AL ZAATARI

[texto original]

O caminho até Al Zaatari, um dos maiores campos de refugiados do mundo, leva cerca de uma hora. Saindo de Amã, capital da Jordânia, o trajeto é feito em uma faixa de asfalto cercada de areia –a mesma estrada que era usada com frequência pelos jordanianos para fazer compras ou passear na Síria. O país vizinho era considerado uma das nações árabes mais abertas ao mundo ocidental e, portanto, com mais opções de lazer. Mas isso tudo foi antes da guerra civil começar.

O movimento agora é no sentido contrário da estrada. Os sírios deixam o país em massa: 4 milhões fugiram da guerra desde o início do conflito, em março de 2011, diz o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Nos primeiros anos do campo chegavam centenas num mesmo dia em busca de abrigo, fugindo dos bombardeios que destruíram as cidades sírias.

Ihab Muhtaseb, um jordaniano que viveu anos na Califórnia e hoje trabalha como fixer –espécie de guia que acompanha os jornalistas que desejam trabalhar nas zonas de conflito– vai com frequência a Al Zaatari desde o início.

“Um dia, cheguei aqui e tinha tanta gente amontoada, não dava tempo de montar as tendas. Famílias inteiras dormiam nas ruas”, conta.

Três anos depois, o campo é um arremedo de cidade: há comércio, escolas, mesquitas e até playgrounds para crianças, além de hospitais. A rua principal, que concentra as lojas da “cidade” dos refugiados, remete ao metro quadrado mais caro do planeta para aluguéis comerciais: chama-se avenida Champs Elysées, como em Paris. Era assim que um dos primeiros grupos de ajuda humanitária em atuação na construção do campo, formado por franceses, a chamava. O nome pegou. Hoje é a mais movimentada de Al Zaatari, e reúne desde vendedor de kebabs até loja de aluguel de vestidos de noiva.

Esperei duas semanas pela autorização para visitar Al Zaatari, um documento necessário para qualquer pessoa que não vive ou trabalha em um campo de refugiados. De Amã até lá, dividi o carro com uma equipe de jornalistas franceses que produz um documentário sobre o Oriente Médio e que já havia visitado a região outras vezes. A proximidade do check point aumentou a tensão do grupo: a carta de permissão não garantia nossa entrada, que dependia do humor de quem nos atendesse. Se minha visita fosse negada, a orientação do motorista era voltar para Amã de ônibus – caso a equipe francesa fosse autorizada a entrar. Não foi preciso: o militar devolveu os papéis com um sorriso e um aceno de cabeça ao tradutor.

A distância entre o primeiro check point e o segundo, que daria acesso a Al Zaatari, era de quase um quilômetro. Ao redor, cercas altas com arames farpados na parte superior. Era a primeira vez que eu entrava em um campo de refugiados, um local onde as pessoas não estão por opção, e sim pela falta dela. Um acampamento temporário até poderem retornar à Síria e reconstruir suas vidas, algo que ainda parece distante quatro anos após o início da guerra. A área do campo mais próxima da fronteira fica a apenas 20 km do conflito civil que já matou 220 mil sírios, segundo as Nações Unidas.

Cheguei à Champs Elysées do deserto num sábado, o primeiro dia após o fim do Ramadã de 2015, sempre marcado por festas que celebram o fim do mês de jejum ritual que é um dos pilares do islamismo. Às 9h da manhã, as ruas ainda estavam vazias. Lojas abriam suas portas, uma padaria já vendia pães, o vendedor de uma banca de sapatos removia a cobertura sobre vários modelos em couro. Poderia ser em qualquer outra rua comercial de diversas cidades mundo afora, mas em Al Zaatari há uma fronteira definida pelas cercas. Os sírios que vivem no campo, um pedaço de terra em território jordaniano, não têm visto para viver no país.

Metáfora de liberdade

Yehiga Mohamad Hannud, 22, nasceu no Egito, mas foi criado na Síria. Esteve no campo antes, quando conheceu a mulher e se casou, mas preferiu voltar à Síria em guerra. Um ano depois, a violência o devolveu a Al Zaatari, onde vive com a mulher, os dois filhos e uma grande criação de pombos. Sua tenda fica em frente a um grande cruzamento e próxima de um parque de diversões cercado de arame que abre apenas em horários determinados. À porta, Yehiga nos recebe com copos e um bule de chá –o primeiro de vários que tomaríamos durante o dia, símbolo da gentileza dos árabes com seus visitantes.

