escolas justamente após perceber que, com eles, as manifestações de rua não iam dar em nada.)

O problema é que as avaliações mais cuidadosas ou reflexivas também estão destinadas a morrer abraçadas nessa pedagogia do linchamento, nessa lógica da pedra na mão; nessa avalanche de certezas apriorísticas. Onde não há espaço para um debate efetivo e não há margem para se repensar a dinâmica de cada manifestação. Pois essa dinâmica está sendo obliterada, reprimida, afogada, atropelada pelo maniqueísmo hegemônico, por um jogo já jogado, mesmo que alguns repórteres ou internautas façam seus relatos diferenciados. Estes, por mais ricos e dinâmicos que sejam, vão parar em um limbo midiático, ainda que cheguem à grande imprensa, restando à posteridade uma narrativa pobre, coturno x coturno, que soa como um arremedo de faroeste urbano.

HISTORIAS

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O diabo que fez isso

Maria do Carmo

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Vai ficar na memória o que a gente tinha

José do Nascimento

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Uma vida não tem preço

Geraldo da Silva

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O lugar não dá mais nada

José Pascoal

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Isso aqui vai virar uma poeira só

Edinaldo da Silva

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A nossa história não pode acabar no dia cinco

Paula Geralda Alves

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Aqui em Mariana os meninos ficam presos

Nívea da Silva

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Quando vi todo mundo quietinho, disse: Corre, gente!

Mírian Carvalho

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Puxava minha mãe, que puxava meu primo

Marcos Júnio de Souza

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Demorei anos para fazer minha casinha

Marinalva Salgado

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As pessoas estavam estarrecidas

Leonard Farah

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Só não perdi minha família e a fé em Deus

Leontina Marcelino

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Eu salvaria meu cachorro, porque ele é vida

Onézio Souza

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O pessoal tinha esse pesadelo

Sandra Quintão

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A última coisa que tive da minha filha foi um beijo, um abraço e nada mais

Pamela Rayane

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Na hora, eu perguntava: Vocês viram minha mãe?

Marcelo José Felício

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PODER E DISCURSO

[texto original]

Entrevistava a deputada Érika Kokay (PT-DF) para uma matéria sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai e do Incra enquanto percorríamos o caminho entre a ala das comissões e o plenário da Câmara dos Deputados. Notei uma figura barbuda que passou por nós com detida curiosidade. Concentrado, não dei muita atenção. Próximo ao Salão Verde, encerradas as perguntas, agradeci à parlamentar e me dirigi ao Comitê de Imprensa. Fui então chamado por uma voz grave, que se elevou para me impedir de entrar no espaço reservado aos jornalistas. Virei e vi aquela mesma figura de barba espessa que nos observara.

­– Você já ouviu o outro lado?, perguntou.

– Oi?

– Eu vi você entrevistando a deputada, que lhe falou sobre a bancada do Boi e da Bíblia. Você já ouviu o outro lado?, insistiu.

– Ouvi Nilson Leitão, Alceu Moreira, Tereza Cristina e Osmar Serraglio. Acho que o outro lado está bem representado, né? Mas quem é você?

– Edward Luz. Eu sou antropólogo.

Só aí saí da porta do Comitê, dei meia-volta e me dirigi à figura, intrigado.

– Eu sei quem você é, respondi.

Desligado da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) pelos posicionamentos radicais e contrários aos direitos dos povos indígenas, Edward Luz é bem conhecido entre as pessoas que acompanham os debates sobre a questão. O que aquela polêmica figura estaria fazendo na Câmara?

– Vamos procurar um local para bater um papo. A ala das comissões deve estar vazia, disse a ele.

Foi assim que entramos no plenário 1 do Anexo II da Câmara, onde ordinariamente se reúne a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Casa, para uma entrevista de cerca de uma hora. Ao final, como seguiríamos para a mesma direção, continuamos conversando informalmente. Já próximos à Chapelaria do Congresso Nacional – entrada comum à Câmara e ao Senado –, Luz se encontrou com um assessor do relator da CPI da Funai, o deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), destino final da caminhada dele.

Mas, afinal, quem é Edward Luz? “Antropólogo lutando pelo resgate do projeto nacional da nação brasileira”, diz a sua descrição no Twitter. No microblog, em meio a muitos posts sobre a questão indígena, ele compartilha também manifestações de apoio aos grupos que acamparam no gramado em frente ao Congresso pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Vamos Juntos @MBLivre força nesta luta democrática por um projeto de país livre, porque esse projeto atual já faliu!”, disse em um dos posts.

