CASA COLETIVA NÃO SE ADAPTA A VIDA NAS CIDADES

[texto original]

Uma mulher mexe o risoto em uma grande panela na cozinha. A refeição será servida para outras 11 pessoas. Nenhuma delas faz parte da sua família.

A cena é parte do dia a dia em um sobrado na zona oeste de São Paulo, onde vivem oito adultos e quatro crianças. Cada morador tem seu quarto, mas sala, banheiros e cozinha são de uso coletivo. Os eletrodomésticos também são usados por todos.

“Cada um tem a sua rotina, mas temos o compromisso de manter a casa em ordem, para que não vire uma república de estudantes”, diz a atriz Paula Lisboa, 37.

Mãe de um menino e uma menina, de seis e nove anos, ela vê os benefícios da vida em grupo na criação dos filhos. “Eles aprendem a respeitar as diferenças. Não têm apenas o pai ou a mãe para lhes mostrar o mundo.”

A ideia de morar em comunidade, em oposição ao modelo de família nuclear, surgiu no movimento hippie da década de 1960. Mas as tentativas atuais de viver de outro jeito guardam pouca relação com a “sociedade alternativa” daquele período.

Se mesmo em ambientes controlados, como as ecovilas, essas experiências nem sempre sobrevivem a conflitos, que dirá no contexto de grandes cidades.

O professor de história do urbanismo Renato Cymbalista, da FAU-USP, afirma que esse modelo de casa compartilhada é pouco adaptado às metrópoles, onde o preço da terra e dos recursos é mais alto e se gasta muito tempo no trabalho, o que rouba a energia que seria necessária para a vida comunitária. “Desenvolvemos uma tendência de privatizar, de individualizar as coisas.”

Na visão do urbanista, o formato comunitário não perdura no contexto urbano.

Cymbalista lembra que, para se adaptar ao preço do metro quadrado em São Paulo, o mercado tem apostado em imóveis com equipamentos compartilhados, como lavanderias e escritórios. Isso, contudo, está ligado à racionalização do espaço, não ao ideal de vida comunitária.

A outra proposta que busca estreitar a convivência entre famílias, só que com mais privacidade, o “cohousing”, ainda não chegou ao Brasil.

A arquiteta Lilian Lubochinski, 66, conheceu o modelo quando se especializava em soluções arquitetônicas para a terceira idade. Tornou-se a maior divulgadora do conceito no Brasil.

“É um assunto que está latente, as pessoas só não sabiam que tem um nome”, diz Lubochinski. “O grande atrativo é que os seus vizinhos são seus amigos, você já começa em um grupo que quer morar perto. Essa é a diferença em relação a um condomínio qualquer.”

Desde 2013, ela deu mais de 20 palestras de introdução ao cohousing em cidades como São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, e abriu páginas de discussão sobre o tema no Facebook.

Segundo ela, a ideia é procurada por idosos e casais com filhos pequenos.

Em Piracicaba (SP), o arquiteto Rodrigo Munhoz, 36, criou um projeto com sete casas que inclui piscina e telhados verdes. Ele diz que já tem famílias interessadas em número suficiente para dar andamento ao que seria o primeiro experimento brasileiro de cohousing. Falta parceria para comprar um terreno.

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