Com os braços tatuados, o jovem abraça o filho pequeno e conta que os pombos o remetem ao país em que cresceu. “Esses pássaros me lembram da Síria, é como se eu estivesse lá. Se não fosse por esses pombos eu não ficaria aqui um único dia”, relata Yehiga. Omar, de dois anos, tem Al Zaatari como país de nascimento na sua certidão.

A criação de pombos tornou-se um passatempo. No campo, àqueles que não conseguem permissão para abrir um negócio só resta aguardar o fim da guerra na Síria –e cultivar a esperança. “Quando eu vejo todos esses pássaros voando juntos e voltando para mim, é como se fosse o dono do mundo”, diz ele, sorrindo. Para guiar as aves, ele arremessa pedras envoltas em plástico com uma espécie de estilingue na direção em que os pombos devem voar. Quando voltam, ficam no quintal da tenda de Yehiga e são alimentados com ração e restos de alimentos, preparados por ele. Se ficam doentes, ele os alimenta com seringas, direto no bico.

Alegria de aluguel

Visto de cima, Al Zaatari é um grande retângulo cheio de barracas brancas, separadas por ruas bem desenhadas e organizadas. No centro desse emaranhado de pontos brancos, a avenida mais larga reúne as barracas de moradores que foram transformadas em algum tipo de comércio. Entre elas, uma vitrine envidraçada reflete a movimentação da rua e esconde diversos cabides de volumosos vestidos de noiva. Além dos tradicionais trajes brancos, há vestidos coloridos, um costume das noivas sírias.

O dono, Abdulla Cabu, 36, mantém a timidez apenas até perceber meu interesse por seu negócio. Torna-se um vendedor falante e animado, conta que tem a loja há um ano e trabalha com mulher e filha sempre por perto. A família é de Damasco, capital da Síria, e está no campo há dois anos e meio. Como a grande maioria dos sírios que vivem ali, ele também deseja voltar para casa. Enquanto a guerra não dá trégua em seu país, Abdulla tenta seguir sua vida na “cidade” cercada de Al Zaatari. Aluga de três a quatro vestidos de noiva por mês por 25 JD (dinar jordaniano), cerca de US$ 35.

“Tento viver uma vida normal aqui e trabalhar com a alegria das pessoas. Isso me faz esquecer que minha família vive nesta espécie de prisão.”

Um jardim no deserto

Quase uma da tarde, as ruas do campo já estavam tomadas de crianças. Quando viam nossas câmeras, logo se posicionavam para fotos. Entre os meninos, havia armas de brinquedo que eram apontadas para nós enquanto posavam.

Saímos da avenida movimentada com nome francês e chegamos à parte do acampamento mais próxima da fronteira da Jordânia com a Síria. Pelas ruas labirínticas, onde quase todas as barracas são parecidas, um pequeno pedaço de terra com algumas plantas atraiu nossa atenção. Era um modesto jardim, mantido pelo casal de sírios Abu Mohammed e Um Mohammed. Eles estão em Al Zaatari desde que o campo foi construído, há três anos. Ao mesmo tempo em que alimentam o desejo de voltar a ter uma vida normal em seu país, cultivam batatas, ervas e alguns pés de tomate que crescem no solo árido.

O casal usa parte de sua cota diária de água para irrigar e manter um retângulo sempre verde em meio à paisagem quase monocromática do acampamento. Apesar de estampado em seu rosto, Abu Mohammed não gosta de falar de seu sofrimento. “A dor que temos aqui nós não gostamos de contar a ninguém. Lembrar disso nos machuca tanto, e machuca tanto a quem ouve, que é melhor não falar.”

O tempo de visita acabou por volta das quatro da tarde, com o sol começando a ir embora, e tivemos de partir. Entre os dois check points, abri a janela do carro para fazer um registro proibido da área externa de Al Zaatari. Não é permitido usar câmeras em áreas com a presença de soldados. Fotografei rapidamente e logo desviei o olhar para o céu azul do verão jordaniano. Antes de cruzar o último check point e deixar a área vigiada, observei os pombos de Yehiga voltando para casa.

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