Edward Luz, o antropólogo que tem posicionamentos radicais e contrários aos direitos dos povos indígenas

Desde muito antes de defender o impeachment, Luz se tornou conhecido em meio aos antropólogos brasileiros por outras militâncias. Primeiro, por não aceitar teses estabelecidas há décadas e de forma praticamente unânime no meio acadêmico que debate a questão indígena – e por sustentar outras rejeitadas praticamente com a mesma força. Segundo, por ser filho de um pastor evangélico de mesmo nome, proibido de voltar a promover missões evangelizadoras em meio aos índios Zo’é, na Amazônia, como contou o repórter Felipe Minalez na revista Rolling Stone em 2010 e 2011.

Luz se define como “principal depoente” da CPI da Funai e do Incra. Tanto que se recusou a aceitar os cinco minutos que lhe foram ofertados, na terça-feira (1º), quando, após outras três tomadas de depoimento, a comissão corria contra o tempo para evitar o choque de horário com a sessão do Congresso – que daria fim regimental aos trabalhos do dia. “Tenho 32 denúncias”, disse, por telefone, quando liguei para confirmar que ele não falaria naquele dia.

Com as denúncias, ele promete acabar com a “boquinha” de ONGs que atuam junto aos indígenas e com a legitimidade da ABA, e também quer chamar atenção dos parlamentares para um complô internacional que sobrepõe interesses estrangeiros aos nacionais, financiando demarcações de terras indígenas. Algumas das bombas que Luz promete soltar já foram tornadas públicas por ele mesmo, como mostra o longo perfil publicado no blog Questão Indígena. O site, que deixou de ser atualizado no início do ano, ganhou notoriedade por acusar populações de se passarem por índios – como faz Luz – e por atacar demarcações de terras indígenas que envolvam disputas com agricultores.

Laudos contestatórios

“Sou antropólogo e consultor independente. Tenho uma empresa que presta consultoria antropológica para comunidade, empresas, municípios, prefeituras, cooperativas. Ou seja, para qualquer cidadão que sinta que seu direito à propriedade esteja sendo ofendido, diminuído ou até mesmo subtraído em um processo de demarcação de terra indígena”, disse Luz, no início da nossa entrevista no plenário 1. “Não contesto qualquer demarcação, só aquelas onde entendo que está havendo um abuso, um exagero, ou onde, talvez, até mesmo uma possível fraude possa estar acontecendo.”

Ele nega que produza laudos contestatórios. “Eu vou a campo e faço laudos, produzo, interpreto a realidade de acordo com os fatos que eu encontro. O fato de ele ser contestatório é um mero resultado dos fatos que encontrei em campo, e é uma contestação do fato de que alguém está mentindo”, assevera. “Atuei em Morro dos Cavalos, em Santa Catarina [um dos casos que merecem a atenção da bancada ruralista na CPI]. Sobre Mato Preto [no Rio Grande do Sul, outro caso emblemático para aqueles parlamentares], eu tomei ciência, mas não fui eu que fiz a contestação – o que, aliás, já prova por si só que contestar não é uma implicância minha.”

O antropólogo ressalta ser a favor da demarcação de terras para os índios desde que não afete os setores produtivos nacionais, os interesses nacionais e sobretudo a sociedade regional. Questionado se concorda com a versão final da PEC 215, que inclui o Congresso Nacional nos processos demarcatórios, Luz responde com um pensamento atribuído a Winston Churchill. “Você sabe o que ele falou sobre a democracia, né? É o pior de todos os sistemas de governo, excetuando-se todos os outros. A PEC 215 é mais ou menos isso. Não gostaria que ela fosse aprovada da forma como está sendo colocada, porque eu queria que esse debate acerca da formação de identidade e da proteção de terras indígenas não viesse maculado pelo nome de uma PEC ruralista, nem que fosse monopolizado pelos políticos. Defendo um debate cívico com toda a sociedade.”

Luz diz que estreitou laços com deputados da bancada ruralista entre 2012 e 2013 por iniciativa própria e que, de certa forma, alguns deles incorporaram no debate do Congresso as teses por ele defendidas. “Na verdade, é praticamente isso. Não é bem um motivo de orgulho, mas eu me sinto satisfeito com o trabalho da minha assessoria parlamentar, individual, às vezes remunerada, outras não.” Segundo ele, um dos primeiros a dar atenção às suas ideias foi o ex-deputado federal do DEM e atual vice-governador de Roraima, o arrozeiro Paulo César Quartieiro, que se diz dono de 12 mil hectares de terra na TI Raposa do Sol.

