CRISES DA EUROPA

Mais de quatro anos depois da eclosão da guerra civil da Síria, os ecos dos canhões chegam até a Europa, na figura de milhares de refugiados de um conflito que não dá sinais de terminar. Pela primeira vez em décadas, a população europeia está sendo obrigada a se deparar com cenas de refugiados, muitos deles famintos, exaustos, sujos e desesperados.

  • Realidade da Arena Corinthians é bem diferente do projeto
  • Brasil já concede mais vistos de  refugiados a sírios que países europeus

Se na Grécia, Macedônia, Sérvia e Hungria, confrontos foram registrados nos últimos dias entre os refugiados e as polícias locais, na Alemanha e em outras partes do continente, são as autoridades e ONGs que se apressam para encontrar escolas vazias, atendimento médico e dinheiro em uma mobilização inédita para lidar com a crise.

A GUerra na Síria hoje estão na Europa e esse conflito terá um impacto aqui também”, afirmou ao Estado o secretário-geral do Conselho da Europa, Thorbjorn Jagland. “A partir de agora, a guerra da Síria também é um assunto europeu e é incrível que até hoje o Conselho de Segurança da ONU não tenha atuado”, disse. 

Por mais que a ONU tenha alertado que o conflito é a maior crise humana em décadas e já matou mais de 230 mil pessoas, nenhuma solução política foi encontrada. O mapa da Síria mudou de forma radical, o Estado Islâmico ganhou terreno e metade da população do país foi obrigada a abandonar suas casas – mais de 12 milhões de pessoas.

“Esse é o preço do fracasso político”, alertou Yacoub El Hillo, um dos principais representantes humanitários da ONU na Síria. Outro que lançou um alerta foi Paulo Sérgio Pinheiro, o brasileiro que lidera a Comissão de Inquérito da ONU sobre os Crimes na Síria. “A diplomacia fracassou e há anos avisamos que o resultado dessa crise seria uma ameaça à estabilidade mundial.”

Num primeiro momento, esses refugiados optaram por ir para Jordânia, Líbano e Turquia. Formaram cidades inteiras, mas sempre guardavam a esperança de que a guerra terminaria e retornariam para casa. “Minha mãe sempre nos dizia: não vamos muito longe, para ficar fácil de voltar”, afirmou ao Estado Yasmina Mena, de 14 anos, num centro de refugiados em Passau, na Alemanha. “Depois de dois anos eu e meus irmãos a convencemos de que não dava mais para viver daquele jeito e precisávamos vir para a Europa.”

Assim como Yasmina, milhares de outras pessoas entenderam que havia chegado o momento de buscar um futuro. Na última semana, as estimativas indicam que mais de 20 mil pessoas entraram na Europa vindas da Síria. No ano, foram 360 mil pessoas, num ritmo que ganha força. “Muita gente perdeu as esperanças de que a guerra termine logo”, confirmou Melissa Fleming, porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). Mas, segundo ela, há outro fator que pesou: o descaso da comunidade internacional com 1,9 milhão de refugiados sírios na Turquia e 1 milhão no Líbano e na Jordânia.

10 imagens

Na ONU, funcionários de alto escalão disseram ao Estado que o sentimento por meses foi o de que a comunidade internacional havia “rifado” a Síria e um acordo com o Irã parecia mais importante do que garantir o destino de Damasco. Em termos financeiros, a situação humanitária foi abandonada, o que teria puxado milhares de pessoas na direção da Europa.

Dos US$ 4,5 bilhões que a ONU precisa para garantir alimentos e abrigo para os refugiados sírios no Oriente Médio, a entidade recebeu apenas US$ 1,6 bilhão. Dos US$ 3 bilhões que precisa para ajudar os sírios que ficaram no país, a ONU recebeu apenas US$ 900 milhões.

Na semana passada, o Programa Mundial de Alimentação foi obrigado a suspender 229 mil benefícios que distribuía e a reduzir as rações. Um levantamento da ONU no Líbano mostrou que os refugiados estavam abaixo da linha da miséria do país.

Há ainda um outro motivo: a guerra se aprofundou e não existe mais local seguro no país. “A violência é endêmica”, indicou Pinheiro. “Não há um final em vista para o conflito”, admitiu, lembrando que tanto o governo sírio quanto o Estado Islâmico estão cometendo crimes contra a humanidade a cada dia. O resultado é uma onda de pessoas em busca de uma nova vida.

“Por anos pedimos ajuda da Europa para conter a guerra. A comunidade internacional nunca agiu. Onde está a ONU? O que estão fazendo os países?”, criticou Adnan, um refugiado de 32 anos, pai de três meninas, que aguardava para ser atendido em um posto perto da fronteira da Alemanha com a Áustria. “Como ninguém foi lá nos ajudar, decidimos vir até aqui pedir ajuda”, ironizou.

Uma prova disso é o perfil dos refugiados. “Por anos, vimos apenas homens tentando chegar até a Europa. Agora, são mulheres e crianças”, explicou Bertrand Desmoulins, representante da Unicef na Macedônia. “A tese que temos é a de que primeiro veio o homem, para abrir caminho. Agora, chegou a vez de ele trazer toda a família”, disse. Outro sinal de que o fluxo é duradouro é o fato de que as grávidas representam 12% dos refugiados.

O desembarque da guerra síria nas cidades europeias também terá um preço alto. Apenas na Alemanha, a ministra do Trabalho, Andrea Nahle, indica que gastará 3,3 bilhões euros para integrar esses refugiados, com cursos de alemão, seguro-desemprego e moradia. Até 2019, essa conta chegará a 7 bilhões de euros.

O novo cenário, porém, abre uma crise profunda na Europa: a de lidar com uma onda de estrangeiros justamente num momento em que os partidos xenófobos ganham espaço e eleições. Centros de acolhida de refugiados foram atacados e, em seis meses, as diferentes polícias registraram mais de 400 incidentes de xenofobia contra os estrangeiros. Os atos ainda foram seguidos por discursos de líderes com um tom ameaçador aos estrangeiros nesta semana. O mais enfático foi o do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que ergueu barreiras “para evitar que os cristãos fossem minoria em seu próprio continente”. Ele deixou claro que vai recusar a proposta da ONU e da Alemanha de que todos os países aceitem refugiados.

Na Eslováquia, o governo indicou que apenas aceitará refugiados cristãos, enquanto a República Checa passou a marcar os refugiados com números escritos em seus braços. Ativistas de direitos humanos protestaram, diante das semelhanças com o que era feito com os judeus. Ondrej Benesik, deputado checo, tentou explicar a ação do país com os refugiados. “Muita gente diria que somos racistas. Somos apenas mais cautelosos”, declarou.

Saiba mais sobre as rotas migratórias para a Europa

Na Polônia, o governo fez questão de alertar que o fluxo de pessoas poderia estar favorecendo a entrada de jihadistas do Estado Islâmico no continente europeu, camuflados de refugiados. “A crise dos refugiados expõe diferenças profundas em atitudes dos europeus”, constatou Melissa Fleming, porta-voz da ONU para Refugiados.

Para o alto-comissário da ONU para Refugiados, Antonio Guterres, o momento e até mesmo a foto do garoto sírio Aylan, morto na costa da Turquia, podem ser “chaves para reverter a onda de xenofobia”. “Esta é uma batalha de valores que a Europa precisa vencer.”

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s