AULAS I

[texto original]

Alunos ocupam a escola Professor Alberto Conte, na zona sul de São Paulo, em dia de provas do Saresp

“1. Plano de Ação

O objetivo deste texto é explicar o plano de ação escolhido para a luta dos estudantes secundaristas da cidade. Nossa estratégia deve permitir vencer a luta por uma educação pública e de qualidade. As ocupações massivas de colégios são uma das ferramentas dentro dessa estratégia.”

Assim começa o manual “Como ocupar um colégio?”, documento que orientou (e ainda orienta) estudantes paulistas a tomar, até esta terça-feira (24), ao menos 151 escolas da rede estadual.

Foi no final de outubro que a cartilha começou a circular em grupos de WhatsApp compostos por estudantes que protestavam contra a reorganização dos ciclos de ensino anunciada pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB).

O governo quer dividir parte das unidades por ciclos únicos (anos iniciais e finais do fundamental e o médio). Para isso, pretende transferir 300 mil alunos e fechar 92 colégios que ficariam sem estudantes com a mudança.

Esse manual é uma compilação de dicas de estudantes chilenos e argentinos sobre como entrar em um colégio público e nele permanecer, em forma de protesto.

O documento foi inspirado, principalmente, em movimento de secundaristas chilenos que ocuparam mais de 700 escolas em 2011, em protesto por passe livre e melhorias na educação pública. As ações ocorreram cinco anos após a chamada “revolta dos pinguins”, referência ao uniforme das escolas do país.

Primeiro, diz o manual, os alunos devem fazer uma assembleia geral para organizar a entrada. “A assembleia é o órgão mais importante de uma ocupação”, orienta a cartilha. Todas as decisões importantes devem ser tomadas em conjunto.

Depois, “o mais recomendável é que se nomeie comissões para cada tema e tarefa, como comida, segurança, imprensa, limpeza”, diz o manual, na primeira parte.

Esses preceitos foram rigidamente seguidos nos dois primeiros colégios a serem tomados, a escola estadual Diadema (Grande SP) e a Fernão Dias Paes, em Pinheiros, zona oeste paulistana.

Alunos caminham pelas escolas usando plaquinhas penduradas no pescoço. Em uma delas, está escrito “porta-voz” –o responsável por falar com jornalistas.

A comissão da segurança, segundo o manual, é uma das mais importantes das ocupações escolares. Quem faz parte dela usa uma placa com a palavra “milico”, uma ironia aos policiais militares.

“Durante todo o dia, deve haver três companheiros na entrada principal, que anotem em uma lista quem entra e sai e o horário. Depois, essa lista deve ser destruída.”

Nas unidades de Diadema e de Pinheiros, a regra é seguida à risca -os alunos da portaria se comunicam por rádio com quem está dentro.

Outro preceito da cartilha é a publicidade. Faixas de protesto devem ser colocadas na frente do colégio. Também deve-se evitar o consumo de álcool e drogas.

ORGANIZAÇÃO

Até o fim de outubro, os protestos contra a medida de Alckmin estavam restritos a passeatas de rua, com carro de som e faixas. Eram organizados por pais, alunos e membros da Apeoesp, o sindicato dos professores.

Os manifestantes reclamavam da “falta de diálogo” com a secretaria, que não revogava a ação. O governo, por sua vez, sempre afirmou “estar aberto à discussão”.

“A gente viu que os protestos não estavam dando certo. Resolvemos radicalizar”, contou outra estudante do Fernão, em Pinheiros.

Alunos de escolas diferentes –e que se conheceram nas passeatas– criaram grupos de Whatsapp para discutir maneiras de tentar barrar a reorganização dos ciclos.

“Foi aí que surgiu esse manual num dos grupos”, conta Fernanda Freitas, 17, aluna do 2º ano da escola estadual Diadema.

A adolescente chamou uma reunião com amigos para decidir se ocupariam ou não. “Era uma ideia louca? Sim. Era ilegal? Era. Era perigoso? Era. Mesmo assim, decidimos que sim”, conta.

Na noite do dia 9, cerca de 20 alunos entraram na escola como se fossem para a aula. Só que levavam mochilas com roupas, barracas e comida. Montaram acampamento no pátio, e estão lá até hoje.

“O principal é o planejamento, você não vai ocupar uma escola sem levar as correntes para fechar o portão”, diz Rafaela Boani, 16, também de Diadema.

Cerca de nove horas depois da ocupação da escola da Grande SP, mais de 100 alunos entraram na Fernão Dias Paes, em Pinheiros. O planejamento durou duas semanas. No dia 10, chegaram uma hora antes das aulas e convenceram o caseiro de que era uma reunião.

“A gente conversava com o pessoal de Diadema [pelo Whatsapp]. Sabíamos que ia acontecer lá também”, disse um estudante da Fernão –os alunos do colégio não quiseram que seus nomes fossem revelados nesta reportagem.

“Ocupar era uma vontade de todos, mas acontecer quase na mesma hora foi uma coincidência”, diz Fernanda.
cursinho?

Já “experientes”, estudantes dos dois primeiros colégios que foram ocupados agora ensinam e até ajudam alunos de outras escolas sobre como ocupá-las.

“Nessa semana, a gente recebeu 15 alunos que queriam entrar na deles. Estavam com medo e nós explicamos como fazer”, conta Fernanda Freitas, de Diadema.

Sua colega Rafaela explica: “A gente chama de cursinho intensivo de ocupação”.

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