“Eu descobri que a Convenção 169 da OIT pode ser contestada a cada dez anos”, diz. Ratificado pelo Brasil, o texto da Organização Internacional do Trabalho estabelece direitos como a consulta prévia aos povos indígenas em caso de empreendimentos que incidam sobre as suas terras. “Mandei e-mail para mais de 50 deputados que achei que estariam mais ou menos interessados. O único que atendeu foi o Paulo César Quartieiro, que convocou uma audiência pública para debater o tema.”

A partir daí teria começado o contato com outros parlamentares. “Comecei a conversar e percebi que há uma articulação: a esquerda etnicizou a luta de classes, como se todos os pobres do Brasil fossem agora convidados a ou serem indígenas ou quilombolas. Se os deputados da esquerda quiserem defender os direitos indígenas, eles que não utilizem esses direitos como pretexto para atacar a capacidade produtiva do país. Ao fazê-lo, eles dão carta na manga desses deputados que são identificados como ruralistas.”

“Catequese etnogênica”

Autor de oito laudos para a Funai, dos quais três já se tornaram terras indígenas homologadas, ele acusa diversas instituições e ONGs indigenistas de inventar índios e até mesmo de receber dinheiro de outros países para promover a demarcação de terras no Brasil. “Nós estamos de olho. Se ninguém entendeu ainda o que isso quer dizer, é o seguinte: a legislação brasileira e o processo demarcatório de terras indígenas é obscuro o suficiente, é um campo pantanoso o suficiente para permitir a ingerência de outras nações no nosso território nacional.”

E qual seria o interesse dessas nações? “A resposta honesta e correta é: eu não sei. Agora existem hipóteses, e elas fazem muito sentido. A desculpa que eles dão é proteção da fauna e flora amazônica, das árvores.” Interrompo: “E das populações também?”. “Não sei de qual população”, responde. Luz explica então a sua teoria de que existe hoje no Brasil um processo de “catequese etnogênica”, que ele descreve com um hipotético diálogo. “Eles chegam para um cara como você – que inclusive tem uns olhos assim meio asiáticos – e falam, ‘Vem cá, você é índio?’. E o figura: ‘Não, eu não sou índio, eu sou caboclo da Amazônia’; ‘Mas por que você não é índio? Você tem todo o jeito, tem a cara, tem o cabelo de índio’; ‘Não, mas o meu avô veio do Ceará, eu não posso ser índio’; ‘Não, você é índio, você que não sabe, é porque tem um sangue indígena no seu interior. E você sabe o que você ia ganhar? Você ia ganhar Bolsa Família pra ser índio, você ia ganhar saúde especial. Veja bem, seu filho vai poder entrar por cotas indígenas’; e o cara fala: ‘Mas rapaz, sabe que é verdade? Eu vou passar a ser índio’. Eles estão criando terras indígenas dessa forma, na cara aberta.”

Luz passou a ser um antropólogo contestador quando percebeu que boa parte dos antropólogos estaria envolvida ou calada diante desse tal processo de “etnogênese”. “Comecei a oferecer os meus serviços quando percebi que havia motivos para a contestação, não porque havia um mercado de trabalho. E se os antropólogos estão nervosos com o meu trabalho, se eles querem me ver desempregado, eles que não mintam, eles que não forcem a realidade, que não chamem caboclos ribeirinhos de indígenas, porque aí eu não terei como contestar.”

Questiono se a bancada ruralista também não angaria votos com o discurso contestatório das demarcações e incitando em alguns casos o ódio racial e a violência. Afinal, o discurso de Luz acaba se alinhando com o deles. “Sim. Se eu pudesse escolher, eu preferiria que isso não estivesse acontecendo. Mas o fato de a bancada ruralista se apropriar da minha fala, do meu trabalho, só mostra que infelizmente alguém está fazendo alguma coisa errada”, responde.

