MANUAIS (!?!?!?)

[texto original]

Cidades transbordam relatos contagiantes de quem, cansado de esperar, fez a mudança. Do protagonismo individual nasce uma inteligência coletiva

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Hofplein, Rotterdam. Este é um bairro reconstruído no Pós-Guerra, pródigo de infraestrutura e edifícios, mas desprovido de tecido urbano – justamente o que faz com que uma cidade seja cidade. Um grupo de cidadãos apaixonados por possibilidades entendeu que faltava tecer novos fios de relações humanas e conexões na estrutura esgarçada do espaço urbano. Arregaçou as mangas e construiu, literalmente, um caminho. Luchtsingel é uma ponte de 390 metros, formada por 17 mil placas de madeira, parecidas com palitinhos de picolé . Na falta de orçamento público, qualquer cidadão disposto a investir 25 euros teria seu nome gravado em uma placa. Em três meses, o projeto angariou 1.300 participantes e quase 100 mil euros [1].

[1] Para conhecer mais sobre a lógica deste e de outros projetos do grupo ZUS/Zones Urbaines Sensibles: Re-public — Towards a new spatial politics, de Elma van Boxel e Kristian Koreman. NAi Uitgevers Publishers, 2007

Jardim Eliane, São Paulo. Décadas atrás, o catador Pedro Henrique Mesquita [2] percebeu que a área encharcada seria o local ideal para criar seus cavalos. Com os anos, os vizinhos chegaram – de ocupantes informais ao Shopping Aricanduva. A área aberta tornou-se um emaranhado de casas e vielas. Até que Pedro Henrique resolveu transformar o derradeiro pedaço de chão não construído, o lixão da redondeza, no único espaço de lazer da região. Mais do que isso, em um cantinho de cidadania.

[2] Assista a vídeo

Nossas cidades transbordam de relatos contagiantes de quem, cansado de esperar, fez a mudança. Melhor: nos últimos anos, o protagonismo individual ganhou renovado ânimo e catapultado alcance, na prática da inteligência coletiva – termo com raízes na “inteligência simbiótica” de Norman Lee Johnson, em fins de 1970. Diálogo com a “noosfera” de Peter Russell, dos anos 1980, e cunhado por Pierre Lévy, em 1994, é a capacidade que um coletivo tem de reunir e articular competências e conhecimentos individuais, para reelaborá-los em benefício comum. Enfim, um processo coletivo e interativo de produção de conhecimento, baseado no que cada um sabe.

Mas funciona? A prática mostra que sim. Desde que certas condições sejam respeitadas – inclusive para evitar que supostos processos de inteligência coletiva sejam usados para legitimar a opinião de alguns.

1 Valorização da diversidade. O Vivero de Iniciativas Ciudadanas é uma plataforma aberta e colaborativa que promove, analisa e apoia iniciativas e processos de construção de cidadania. De microurbanismo a empoderamento cidadão para a transformação de espaços, de cartografias a bancos de tempo e moedas sociais.

Engajamento efetivo une reflexão e ação. O Sampa CriAtiva surgiu como um espaço virtual para o cidadão conhecer casos inspiradores de todo o mundo e do seu próprio bairro, repensar como melhorar a cidade e protagonizar essa mudança. Em uma das 810 propostas recebidas em seis meses, o maratonista Paulo de Jesus ofereceu às concessionárias de serviços públicos e à prefeitura a possibilidade de georreferenciar problemas preventivamente, a partir de quem mais circula pela cidade: os corredores de rua (assista aqui).

Informações múltiplas e compartilhadas. O recém-nascido EuVoto  surgiu para chamar a atenção dos moradores de São Paulo sobre os projetos de lei em trânsito na Câmara Municipal e registrar suas opiniões sobre eles. O projeto é apoiado pela Open Knowledge Brasil e usa o software DemocraciaOS, criado na Argentina e presente em cidades desde o México até a Ucrânia.

4 Transversalidade. Misto de think tank urbano com profissionais de várias áreas, centro comunitário e espaço de convívio, o BMW Guggenheim Lab busca inspirar novos modos de pensar a vida urbana. Participatory City, por exemplo, mapeou 100 tendências urbanas com os cidadãos de Nova York, Berlim e Mumbai.

Cada um com seu papel. A organização Code for America estimula pessoas talentosas a trabalhar onde normalmente odiariam: órgãos de serviços públicos que não funcionam tão bem como poderiam. Um exemplo é o Adopt a hydrant, aplicativo que estimula os cidadãos, as empresas e as organizações a fazer o que a prefeitura de Boston não conseguia sozinha — retirar a neve dos hidrantes, garantindo o seu funcionamento.

6 Respeito às regras pactuadas. Dublin City Beta é um laboratório vivo de ideias dos cidadãos voltadas para melhorar permanentemente a cidade – de criação de parklets à sinalização urbana. Dotado de 0,01% do fundo de inovação da cidade, o projeto “prototipa” as ideias que passam por um crivo de critérios (viável, passível de teste, sustentável, transferível) e as implementa em uma região definida da cidade, para que os cidadãos possam validá-las (ou não).

– See more at: http://www.pagina22.com.br/index.php/2015/04/novas-governancas-urbanas/#sthash.vfCkw8Z9.dpuf

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