Movimento isolado da antropologia

“Catequese etnogênica, essa é muito boa. Ora, quem faz catequese é missão – e quem aqui é de família de missionários que fazem todo o possível para agir em terras indígenas e recrutar adeptos para a doutrina cristã pentecostal? Isso é que é catequese”, critica o antropólogo Spensy Pimentel. “O que muitos grupos indigenistas fazem é apoiar os índios na construção política da luta por seus direitos. Isso faz parte da democracia”, completa o professor da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Para ele, as ideias de Luz – presentes na boca de muitos dos ruralistas – sobre a transferência de índios paraguaios para o Brasil, por exemplo, são contraditórias e preconceituosas. “Por um lado, subestimam a inteligência dos indígenas, como se fossem manipulados pela vontade alheia; por outro, acusam-nos de matreiros, mentirosos.” Autor da tese de Doutorado Elementos para uma teoria política kaiowá e guarani, defendida em 2012, Pimentel diz que, no Mato Grosso do Sul, por exemplo, algumas igrejas pentecostais têm sido acusadas pelos indígenas de praticar extorsão contra fiéis e de promover ódio contra a religião tradicional indígena. Ele lembra ainda que algumas instituições, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), têm sido perseguidas desde a ditadura militar, sem que jamais houvesse prova que sustentasse os discursos contra elas.

Pimentel destaca ainda que, do ponto de vista científico, são poucos os que defendem as teses apresentadas por Luz. “É um movimento isolado, que só tem alguma visibilidade por questões políticas. O debate acadêmico sobre essas questões da identidade étnica já gerou consenso há várias décadas. Na prática, o que nós temos é um debate político – até porque a identidade étnica é resultado de um embate político. Por sinal, foi no período da ditadura militar que o governo queria que os antropólogos emitissem ‘laudos’ para reconhecer se uma comunidade era indígena ou não. A antropologia brasileira recusou esse papel e o fez a partir de um fundamento científico muito claro, que é resultado de todo um debate ocorrido nessa disciplina ao longo do século 20.”

A identidade étnica é resultado da autodeclaração e de um reconhecimento da pessoa por uma comunidade. “Não é o antropólogo que poderá dizer se uma pessoa é um ‘falso índio’ ou um ‘falso branco’. O problema é que o brasileiro não recebe uma educação que o capacite a entender esses temas. Assim, as pessoas seguem pensando que o que define o índio é o cocar ou a tanga que ele usa, quando a questão é muito mais profunda que isso – esses são apenas marcadores para uma diferença. E os marcadores mudam com o tempo: afinal, somos brasileiros que usamos calça jeans e tênis americanos, mascamos chiclete, ouvimos música estrangeira – deixamos de ser brasileiros por isso?”, pondera Pimentel.

Ele explica que cabe ao antropólogo a tradução para a sociedade não indígena dos motivos e das justificativas que embasam a demanda de um grupo indígena por um território ou por outros direitos. “E repare que os próprios índios já estão preparando pessoas para que possam também assumir esse papel. Em breve, até mesmo os antropólogos brancos serão intermediários desnecessários nesse processo”, comenta.

Na contramão do que diz Pimentel, Luz vê uma “doença” que se apropriou das causas dos índios – o indigenismo. “Há um conjunto de propostas e iniciativas, há uma agenda política que não parte dos indígenas, mas do indigenismo e de quem comanda os indígenas. Muita coisa é feita em nome deles, como se fossem eles os beneficiários finais, quando na verdade não são”, alega, apontando o caso da Raposa Serra do Sol, em Roraima – exemplo muito utilizado pelos ruralistas, que alegam estarem os índios morrendo de fome após a retirada de agricultores de seus territórios. “Os indígenas tinham emprego. Claro, não era o melhor dos empregos, eles plantavam arroz. Mas eles tinham interesse na permanência dos agricultores ali.”

Direitos originários e marco temporal

Chama atenção a coincidência de algumas de suas ideias com a dos ruralistas, especialmente em dois pontos que são centrais nas discussões sobre terras indígenas e a PEC 215: os direitos originários e o marco temporal de 1988. “Não deveria haver direitos originários no Brasil”, diz, sobre o conceito consolidado na Constituição. “Essa foi uma interpretação preconceituosa, portanto errônea, acerca dos indígenas que aqui estavam. Ao chegarem aqui, os portugueses relataram aos reis que havia habitantes e se supôs que eram originários. A esquerda de hoje nem é tão culpada assim, ela só se apropriou de um preconceito que já estava estabelecido. A raiz etimológica da palavra indígena é de ‘endógena’, de alguém que nasceu naquele local. Ninguém que habite as Américas é indígena daqui”, analisa. Questiono o argumento e pergunto se não é exagerado levar a discussão para 10 mil anos atrás. “Onze mil e quinhentos anos, aproximadamente. São colonos asiáticos que vieram migrando, assim como os nossos avós vieram. Mas tá, eles chegaram aqui há mais de 11 mil anos. Como alguém já me disse, é um ótimo usucapião – mas também são migrantes”, explica.

Luz segue o raciocínio e critica a Convenção 169 da OIT. “Ela não é de todo ruim, mas tem alguns problemas complicados, como a autodeclaração da identidade sendo entendida como válida para a legitimação de uma coletividade. Ela pode ser válida para a legitimação do seu ser. Vamos dizer que você queira se dizer japonês”, prossegue, atento aos meus olhos puxados. “Tem alguma coisa do Japão que você gostou muito, você até se sente uma reencarnação de um samurai japonês. Tudo bem, cada um com a sua loucura. Mas daí pro Japão reconhecer os seus direitos como cidadão japonês é outra coisa. Você tem que obedecer a determinados critérios, e a nossa Constituição tem critérios, e um deles é estar na terra em 5 de outubro de 1988.”

A data da promulgação da Constituição como marco temporal foi utilizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no caso da Raposa Serra do Sol – julgamento sem efeito vinculante, como definiu a Corte, mas cujas premissas foram incorporadas no texto da PEC 215. A interpretação literal do artigo 231 – no qual estão reconhecidos os direitos originários dos índios sobre as terras que tradicionalmente “ocupam” – tem levado a um processo de contestação de demarcações de terras nas quais não havia presença indígena comprovada em 5 de outubro de 1988.

“Faz sentido estabelecer essa data, mesmo sabendo que essa época marcou o final de um período ditatorial de muita perseguição, de um genocídio contra os povos indígenas?”, questiono, lembrando que a Comissão Nacional da Verdade encontrou fortes evidências da morte de cerca de 8 mil índios no período militar. “Então que outro momento nós deveríamos reconhecer, ou porque não estabelecer como marco temporal 14 mil anos atrás, por exemplo? Eu posso concordar que 1988 talvez não seja o melhor momento, mas há uma Carta que rege esse país, que é a Carta de 1988”, responde Luz. “Se a gente não tem um marco temporal, ou se ele for 1600, 1500, o país acabou”, completou, mais uma vez no exato tom utilizado pelos ruralistas. Só faltou dizer que a ausência de um marco temporal levaria à devolução de Copacabana aos índios – uma das frases feitas mais ouvidas nas discussões sobre os direitos indígenas na Câmara.

O que diz a Constituição 

Segundo Christian Teófilo, professor do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas (Ceppac) da Universidade de Brasília (UNB), a tese do marco veio à tona, em parte, devido à ênfase dada, durante muito tempo, à imemorialidade como legitimadora de direitos. “Antes de 1988, a Funai promovia a delimitação de áreas e a demarcação apoiada em estudos documentais, etno-históricos, fundiários, tentando assegurar que a localização de um povo numa região seria fundamentada em uma antiguidade. Com a Constituição, esse não é mais o fato originador do direito.” Segundo Teófilo, a Carta Magna – que não fala em imemorialidade, mas em tradicionalidade – estabeleceu o entendimento de que não é necessária a comprovação da antiguidade na terra para legitimar o direito dos povos à sua ocupação. “A Constituição entendeu que muitas das terras que os índios ocupam são resultado de expulsões, fugas; eles foram obrigados a ir para alguns locais.”

Teófilo compara a adoção de um marco temporal à Lei de Anistia, promulgada pela ditadura militar em 1979. “Você apaga todos os crimes e violações históricas de direitos em nome de um apaziguamento, na letra da lei, dos conflitos e das contradições que a sociedade engendrou. É uma tentativa de botar um limite numa conflitualidade que, no fundo, tem responsáveis.”

Membro da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Teófilo acredita que as ideias de Edward Luz “caíram como uma luva” para a bancada ruralista. “A tentativa de colocar essas teses num contexto judicializado como é uma CPI tem por intenção simplesmente retirar a argumentação científica do modelo demarcatório, mas também da antropologia – retirar a sua autoridade explicativa e metodológica. O que se quer é ventilar falsas suspeitas, calúnias e teorias conspiratórias, tudo com o intuito de menosprezar a disciplina enquanto fundamental para a operacionalização de direitos socioculturais no país. É uma coisa inédita, atacar uma disciplina científica por conta de interesses políticos e econômicos de determinados parlamentares.”

O professor do Ceppac critica ainda a tentativa de criminalizar o trabalho de ONGs e instituições que atuam pela efetivação dos direitos indígenas. “Há uma inversão e um desconhecimento histórico proposital de atribuir o protagonismo político de indígenas a agentes externos. A ideia de ‘catequese etnogênica’ é uma falsa tese elaborada por interesses que visam a esvaziar o protagonismo indígena.”

SOBRE IMAGENS E A GUERRA

https://vimeo.com/110266926

 

AULA II

[texto original]

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Nas ocupações, alunos valorizam escolas contra um discurso de ataque à coisa pública

Observatório da Sociedade Civil – Menos de 20 dias depois do início da primeira ocupação de uma escola estadual, em Diadema, o movimento de estudantes que tentam impedir o fechamento de 94 unidades de ensino segue forte em várias cidades de São Paulo. A ação obrigou o governo do estado a cancelar o Saresp nas escolas tomadas, mudar locais de provas da Fuvest e enfrentar uma contundente derrota no Judiciário, que entendeu que, de fato, faltou diálogo com estudantes e professores que sofreriam os impactos da medida e, por isso, as reintegrações de posse não seriam adequadas.

O governo ainda resiste em dar aos estudantes o que eles querem e insiste na “reorganização”, inclusive gastando R$ 9 milhões para tentar encucá-la na população por meio de publicidade.

Dado o histórico pouco afeito ao diálogo do governador Geraldo Alckmin (PSDB), talvez, as escolas realmente sejam fechadas. Mas para educadores ouvidos pelo Observatório, as lições que ficam do movimento já são perenes.

Nas escolas ocupadas, os estudantes têm manifestado satisfação em aprender novos conteúdos a partir da experiência política, cultural e colaborativa. Eles assumem várias facetas do protagonismo. Além de terem de cuidar da rotina, o que inclui se reunir, deliberar e cuidar da segurança, alimentação, limpeza, programação, comunicação e solução de conflitos internos, ainda assumiram papel político de peso na atual conjuntura.

“É uma mobilização ímpar. Ultrapassa tudo que poderíamos pensar em planos de ensino”, avalia a pedagoga e doutoranda em educação Crislei de Oliveira Custódio. “Mais que qualquer proposta construtivista, é uma experiência política de fato. Nas escolas construtivistas, há toda uma programação para o protagonismo, mas que acaba sendo um simulacro do que seria uma experiência democrática em um espaço público. Nesse caso, é mais interessante porque partiu dos alunos, eles estão se organizando nessas coisas cotidianas. Nas escolas construtivistas, ainda é preciso uma permissão do adulto, que decide o que será democratizado”, pondera.

Para o educador Ruivo Lopes, da Ação Educativa, o movimento deixa claro que não se deve subestimar nenhuma criança ou adolescente ao se pensar em políticas públicas, especialmente na educação. “A mensagem que fica é que esses estudantes têm projeção de vida, desejos próprios e condições de intervir na sua própria realidade. Eles já venceram todo o aparato de subestimação”, argumenta.

Os dois educadores ainda ressaltam como a iniciativa dos secundaristas é carregada de valorização das escolas, em um momento em que há um discurso deliberado contra as coisas públicas. A explicitação de um senso de pertencimento fortalece as unidades mobilizadas como equipamento público, fincado no coração das comunidades, que vão além da sala de aula. São locais de encontro, de troca, de lazer. Educativas em sentido muito mais amplo.

Além disso, o movimento conseguiu realizar um dos grandes objetivos de currículos escolares: trazer a comunidade para dentro da escola. Isso fica explícito na mobilização de pessoas para colaborar com aulas e oficinas, que têm mantido efervescente o ambiente das escolas ocupadas, mesmo nos finais de semana.

“Tanto já se falou em trazer as pessoas para a escola, usando festas, criação de conselhos e outros mecanismos. Sempre foi muito difícil, porque em geral a gente identifica como instituição do Estado e não como coisa pública, nossa. Um milhão de pessoas já escreveram sobre isso. E aí, numa coisa super de uma hora para outra, que não era um projeto do governo, se consegue”, ressalta Crislei. “Fico pensando como serão essas escolas depois da ocupação. Certamente é um divisor de águas”, aponta a pedagoga.

“Eles não voltam a ser os mesmos. E se as escolas derem espaço, elas serão transformadas para aquilo que sempre desejamos nos processos educativos”, acredita Ruivo.